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Full text of "Correspondencia epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Camillo Castello Branco : escripta durante os dous ultimos annos da vida do illustre orador"

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210  paginas. 

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N.»  8  —  Casa  com  < 
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N.»  10  — Rosa  e  Ninette,  de  A.  Daudet. 

N.»  11  —  Primeiro  amor,  de  Ivan  Tourgueneft^  1  vol.  de  160  pag. 

N.»  12  — Peccado  mortal,  de  André  Tneuriet,  1  vol.  de  170  pag. 

N.»  13  —  0  Judeu,  de  Henry  Murger,  1  vol.  de  160  paginas. 

N.»  14  —  0  tanoeiro  Nuremberg,  de  Hoffmann,  1  vol,  de  170  pag. 

N."  15  — Dinheiro  maldito  (Polikouchka).  costumes  russos,  pelo 
Conde  Leon  Toistoi. 

N.»  16  — Vida  phantastica,  por  Mèry,  1  volume  de  170  php. 

N.»  17-0  padre  Daniel,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  160  pag. 

N.»  18  — Um  coração  simples,  de  Gustave  Flaubert,  l  vol.  de 
170  paginas. 

N.»  19  —  Yan,  de  Jean  Rameau,  1  volume  de  170  pai?. 

N.«  20  —  0  tio  Scipião,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  196  pag. 

N.*^  21  —  Diário  de  uma  mulher,  de  Octávio  Feuillet,  1  vol.  de 
200  paginas. 

N.*  22-0  crime  do  juiz   de  Paulo  Féval,  1  vol.  de  170  pHg. 

N.»  23  -  A  Inundação,  de  Emílio  Zola,  1  vol.  de  187  pag. 

N.»  24—  Os  Rantzau.  de  Erekman  Chatrian,  1  vol.  do  200  pag. 

LISBOA 
Parceria  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

(LIVRARIA    editora) 
50,  52  —  Rua    Augusta  —  52,  54 


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S.»  1  —  Triêtesaa  á  Beira-Mar.  romance  de  Pinheiro  Chagas,  1  Tol. 
M.o  2—  Con<o«  ao  Luar,  por  JuIio  César  Machado,  1  vol. 
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N.o  6  —John  BuU  e  a  suaUha,  traducçâo  de  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 
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N.»   10—  Vinte  annos  de  vida  lUteraria,  por  Alberto  Pimentel,  1  vol. 
N."    11— Honra  d'artista,  romance  de  Octávio  Feuillet,  traducçâo  de  Pi- 
nheiro Chagas,  1  vol. 
N.»  12  —  0«  meus  amores,  contos  e  bailadas,  po    Trindade  Coelho,  1  vol. 
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N."  34-0  correio  de  Lyão,  por  Pierre  Zaccone. 

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N."  87  —  Opras  primas,  por  Chateaubriand. 

N.«  38  —  O  Exilado,  romance  histórico,  por  Manricia  C.  de  Figueiredo. 

N."  89  — Poema  da  Mocidade,  por  Pinheiro  Chagas. 

N.«  40  e  41  —  .á  Vida  em  Lisboa,  por  Jnlio  César  Machado. 

N.*  42  e  á3  — Espelho  de  Portuguezes,  por  Alberto  Pimentel. 

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nheiro Chagas. 

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N."  47  —  Ninho  de  guincho,  por  Alberto  Pimentel. 


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•N.»  10— Um  romance  de  mulher,  por  Pierre  Mael. 

•  N.»  11  — Vontade,  por  Jorge  Ohnet. 

•  N.»  12  —  0  Nababo,  por  A.  Daudet. 

•  N.»  13  —  Um  coração  de  mulher,  por  Paul  Bour^et. 

•  N.»  14  — Beatriz,  por  Rider  Haggard. 

•  N.«»  15  —  O  crime,  por  Gabriel  d'Annunzio. 

•  N.»  16  —  Lise  Fleuron,  por  Ohnet. 

N  •  17  —  Os  dois  rivaes,  por  Armand  Lapointe. 

N.»  18  —  O  ultimo  amor,  por  Jorge  Ohnet 

N.«  19  — Um  Búlgaro,  por  Ivan  TourgueneflF. 

N.o  20  — Memorias  d'nm  suicida,  por  Maiime  du  Camp. 

N.»  21  —Forte  como  a  morte,  por  Guy  de  Maupassant. 

•  N.«  22  —  A  alma  de  Pedro,  de  J.  Ohnet 
N.»  23  —  Camilla,  de  Guérin-Ginisty 

N.«  24  — Trahida,  de  Maxime  Pat. 

N.*  25  —  Sua  Magestade  o  Amor,  por  A.  Belot. 

N.*  26  — Magdalena  Férat,  por  Emilio  Zola. 

N.»  27  —  Os  Reis  no  exilio,  por  A.  Daudet 

N.»  28  — Divida  de  ódio,  por  Jorge  Ohnet 

N.*  29  —  Mentiras,  por  Paul  Bourget. 

N.»  30  —  Marinheiro,  por  Pierre  Loti. 

N.«  31  —A  montanha  do  Diabo,  por  Eugénio  Sue. 

N/  32  —  A  Evangelista,  por  A.  Daudet. 

•  N.*  33  —  Aranha  Vermelha,  por  R.  de  Pont  Jeet. 
N.»«  34  e  35  —  Ódio  antigo,  por  Jorge  Ohnet. 

N.*  36  —  Parisienses  I  • .  •  romance,  por  H.  Davenel. 

N.*  37  —  Ao  entardecer!...  rom.,  por  Iveling  Ramband. 

N.<>  38  — A  confissão  de  Carolina,  romance. 

N.»  39  — Um  casamento  no  mosteiro,  por  Alfredo  Assolland. 

N.*  40  —  Os  Parias,  original   de   Francisco  da  Rocha  Martins. 

N.*  41  —  0  abbade  de  JFaviôres,  romance,  por  J.*  Ohnet. 

N.*  42  — A  agonia  de  uma  alma,  romance,  por  Ossip  Fchubin. 

N.«  43  —  Memorias  d'um  burro,  por  Madame  Ségur. 

N.»  44  —  A  nihilista,  por  Catulle  Mendes. 

N.»  45  —  0  grande  Industrial,  por  George  Ohnet 

N.«  46— Morta  d'amor,  por  Albert  Delpit. 

N.»  47— João  Sbogar,  por  Carlos  Nadier. 

N.*  48— Viagem  sentimental,  por  Sternè. 

N.*  49—0  nulhão  do  tio  Raclot,  por  Emile  Richebourg. 

TodoB  08  vol.  oom  este  signal  *  estio  esgotados  mas  yio  ser  re- 
impressos. 


OBRAS 

DE 

CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 


EDIÇÃO  POPULAR 

CORRESPONDÊNCIA  EPISTOLAR 


VOLUMES    PUBLICADOS 


I  —  Coisas  espantosas. 
II— As  três  irmans. 
III — A  engeitada. 
IV  — Doze  casamentos  felizes. 
V  —  O  esqueleto. 
VI— O  bem  e  o  mal. 
VII  — O  senhor  do  paço  de  Ninães. 
VIII  —  Anathema. 
IX  — A  mulher  fataL 
X  —  Cavar  em  ruínas. 
XI  e  XII  —  Correspondência  epistolar. 


CORRESPONDÊNCIA 

EPISTOLAR 

ENTRE 

mi  num  mu  i  mm 

E 

CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 


ESCRIPTA  DURANTE  OS  DOUS  ÚLTIMOS  ANNOS  DA  VIDA 
DO    ILLUSTRE   ORADOR 


^57'OLXJ3S/^E     I 


SEGUNDA  EDIÇÃO 


LISBOA 

Í^ARCERiA  António  Maria  Pereira  —  Livraria  Editora 

Rua  Augusta  —  5o,  52  e  54 

1903 


LISBOA 

Typographia  da  Parceria  António  Maria  Pereira 

Rua  dos  Correeiros,  70  e  72, 1.° 


JOSÉ  CARDOSO  VIEilIA  OE  MO 


«. .  .Não  me  lastimes.  A  lastima  é  de 
chumbo  para  as  consciências  fortes, 
para  os  espíritos  que  amaram  immen- 
samente  o  seu  ideal,  para  os  corações 
que  se  deixaram  crivar  por  causa  d'esse 
amor. . .  A  tua  phrase  passará  no  meu 
tumulo  como  a  briza  de  Deus,  e  afu- 
gentará os  corvos  de  me  irem  roubar 
com  a  sua  sede  os  orvalhos  mandados 
ás  letras  cavadas  do  meu  epitaphio.» 

j.  c.  VIEIRA  DE  CASTRO.  —  Conscienctã. 


Illr'  e  F^.^^  Snr. 
António  Manoel  Lopes  Vieira  de  Castro. 


Se  o  espirito  do  nosso  querido  José  viesse  d^ou- 
tros  mundos,  attrahido  pela  invocação  d' alguém 
que  o  chora; — se  elle  visse  estes  livros,  como  o 
sudário  em  que  nos  deixou  as  suas  lagrimas  de 
sangue  —  tomai- os-hia  das  minhas  mãos,  e  iria 
depôl-os  sobre  o  coração  de  V.  Ex."^ 

Se  eu  podesse  ajoelhar  diante  da  sepultura  do 
nosso  infeli{,  em  Loanda,  dir  Ihe-hia:  ^' Meu  fi- 
lho, a  parte,  digna  de  benção,  que  eu  tenho  n^esta 
obra  do  teu  martyrio,  é  o  dedical-a  ao  teu  maior 
amigo  na  vida  e  na  morte—  aquelle  a  quem  tu 
chamavas  o  ^^ exemplo  da  tua  honra  e  o  teu  braço 
colossal  e  inquebrantável  contra  a  desgraça.,, 

Permitta  Deus  que  estas  paginas  não  levem 
mais  cerrada  condensarão  de  tristeza  aos  eternos 
lutos  da  sua  saudade,  meu  nobre  amigo. 


S.  ^Líc^xvtí  de.  Scv9e., 


(^amt'm>  (^ash^  ^/ora 


anco. 


(2^  (^(íaue/de  'ffeic/e  O  c/e  maio  f/e  lé^y/-. 


Faz  hoje  quatro  annos  que  Vieira  de  Cas- 
tro abriu  uma  sepultura,  fechou  n'ella  um  ca- 
dáver purificado  da  deshonra  pela  compai- 
xão, e  começou  a  sua  agonia  de  dous  annos  e 
meio. 

Aquella  senhora^  se  a  sua  funesta  estrelia 
não  se  apagasse  n'esse  dia,  estaria  hoje  na  ge- 
hena  onde  ardem  as  repulsas  da  virtude.  A 
sociedade  das  mulheres  honestas  dar-lhe-hia  o 
absintho  do  desprezo  quando  ella  já  não  tivesse 
lagrimas  com  que  mitigar  o  ardor  da  sua  ver- 
gonha. Se  a  precita  exclamasse:  «Eu  de- 
linqui;  mas  o  remorso  rehabilitador  fez-me 
digna  de  vós!»,  ellas  bradar-lhe-hiam :  «Não! 
se  a  cruz  do  opprobrio  te  averga,  prostra-te, 
morre ! » 

E  ella,  se  reagisse  á  ignominia,  iria  acossada 
até  ao  prostíbulo;  e,  desde  o  limiar  do  inferno 


10  Correspondência  epistolar 

das  esposas  réprobas,  olhando  para  a  socieda- 
de, cruel  no  ódio,  crudelissima  no  desamparo, 
diria:  «Se  meu  marido,  convertendo  em  si 
uma  parte  da  vossa  ira  e  do  vosso  desprezo, 
me  houvesse  morto,  que  farias  tu,  ó  mundo? 
Se  te  não  fiz  mal,  porque  me  insultas?  Se  o 
coração,  que  apunhalei,  me  afogou  com  um 
hausto  do  seu  próprio  sangue,  com  que  direito, 
ó  sociedade,  matarias  o  homem  que  me  sacri- 
ficou a  ti,  opinião  publica!» 

Para  as  peccadoras  vivas  —  a  ignominia,  os 
círculos  todos  do  inferno  social.  Para  as  pec- 
cadoras, punidas  pela  mão  que  as  acariciara  — 
o  espectáculo  das  carpideiras  de  landeau  e 
break  ás  portas  dos  templos,  a  oração,  a  missa, 
a  sacrílega  alliança  da  piedade  com  o  ódio,  os 
resplendores  eternos  mediante  a  recommenda- 
ção  de  taes  patronas  —  validas  do  céo. 


Vieira  de  Castro,  quando  matou  a  esposa 
que  idolatrava,  não  era  o  louco  da  honra^  co- 
mo ahi  disse  o  seu  insigne  defensor.  Se  a  tri- 
bulação o  houvesse  alienado,  a  lei  devolvêl-o- 
hia  á  sociedade,  dizendo-lhe:  «Gomo  mataste 
sem  a  consciência  da  tua  deshonra;  —  como 
não  matarias,  se  tivesses  juizo; — vai-te   em 


Correspondência  epistolar  ii 

paz;  que  nós,  os  jurados,  só  pedimos  o  de- 
gredo e  a  morte  dos  maridos  que  sacodem  o 
jugo  da  deshonra  com  a  luz  da  razão  na  cons- 
ciência. Se  ousasses  confessar  que  vias  em  ti 
a  ignominia  immerecida  e  em  tua  mulher  o 
ultrage  irreparável,  quando  a  arrancaste  de  ti, 
como  Laacoon  desdaria  os  nós  da  serpe,  en- 
tão, desgraçado,  irias  morrer  em  Africa.  Nós 
cá  absolvemos  os  doudos,  e  condemnamos  os 
honrados.» 

Montesquieu  parecia  assentar  um  paradoxo, 
quando  dissera:  Os  três  tribunaes  da  Lei,  da 
Religião  e  da  Honra  não  podem  uniformisar-se. 
E  não. 


—  Como  defenderias  o  teu  crime?  —  per- 
guntei a  Vieira  de  Castro  em  uma  das  minhas 
cartas. 

Respondeu : 

«Eu  defenderia  o  meu  crime  pelos  dous  motivos 
que   o  inspiraram.  Defenderia,  não.  Explical-o-hia. 

«Esses  dous  motivos  foram  :  o  amor  despeda- 
çado em  mim;  o  único  respeito  e  o  ultimo,  e  o 
único  possível  por  mim  prestado  á  mão  homicida 
d'esse  amor. 

«Esta  a  base  da  defeza.  A  única.  Em  mim,  se 
entende  ;  porque,  em  mim,  esta  é  que  foi  a  verdade  ! 


12  Correspondência  epistolar 

«Eu  defenderia  o  marido  que  matasse,  se  esse 
marido  tivesse  morto  por  ter  amado,  e  por  salvar 
o  único  respeito  compativel,  na  memoria  e  no  tem- 
po, com  a  lembrança  da  senhora  que  trouxera  no 
mundo  a  amctade  do  seu  nome. 

«Provaria  a  sublimidade  do  marido  que,  tendo 
feito  sempre  da  esposa  a  sua  amante  dilecta,  quan- 
do a  viu  peccadora  irredimivel,  lhe  provou  ainda 
o  infinito  do  seu  extremo,  fazendo-a  martyr,  sal- 
vando-a  n'um  relâmpago  das  diatribes  humanas, 
impondo-a  á  piedade  do  mundo,  e  atirando  com  o 
seu  espirito  para  o  seio  immenso  de  Deus. 

«Esta  a  defeza. 

«E  qual  a  prova  da  d  feza?  A  premeditação. 

«A  premeditação  é  a  máxima  eloquência,  a  má- 
xima dignidade,  a  máxima  apotheose,  o  máximo 
tormento  —  a  augusta,  a  divina  santificação  d'estes 
crimes. 

oE'  o  máximo  tormento;  —  porque  premeditar 
é  assistir  um  com  o  corpo  frio  e  os  olhos  volvidos 
para  dentro,  e  os  ouvidos  estupidamente  attentos 
ao  ruir  infernal  dos  pedaços  do  coração  uns  con- 
tra os  outros,  e  por  cima  desse  lago  de  fogo  a 
razão  implacável  como  o  Satanaz  vingativo,  cor- 
rendo atraz  d'aquelles  pedaços,  e  trovejando  lhes 
em  cima  das  quedas  o  epithaphio  das  alegrias  se- 
pultadas, á  mistura  com  a  chamma  vermelha  dos 
impropérios  que  hão  de  ser  os  goivos  d'essas  mor- 
tes illustres  !  Premeditar  é  experimcntarse  um 
assim  voluntariamente,  entre  fogos  e  gelos ;  atirar 
corti  o  seu  corpo,  sem  intervallos,  para  lagos  e 
vulcões,  retalhando-se  por  martyrios  que  não  cou- 
beram nos  infernos  de  Dante  e  Milton,  inferiores 
por  ventura  aos  que  espalhou  na  região  das  trevas 


Correspondência  epistolar  i3 

a  cólera  suprema ;  e  ser  martyr  assim,  é  ser  heroe 
a  cada  hora,  luctador  diíferente  a  cada  instante, 
segurando  a  razão  para  ler  nas  paredes  rubras  do 
seu  inferno,  a  sentença  já  em  nenhuma  instancia 
revogável  da  sua  desgraça !  E'  ser  heroe  d'este  ta- 
manho, sem  nenhum  outro  tablado  senão  os  pavi- 
mentos alcatificados  aonde  muitas  vezes  expiraram 
os  beijos  do  seu  amor,  quando  a  sua  meiguissima 
ternura  corria  folgazã  de  rojo  com  elles,  á  procura 
dos  seus  pés  adorados ;  sem  nenhum  outro  publico 
senão  o  cadáver  inerte  de  si  próprio ;  sem  nenhuns 
outros  echos  fora  de  si,  senão  o  fragor  tumultuado 
das  catastrophes  interiores,  e  o  infernal  alarido  da 
gargalhada  publica,  ao  fazerem-lhe  á  sua  impia 
fome  praça  aberta  d'essas  ruinas  sacrosantas,  alu- 
miadas para  a  vista  dos  estúpidos  e  dos  perversos, 
pelo  coronal  d'esse  craneo  sublime  aonde  todas  as 
angustias  se  atropellaram ;  mas  aonde  todas  tiveram 
logar  e  momento  para  fallarem,  sem  que  Deus  per- 
mittisse  que  nenhuma  d'ellas  nem  todas  ellas  jun- 
tas, lhe  lascassem  uma  fenda  por  onde  desappare- 
cesse  o  orgulho,  o  amor  e  a  honra;  —  craneo  su- 
blime aonde  qualquer  dos  infames  da  ruidosa  turba 
metteria  despejadamente  a  sua  vela  de  cebo  nas 
clandestinas  elaborações  de  suas  deshonras  e  pro- 
tervias. 

«Premeditar  é  ter  a  gente  dentro  da  cabeça  um 
conciliábulo  de  espíritos  diabólicos,  e  com  o  nosso 
coração  apertado  nas  tenazes  esbrazeadas  de  cada 
um  d'elles,  avançar  um  e  dizer-nos :  «Não  mates 
porque  só  Deus  pôde  matar !»  E  outro :  «Na  sepul- 
tura que  tu  abrires,  cahirá  também  a  tua  razão  que 
alli  despenhará  a  infâmia  estimulada  pelo  teu  de- 
saggravo!»    E  outro:    «Que  importa  a  deshonra  ? 


14  Correspondência  epistolar 

quantos  são  mais  ricos  por  amor  d'ella?»  E  outro 
a  final :  «Quem  ha  de  crer  n'esse  paradoxo  que, 
de  parceria  com  o  teu  inculcado  talento,  vivia  esse 
coração  delicado  em  cujas  cinzas  queres  envolver 
as  de  todo  o  teu  ser,  na  ultima  e  na  mais  estúpida 
labareda  do  teu  amor?  Espanca  essa  nuvem,  des- 
graçado !  Poe  no  lugar  d'esse  teu  melindre  piegas 
a  tolerância  das  deshonras  dissolutas,  e  apaga  esse 
rubor  infantil  da  tua  face  na  pallidez  cynica  da  de- 
vassidão elegante  !  Que  monta  isso  ?  Que  sacrifício 
fazes  ?  correrás  mais  seguro  a  novos  triumphos, 
terás  menos  disputada  a  coroa  de  novas  glorias,  e 
até,  e  sinceramente,  crê,  hão  de  mais  verdadeira- 
mente estimar-te  aquelles  para  quem  já  a  honra  do 
teu  lar  não  possa  ser  uma  inveja  e  um  desespero ! 
Se,  desvairado,  obedeces  á  tua  fúria  homicida,  a 
tua  expiação  será  sem  nome.  Treme!  Lamber-te- 
hão  de  toda  a  parte  as  línguas  de  fogo;  e  tu,  Me- 
zencio  de  uma  nova  e  mais  cruel  agonia,  sem  mo- 
vimento em  meio  d'cllas,  atado  no  teu  corpo  como 
ao  teu  próprio  cadáver,  com  toda  a  tua  sensibili- 
dade para  soífrer,  sem  átomo  de  força  para  reagir, 
assistirás  assim,  mudo,  inerte,  despedaçado,  ao 
esphacellamento  satânico  de  todas  as  tuas  carnes, 
ao  espicaçar  de  todas  as  tuas  fibras,  uma  a  uma, 
ao  enxovalho  brutal  de  tuas  mais  nobres  dores, 
ao  escarneo  cruel  das  tuas  melhores  virtudes,  ao 
prostituir,  ao  chacotear,  ao  apedrejar  de  tudo  quan- 
to em  tua  vida  e  no  teu  amor,  e  nas  tuas  aspira- 
ções, e  nos  teus  affectos,  sentiste  sempre  em  ti 
de  bom  e  de  grande,  de  virtuoso  e  de  puro,  de 
elevado  e  de  nobre,  de  óptimo  e  de  justo.  Que  im- 
porta e  que  vale  um  amor  que  se  extingue  ?  Por 
cada  ideal  que  se  esvae,  mais  uma  victoria  contra 


Correspondência  epistolar  i5 

a  matéria  !  E  tu,  homem  d'este  século,  não  pode- 
rás fugir  á_  philosophia  d'elle,  que  n'outras  luctas 
te  recusará  os  applausos  de  que  tem  vivido  e  viverá 
a  tua  alma,  se  tu  o  affrontares,  atirando-lhe  á  cara 
a  condição  escripta  que  elle  põe  aos  teus  novos 
triumphos — condição  reconhecida  e  aceite  por  tantas 
eminências  ante  as  quaes  tu  és  publico  apenas,  e 
por  tanto,  publico^  cujo  anonymo  nenhum  valor 
denuncia  \  mas  que  se-  contenta  em  ser  eminente, 
no  desassombro  com  que  entra  na  partilha  das  tor- 
pezas communs.» 


Martyrios  que  não  couberam  no  inferno  de 
Dante — disse  elle.  «Dante  não  pintou  os  sup- 
plicios  todos  dos  condemnados  da  morte:  ha 
ahi  condemnados  da  vida  que  percorrem  cír- 
culos de  maior  inferno  que  os  da  Divina  Co- 
mediayy — disse  Lamennais. 


Como  são  tristes  estas  flores  do  talento  or- 
valhadas de  sangue! 

Não  bafejara  Deus  ao  espirito  do  homem 
imagens  tão  coloridas  para  esclarecimento  de 
tamanhas  desgraças.  A  estupefacção,  a  atro- 
phia  da  alma,  o  terror  tácito  deveram  ser  a 
expressão  única  d'aquelle  homem,  se,  por  de 


j6  Correspondência  epistolar 

sobre  todas  as  voragens  abertas,  elle  não  sen- 
tisse a  robustez  da  dignidade,  sopesando  os 
pavores  do  degredo  e  da  morte. 

A  loucura  da  honra  ?! 

Não.  Era  o  profundo  e  lucidissimo  senti- 
mento do  seu  ultrage  e  do  seu  desforço.  Os 
dementes  não  escrevem  assim;  não  descem  até 
ao  fundo  do  seu  abysmò,  com  a  lâmpada  da 
razão,  encadeando  as  primicias  do  seu  infor- 
túnio, e  concluindo  por  se  offerecerem  ás  pre- 
sas da  justiça,  salvando  a  sua  victima  de  peor 
cadafalso  —  o  dos  insultadores,  e,  peor  ainda, 
o  das  insultadoras. 

Eu  não  sei  se  a  opinião  publica,  em  sacrifí- 
cio ás  suas  aras  immaculadas,  quer  que  se  lhe 
inculque  a  loucura  de  Vieira  de  Castro,  quando 
obrigou  a  mulher  a  transpor  primeiro  que  elle 
as  portas  da  eternidade. 

Mentir-lhe !  —  para  quê? 

Pois  a  opinião  publica  não  o  matou,  justa- 
mente porque  elle  não  estava  doudo? 

E,  se  estava,  se  assim  vos  praz  insinual-o 
a  vossos  maridos,  senhoras,  porque  lhe  an- 
dastes cavando  a  sepultura  com  a  hypocrisia 
nos  templos,  e  a  injuria  no  cárcere,  e  as  de- 
clamações nas  salas,  e  o  estylete  hervado  no 
soalheiro  dos  jornaes ! 

Vieira  de  Castro  é  morto;  e  toda  essa  jolda 
de  infames  sem  caridade  nem  remorso  está  vi- 


Correspondeficta  epistolar  77 

va,  medrada,  com  o  seu  arnez  de  hypocrisia, 
com  o  seu  despejo  invulnerado. 

Louco .  .  .  aquelle!  seria,  como  todos  os  ho- 
mens de  génio  que  não  lograram  nunca  inocu- 
lar no  cérebro  o  regimen,  o  methodo  das  ca- 
beças atiladas,  des  bonnes  caboches  ordinaires, 
dizia  Victor  Cousin. 

Louco,  sim  —  disse  Henri  Blaze  —  como  as 
profundas  naturezas  em  que  certas  faculdades 
particulares,  certas  forças,  se  desenvolvem  a 
expensas  da  harmonia  geral. 


Recordemos.  Busquemol-o  na  mocidade,  na 
alegria,  nas  chimeras,  nas  bizarrias,  nas  isen- 
ções, no  denodo  das  suas  sympathias,  na  co- 
ragem das  suas  opiniões,  nas  luctas  com  o 
senso- vulgar,  nas  reacções  contra  as  trivialida- 
des, em  fim,  na  porfia  com  que  procurava  a 
felicidade  e  ao  mesmo  tempo  a  repellia. 

Recordemos. 

Ainda  não  contava  dezeseis  annos  Vieira  de 
Castro,  quando  traduziu  a  Solidão^  de  Zimmer- 
mann.  Que  havia  commum  entre  aquella  crian- 
ça e  as  meditações  hypocondriacas  do  medico 
allemão  ?  Que  consonância  inexplicável  de  sen- 
timentos entre  a  juventude  alegre   e  rica  do 


VOL.  I 


i8  Correspondência  epistolar 

collegial  de  Nosssa  Senhora  da  Lapa  e  as  con- 
centrações lúgubres  do  philosopho  sombrio  que 
morrera  doudo,  quando  procurava  a  razão  das 
suas  trevas  ?  Nunca  elle  m'o  explicou.  Disse- 
me  que  o  livro  lhe  dera  as  primeiras  lagrimas 
do  espirito,  que  se  anteciparam  n^elle  as  lagri- 
mas do  coração ;  que,  terminada  a  leitura,  de- 
sejara a  soledade  absoluta,  como  se  houvesse 
vivido  muito,  e  sentisse  no  peito  as  cinzas 
quentes  das  suas  esperanças,  e  a  convicção  de 
uma  irremediável  desgraça. 

Eu  não  o  conhecia,  n'aquelle  tempo,  em  1 8  ^4. 
Via-o  nas  janellas  da  sua  casa,  que  abriam  so- 
bre a  quinta  do  Pinheiro,  onde  eu  morava. 
Observei  que  elle  não  desfitava  de  mim  a  lu- 
neta com  uma  fixidez  que  me  lisongeava.  E, 
ás  vezes,  ouvia-lhe  as  gargalhadas  de  jovial 
applauso,  quando  eu  cavalgava  um  mau  ca- 
vallo  em  pêllo;  e,  remettendo  em  desenfreado 
galope  por  baixo  do  esgalho  de  uma  arvore, 
me  pendurava  no  ramo,  e  deixava  em  vertigi- 
nosa liberdade  o  cavallo. 

Eu  tinha  27  annos  mais  pueris  que  os  deze- 
seis  d'aquelle  menino  que  vertia  intelligente- 
mente  as  mysanthropias  de  Zimmermann. 

No  Nacional^  onde  eu  escrevia,  sahiram  ano- 
nymos  os  folhetins  do  incógnito  traductor  da 
Solidão,  Figurou-se-me  que  alguns  dos  derran- 
cados  leões  de    i83o,  espreitando  o  céo  pela 


Correspondência  epistolar  ig 

floresta  do  seu  tédio  da  vida,  nos  queria  guiar 
a  nós,  os  rapazes  de  1854,  aos  invernos  algi- 
dos  do  coração,  ao  desengano  das  cousas  boas 
e  más  que  ora  enfloram,  ora  ensilveiram  as  ve- 
redas da  mocidade.  Quando,  porém,  me  asse- 
veraram que  o  interprete  do  solitário  germâ- 
nico era  o  rapazinho  louro  que  se  ria  do  meu 
selvagismo  de  gineta  e  estardiota,  desejei  estu- 
dar aquelle  espirito  que  emmurchecia  envolto 
em  grinaldas  de  rosas. 

Volvidos  dois  annos,  vi-o  n'um  theatro.  Ain- 
da o  não  conhecia  pessoalmente.  Mostraram- 
m*o,  exagerando-lhe  as  verduras  amorosas  com 
uma  actriz,  não  sei  se  dançarina,  se  dramá- 
tica. O  que  quer  que  fosse  alvorejava  hyper- 
bolesde  enthusiasmo  no  moço  imberbe,  —  ex- 
plosões não  aconselhadas  por  Zimmermann, 
mas  frizantes  com  os  dezoito  annos,  embora, 
trovejadas  de  cima  das  cadeiras  daplatêa.  Mui- 
ta palma,  muito  tó,  muita  flor  com  fitas  bara- 
tas, louvores  e  satyras  já  eloquentes,  muita  me- 
taphora,  muita  moeda  falsa  de  sentimentalismo, 
brindes  á  franceza  em  cêas  menos  nocivas  aos 
bons  costumes  que  aos  estômagos  portugue- 
zes,  e  mais  nada.  Vieira  de  Castro  alegrava-me, 
dava-me  inveja  da  sua  jovialissima  estouva- 
nice,  radiava  juventude  em  redor  de  si. 

O  tribunal  da  opinião  publica  chamou-ologo 
á  barra.  Todos  os  membros  do  dito  tribunal, 


20  Correspondência  epistolar 

maiores  de  quarenta  annos,  reprovaram  que 
José  Cardoso  Vieira  de  Castro  tivessse  dezoito 
primaveras,  aggravadas  pelo  delicto  de  balbur- 
diar  nos  theatros,  de  expor  o  seu  coração  en- 
tre gargalhadas  nos  camarins,  de  incommodar 
ás  três  horas  da  manhã  a  digestão  eosopôrle- 
thargico  dos  hospedes  da  Estrella  do  Norte. 


Foi  na  Estrella  do  Norte  que  eu  failei  com 
Vieira  de  Castro,  em  iSSy,  quando  elle  reco- 
lhia riscado  da  Universidade  porque,  a  impul- 
sos de  generosa  indignação  e  com  a  omnipo- 
tência da  palavra,  obrigara  o  corpo  docente  a 
reparar  a  injustiça — injustiça,  ao  parecer  de 
Vieira  de  Castro  —  feita  ao  snr.  doutor  Augusto 
César  Barjona  de  Freitas.  Barjona  entrou  re- 
habilitado  no  magistério;  o  académico  que  elu- 
cidara a  razão  obcecada  dos  cathedraticos  foi 
riscado.  Este  contrasenso  —  a  admissão  de 
um  e  a  expulsão  do  outro  — não  foi  explicado: 
é  um  paradoxo  exclusivo  da  vida  de  Vieira  de 
Castro,  tecida  de  brilhantes  fios,  mas  com  lou- 
vores excepcionaes,  somente  seus. 

Elle  não  se  deplorava  do  seu  infortúnio,  re- 
iatando-me,  sem  se  envaidecer,  o  arrojo  de 
reprovar  uma  decisão  que  prejudicava  a  car- 


Correspondência  epistolar  21 

reira  de  um  homem,  nem  sequer  seu  conheci- 
do !  Que  alma  tão  descabida  n'estes  tempos  em 
que  apenas  temos  o  snr.  Viale  a  fallar-nos  em 
falsete  de  almas  gregas,  e  o  snr.  João  Félix  a 
dar-nos  ingrammaticalmente  varias  noticias 
das  almas  romanas ! 

O  livro  intitulado  Uma  pagina  da  Univer- 
sidade foi  o  desafogo  e  a  consolação  do  brio, 
injuriado  pela  suspensão  biennal  da  sua  carrei- 
ra e  mais  ainda  pelo  silencio  cobarde  de  tantos 
que  o  incitavam  e  applaudiam  nas  suas  ousa- 
dias imprudentes.  Se  Vieira  de  Castro,  em  vez 
de  grande  e  recto  animo,  fosse  dotado  dejuizo 
são,  e  egoismo  discreto,  incommodára-se  tanto 
do  snr.  Barjona  preterido  no  magistério  como 
de  Coriolano  expulso  de  Roma.  Dous  annos 
sacrificados  a  um  rapto  de  generosidade,  e  de 
respeito  á  justiça;  e  cá  por  fora  o  mundo  a  re- 
muneral-o  com  a  reputação  de  estúrdio...  Al- 
gum raro  amigo,  sem  lhe  applaudiro  feito,  não 
podia  reprovar-lh'o.  Seria  isso  atirar-lhe  para 
dentro  do  coração  febril  de  impulsos  nobres 
este  chumbo  derretido  que  nós  cá  dizemos  á 
franceza,  saber-viver^  e  á  portugueza,  o  arran- 
J0'de-cada-um.  Aqui  está  uma  phrase  bem  es- 
parramada que  parece  ter  sido  arranjada  para 
nós  na  torre  de  Babel,  quando  se  formaram  os 
idiomas. 

O  arranjo-de-cada-um:  cousa  que  nem  Viei- 


22  Correspondência  epistolar 

ra  de  Castro  nem  eu  percebíamos.  Quem  tinha 
parafusado  bem  no  miolo  da  phrase  era  o  snr. 
doutor  e  secretario  doestado  Barjona  de  Frei- 
tas, quando  Vieira  de  Castro  estava  no  Limoei- 
ro. Dir-se-hia  que  nunca  setinham  visto  nem  na 
estrada  plana  dos  que  se  encontram  honrados, 
nem  nas  encruzilhadas  escusas  onde  se  topam 
os  aventureiros  que  arpejam  noite  alta,  as  suas 
loas  ás  Julietas  de  bric-à-brac.  As  senhoras  que 
não  entenderem  isto,  pois  que  são  do  tempo  em 
quearainhaBerthaíiava...,  Deus  as  conservelá. 


Eu  já  devia  ter  declarado  que  não  vou  es- 
crevendo gradualmente  a  biographia  de  José 
Cardoso  Vieira  de  Castro.  Estou  a  bosquejar 
reminiscências.  São  flores  murchas  que  vou  en- 
feixando á  tôa,  conforme  as  encontro  á  volta 
da  lousa  tumular  do  rapaz  que  fui.  A  biogra- 
phia do  meu  perdido  amigo  ou  está  brilhante- 
mente escripta  por  seu  irmão  António  —  mo- 
delo de  irmãos  extremosos  e  homens  honrados 
—  ou  nunca  se  escreverá.  António  Manoel  Lo- 
pes Vieira  de  Castro  concluiu  a  historia  d^  seu 
irmão  no  dia  em  que  o  condemnaram  —  em 
que  o  mataram.  (Veja  nota  i  .^).  O  que  elle  não 
disse  é  o  inexprimivel.  As  ascensões  e  os  ba- 


Correspondência  epistolar  23 

quês,  os  extasis  e  os  abatimentos,  o  que  houve 
de  céo  e  inferno  na  vida  dç  José  Cardoso,  é  um 
pego  de  amarguras  insondável,  segredo  como 
o  das  reacções  travadas  entre  Deus  e  as  legiões 
réprobas  que  lhe  disputam  a  prêa  humana. 

Não  sei  se  Vieira  de  Castro  conseguiu  de- 
linear o  esboço  da  sua  vida  interior.  Entre  os 
papeis  subtrahidos  ao  vendaval  que  lhe  disper- 
sou o  espolio,  quando  o  cadáver  transpunha  os 
umbraes  do  cemitério  de  Loanda,  ha  um  fra- 
gmento indicativo  de  trabalho  premeditado  ou 
perdido. 

Diz  assim: 

Estas  paginas  são  o  escorço  biographico  de  José 
Caridoso  Vieira  de  Castro  Menos  ainda  que  isso. 
São  apenas  o  arcabouço  dos  lances  mais  notáveis  na 
vida  de  um  homem  sepultado  dentro  de  si  próprio 
aos  trinta  e  um  ânuos.  São  escriptas  para  serem 
lidas  mais  tarde,  quando  chegarem  d  idade  adulta 
umas  criancinhas  que  jd  hoje  tra\em  no  mundo  o 
nome  doeste  morto.  A  ellas  pertencem  os  enthusias- 
mos.,  as  rllusôes,  os  sonhos,  as  realidades^  os  trium- 
phos,  as  agonias,  os  sobresaltos,  as  dores,  os  júbi- 
los, as  gloriaSy  o  go^ar  e  o  padecer  d'essa  existên- 
cia, ao  mesmo  tempo  tão  longa  e  tão  curta  !  Algu- 
ma d'ellas  poderá  refazer  um  dia  a  biographia  de 
seu  tio  7i'esses  apontamentos  soltos,  dispersos  e  mal 
combinados,  como  foram,  na  existência  de  Vieira  de 
Castro,  incongruentes,  pouco  lógicas  e  contradicto- 
rias  as  suas  grandes  amarguras  e  as  suas  grandes 
alegrias. 


24  Correspondência  epistolar 

•  E  mais  nada 

Se  foi  a  morte  que  se  lhe  atravessou,  quan- 
do elle  queria  dilacerar-se  nas  garras  da  recor- 
dação, houve-se  generosamente  a  morte.  O 
apagar-se  aquella  vida  é  a  prova  divina  da 
existência  de  outra.  O  homem  não  se  fez  a  si, 
nem  este  mundo,  por  si  só,  justifica  a  perfei- 
ção de  Deus. 


Não  lhe  escrevo,  pois,  a  serie  de  successos 
quer  lógicos,  quer  inconsequentes.  Revivo-o 
nos  seus  vestígios;  resurge  no  meu  coração; 
vejo-lhe  as  tristezas  recônditas  e  as  explosões 
de  alegria;  ouço-o,  tenho  na  audição  interior 
o  timbre  da  sua  voz  tão  nitida,  como  nos 
dias  de  1866,  quando  elle  se  sentava  a  esta 
mesma  banca,  n^esta  mesma  cadeira,  e  me  sor- 
ria, nas  manhãs  de  agosto,  d^aquelle  leito  que 
alli  está. 

Aqui  tenho  o  livro  que  foi  parte  na  sua 
flagellação,  quando  o  retalhavam  alli  no  tri- 
bunal, amarrado  ao  banco.  Intitula-se:  Ca- 
MiLLO  Castello  Branco  (noticiã  de  sua  vida  e 
obras), 

A  historia  mais  obvia  doeste  livro  é  a  ami- 
zade indulgente,  o  valor  desassombrado  de 
uma  opinião,  o  aífecto  vehemente  descaptivo 


Correspondência  epistolar  25 

de  respeitos,  e  todo  embebecido  no  infortúnio 
de  um  amigo. 

Mas  o  livro  tem  origem  que  Vieira  de  Cas- 
tro não  contou,  receando  que  lh'a  tomassem 
como  desculpa. 

Estas  palavras  de  uma  pagina  do  livro  a 
ninguém  transluzem  a  dor  occulta:  É-me  defeco 
o  fa{er  publica^  ainda  mesmo  tiveste  lugar ^  a 
confidencia ...  O  leitor  cale  os  insultos  da  curio- 
sidade^ levando-me  em  bem  o  generoso  intuito  de 
aforrar  á  partilha  de  uma  angustia  que  eu  sei 
lhe  havia  de  magoar  a  sua  extrema  sensibilida- 
de. Bella  ironia!  A  extrema  sensibilidade  do 
publico!  E  doesse  publico  me  levara,  n^aquella 
hora,  o  meu  amigo  uma  proterva  calumnia,  e 
tal  que  eu  nem  na  fronte  dos  meus  inimigos 
queria  que  a  justiça  de  Deus  ou  dos  homens  a 
gravasse. 

Referiu-me  com  intercadencias  de  hesitação 
que  nas  praças,  nos  botequins  e  nas  salas  se 
contava  o  seguinte: 

Que  eu,  confidente  e  depositário  das  cartas 
que  uma  senhora  casada  escrevera  a  um  ho- 
mem ausente,  ameaçara  essa  senhora  de  reve- 
lar ao  marido  a  culpa  indicada  nas  cartas,  se 
ella  continuasse  a  repellir-me;  e  que  a  senhora 
ameaçada,  aceitando  metade  da  minha  infâ- 
mia, transigira  com  a  proposta.  Eis  ahi  des- 
carnadamente  a  ignominia  com  que  tentavam 


26  Correspondência  epistolar 

suffocar-me  uns  homens  que  hoje  me  apertam 
a  mão.  E  certo  que  as  lagrimas  me  sufFoca- 
ram.  Vieira  de  Castro  viu-as;  mas  a  minha 
grande  angustia  era  por  ella,  e  não  por  mim; 
por  ella  tão  incapaz  da  cobardia  de  succum- 
bir  ao  biltre  que  a,  envilecesse  com  taes  amea- 
ças, como  valorosa  para  aífrontar  o  descrédito  e 
a  pobreza.  K  tudo  ella  tinha  affrontado  n'aquelle 
dia.  Estava  sem  património,  sem  familia,  sem 
ninguém:  tinha  apenas  de  seu  e  por  si  o  co- 
ração e  o  trabalho  do  homem  que  fizera  de 
seu  peito,  culpado  mas  leal,  a  ladeira  do  abys- 
mo  d'ella. 

Não  me  lembra  o  que  respondi  a  Vieira  de 
Castro.  Abri  a  minha  gaveta,  desatei  dous  pa- 
cotes de  cartas  datadas  e  numeradas  nos  so- 
bre-escriptos,  e  disse-lhe: 

—  Aqui  tens  a  minha  correspondência  com 
essa  senhora  —  as  suas  e  as  minhas  cartas. 
Lê-as  tu,  desde  a  primeira  que  escrevi  e  a  pri- 
meira que  recebi.  Não  posso  dar-te  outro  tes- 
temunho contra  essa  calumnia,  que  eu,  por 
amor  á  minha  espécie,  seria  incapaz  de  inven- 
tar em  uma  novella.  Eu  não  posso  metter  na 
cabeça  de  cada  homem  que  me  ultraja  o  raio 
da  luz  da  justiça  mediante  uma  bala.  Antes 
quero  recapitular  na  tua  razão  e  na  tua  cons- 
ciência, a  consciência  e  a  razão  dos  meus  ami- 
gos e  inimigos. 


Correspondência  epistolar  27 

Vieira  de  Castro  leu  as  primeiras  cartas, 
e  exclamou  com  vehemencia  da  alma  indi- 
gnada: 

—  Deixa-me  esmagar  esta  injuria  que  é 
atroz ! 

—  Não!  nem  uma  palavra!  Bem  vês  que  eu 
não  devo  permittir  que  essas  cartas  sejam  li- 
das. E  não  tenho  outra  justificação.  O  homem, 
que  recebeu  cartas  d^essa  senhora,  vive  e  sabe 
que  em  meu  poder  não  está  nenhuma.  Elle  me 
defenderá  quando  a  curiosidade  dos  meus  de- 
trahidores  o  interrogar.  Não  escrevas  nem  fal- 
les  a  tal  respeito. 

Desde  este  lance,  conheci  que  Vieira  de 
Castro  acrisolara  por  mim  o  sentimento  da  es- 
tima alliado  ao  da  compaixão.  Teve  dó  do  ho- 
mem que  a  sociedade  aviltava  diífamando-o, 
ferindo-o  no  seu  ultimo  baluarte  —  o  amor 
próprio,  o  orgulho  até  de  haver  amado  com 
quanta  honra  um  amor  reprehensivel  pôde  ser 
indultado  na  consciência  —  honra,  que  tem 
hoje  a  prova  de  dezesseis  annos. 

—  Hei  de  escrever  o  livro  da  tua  vida  — 
voltou  Vieira  de  Castro  —  Não  fallarei  doeste 
ponto  negro;  mas  ha  de  vir  um  inimigo  que 
ponha  o  ferro  em  braza  no  meu  escripto, 
a  calumnia  queimar-nos-ha  a  ambos,  e  tu  en- 
tão... 

—  Me  defenderei,  se  poder  dizer  á  minha 


28  Correspondência  epistolar 

cúmplice:  «Consente  que  eu  me  arranque  este 
punhal  das  costas,  porque  a  ferida  tanto  dila- 
cera na  tua  dignidade  como  na  minha.  Mu- 
lher que  succumbisse  a  ameaças  de  tal  vi- 
leza, seria  tão  sem  brio,  tão  sem  pudor,  e 
tão  execravel  como  o  homem  que  a  subju- 
gasse.» 

São  volvidos  dezeseis  annos.  A  infamação 
nunca  foi  impressa;  mas  ha  almas  negras  que 
ainda  a  escorrem  na  lingua  farpada  como  a 
peçonha  da  vibora. 

Meus  amigos  e  meus  inimigos!  se,  por  vio- 
lências de  uma  paixão  brutal,  exacerbada  pela 
embriaguez,  eu  resvalasse  á  infâmia  de  forçar 
a  resistência  da  derradeira  mulher  na  escala 
das  perdidas  —  Deus  sabe  quem  são  as  perdi- 
das! — ;  ao  despertar  d'esse  infernal  aturdi- 
mento  com  a  consciência  do  meu  crime,  liia- 
tar-me-hia  com  asco  de  mim  próprio.  No  re- 
gaço d'essa  senhora,  tão  cruelmente  aviltada, 
tenho  dous  filhos.  É  para  meus  filhos  que  eu 
escrevo  esta  pagina  que  me  pareceu  até  hoje 
impossível.  Receio  que  elles  ainda  tenham  de 
ver  a  serpente  da  calumnia  a  rojar-se  na  se- 
pultura de  seu  pai.  Sinto-me  no  cabo  da  vida; 
e  tenho  maior  pejo  da  posteridade  que  dos 
meus  contemporâneos.  Quero  que  estas  crian- 
ças saibam  d'este  livro  que  o  pregão  afFrontoso 
aos  calumniadores  foi  escripto  quando  ainda 


Correspondência  epistolar  2g 

viviam  as  pessoas  que  podiam  desmentir-m'o. 
No  punhado  das  minhas  cinzas  hão  de  estar 
as  de  sua  mãi  —  esta  levantada  alma  que  ainda 
não  verteu  uma  lagrima  na  voragem  que  lhe 
devorou  os  respeitos  do  mundo,  e  a  pérfida 
riqueza  com  que  seus  perdoáveis  pães  a  vio- 
lentaram sem  dó  de  sua  innocencia  e  formo- 
sura dos  dezoito  annos. 


O  talento  de  Vieira  de  Castro  era  porten- 
toso. 

Aos  vinte  e  três  annos  cobria  de  pérolas  as 
paginas  dos  seus  livros,  sem  as  haver  colhido 
nos  livros  alheios.  Só  com  a  phantasia,  com  o 
milagre  do  génio,  estrellava  de  esplendores, 
de  locuções  titânicas  as  cousas  mais  triviaes  do 
pensamento. 

Os  livros  do  seu  estudo  eram  poucos  e  fú- 
teis n'aquelle  tempo.  Francisco  Manoel  do  Nas- 
cimento dava-lhe  arrobos  de  admiração  de  en- 
volta com  frouxos  de  riso,  quando  o  reliamos 
na  quinta  do  Ermo.  —  Sabes  tu!  —  dizia-me 
elle  —  isto  de  bem  escrever  é  um  lavor  mecha- 
nico  sem  o  talento  de  bem  imaginar.  Ha  phra- 
des  de  bronze,  e  phrases  de  flores :  umas  pe- 
sam as  outras  perfumam.  Eu  quizera  antes  ser 


3o  Correspondência  epistolar 

florista  que  fundidor.  Acho  mais  artistica  uma 
grinalda  de  boninas  que  uma  Flora  em  busto 
de  ferro. 

E,  não  obstante,  os  moldes,  de  seus  escri- 
ptos  e  discursos  eram  clássicos,  e  ás  vezes  su- 
perabundantemente  enfronhados  de  purismo. 
Mas  a  phrase,  o  torneio  da  dicção  resaltava 
gentil,  luxuriante,  com  uns  requebros  origi- 
naes  de  tanta  graça  que  a  mim  me  fazia  pena 
a  certeza  de  que,  mais  tarde,  os  atavios  todos 
d'aquella  rnusa  loura  e  pueril  se  haviam  de  fe- 
necer, assim  que  a  politica  —  devassa  que  tos- 
quia todos  os  Sansões  da  poesia  —  lhe  cortas- 
se os  voadouros. 

Não  foi  assim.  Vieira  de  Castro,  quando  en- 
trou ao  parlamento,  contava  vinte  e  seis  annos. 
Florescia  em  toda  a  pujança  de  seiva.  Era  ins- 
truído nas  sciencias  politicas,  sem  as  profun- 
dar. Lia  a  pagina  primeira,  a  pagina  cem,  e  a 
trezentas  de  um  livro.  Sabia-o  todo.  Percebera 
a  lógica,  a  travação,  as  primícias  e  os  corolla- 
rios  do  author  Se  lhe  pedisseis  um  juizo  de 
Barrot,  de  Mezières,  de  Guizot,  dar-vos-hia  a 
substancia,  o  ouro  acendrado  do  livro,  da 
theoria,  do  systema  que  adivinhara  folheando 
os  titulos  dos  capitulos. 

Aqui  tenho  a  collecção  dos  seus  Discursos 
parlamentares. 

Deixem-me  dizer  assim :  este  livro  contém 


Correspondência  epistolar  3i 

os  embryões  da  catastrophe  de  Vieira  de  Cas- 
tro. Esta  aurora  allumiou  o  seu  ultimo  dia  fe- 
liz. Foi  ella,  a  estrella  maldita  que  o  levou  ao 
Brazil  no  encalço  da  gloria.  A  gloria  recebeu-o 
nos  braços,  e  cobriu-lhe  a  fronte  de  ouro  e  bri- 
lhantes. Era  já  muito,  eram  extraordinárias  as 
blandicias  da  sorte  com  um  talento  de  Portu- 
gal. Parece  que  a  Fatalidade  adormecera.  Eis 
que  se  avisinha  o  Destino  com  o  ramo  das  flo- 
res pulveviseidas  do  seu  veneno.  Eile  inhalou-as ; 
concebeu  a  paixão,  deu  sua  alma  ás  deli- 
cias e  torturas  do  amor.  Cantou  a  sua  felicida- 
de em  hymnos  de  graças  a  Deus  que  lhe  dera 
uma  esposa,  e  com  ella  uns  júbilos  tão  des- 
medidos que  receava  morrer  da  congestão  da 
felicidade  *. 

Quando  aqui  me  resoaram  n'estas  monta- 
nhas as  estrophes  de  Vieira  de  Castro,  eu  en- 
carei no  seu  retrato  e  disse-lhe :  Desgraçado,  ou 
tu  has  de  fa\er  de  tua  mulher  um  génio .^  hom- 
breando-a  comtigo^  ou  ella  te  ha  de  descer  do  teu 
génio  até  ás  proporções  de  um  marido  vulgar  ! 

Vem  aqui  ao  propósito  dizer  que  Vieira  de 
Castro,  antes  de  sahir  para  o  Brazil,  esteve 
commigo  alguns  dias.  Nunca  proferiu  palavra 


*  Vejam-se  as  cartas  escriptas  a  seu  irmão  António,  e  im- 
pressas no  Processo  e/u/^ame/j/o.  Veja-se  também,  adiante, 
a  carta  escripta  desde  New-  York  a  Victorino  da  Motta. 


32  Correspondência  epistolar 

que  revelasse  intento  de  procurar  mulher  no 
Rio  de  Janeiro; 

Dominava-o  uma  chimera  mais  intangivel, 
mais  inexequivel  que  topar  esposa  no  Brasil. 
Premeditava  vender  dez  mil  exemplares  dos 
seus  Discursos^  e  resgatar  as  suas  terras  one- 
radas de  dividas.  Eu  rira-me  dos  cálculos  do 
talento,  que  está  sempre  ás  avessas  do  talento 
dos  cálculos.  Se  elle  me  tivesse  dito  que  ia  á 
conquista  do  vello  deouro,  euresponder-lhe-hia: 
«Vai,  novo  Jasão,  mas  não  leves  os  livros  que 
representam  as  riquezas  do  talento  pobre.» 

O  que  bem  me  lembra,  e  uma  carta  d'elle 
me  recorda  é  que  chorei  ao  dar-lhe  o  abraço 
de  despedida:  «...Estou  atravessado  de  sauda- 
des —  me  escrevia  elle  do  Porto.  —  Os  teus  so- 
luços e  as  tuas  lagrimas  commoveram-me  pro- 
fundamente, e  por  vezes  me  ennevoaram  os 
olhos  pelo  caminho.  Quando  se  merecem  d'es- 
sas  provas  a  homens  que  tem  soffrido  como 
tu,  é  que  algum  bocadinho  de  coração  puro 
tem  a  gente...  Ai!  o  meu  quartosinho  de  Sei- 
de!...  Nunca  tive  saudades  assim,  senão  quan- 
do me  mandavam  criancinha  de  ferias  para 
o  collegio...«  Dias,  depois,  ao  embarcar  para 
o  Rio:  Adeus,  meu  excellente  amigo;  se  eu 
conhecer  um  dia  de  que  ponto  do  céo  brilha 
o  raio  da  felicidade,  correrei  a  Seide  a  apon- 
tar-t'o.)) 


Correspondência  epistolar  33 

Não  voltou  a  Seide...  É  que  não  vira  no  céo 
o  ponto  refulgente  da  felicidade. 

Ainda  em  7  de  novembro  de  1866  lhe  lem- 
bra no  Rio  o  quarto  da  sua  cama  vestido  de 
roseiras  «...Agora,  um  grito  do  coração:  Choro 
por  Seide!  Quando  nos  abraçaremos  nós  ahi? 
O  que  eu  tinha  a  contar-te!...  Aqui  ha  gran- 
des almas!... 

Confrontemos  os  estylos  de  duas  cartas.  A 
de  solteiro,  quando  entrava  no  parlamento,  e 
a  de  casado  quando  chegava  ao  Porto.  «Vou 
morar  na  casa  mais  linda  que  tem  Lisboa  para 
um  rapaz  1  E'  no  Monte  de  Santa  Catharina  ao 
portão  de  ferro.  Que  surprehendente  mara- 
vilha !  Era  casa  soberbissima  para  nós,  no 
coração  da  cidade,  a  lavar  os  pés  no  Tejo,  e 
a  enxugar  a  cabeça  nas  nuvens  do  céo !  Não 
imaginas  que  linda  casa  vou  ter !  Como  alli  me 
ha  de  alumiar  as  noites  a  alegria  do  estudo,  e 
o  anjo  louro  da  gloria  que  me  negacêa  desde  a 
infância  com  as  glorias  do  parlamento !  Vem 
para  a  minha  companhia !»  Agora,  a  carta  do 
Vieira  de  Castro,  casado,  millionario^  com  o  co- 
ração duplicado  no  seio  da  esposa  adorada  : 
«Eu  continuo  a  ser  para  essa  casa  o  mesmo, 
quero  dizer :  que  quando  bato  á  tua  porta  levo 
sempre  uma  tristeza  commigo.  A  tristeza  é  o 
meu  capital  precioso,  que  ninguém  me  quer  e 
que   eu   não  dou  a  ninguém    senão  a  ti.    Os 

VOL.  I  3 


34  Correspondência  epistolar 

únicos  dias  felizes  que  recordam  as  minhas  re- 
miniscências de  solteiro  são  teus,  devo-t'os...» 


A  proeminente  physionomla  do  discorrer  de 
José  Cardoso  Vieira  de  Castro  era  o  colorido 
da  palavra,  a  área  larga  do  pensamento,  o  pe- 
ríodo enérgico  e  cadente,  a  apostrophe  impe- 
tuosa, o  rapto  da  imagem,  o  rythmo  lusitano 
da  forma,  a  boa  erudição  em  referencias  e  ci- 
tações, o  ardor  civico  nas  crises  do  patriotis- 
mo, a  destimidez  no  alvoroço  das  tempestades 
que  levantou  no  parlamento.  Coração,  poesia, 
paixão,  orgulho,  sarcasmo,  ironia,  violência,  to- 
dos estes  heterogéneos  raios  de  luz  estavam 
fermentando  o  primeiro  orador  portuguez,  sem 
assombro  de  Garrett,  de  Rodrigo  da  Fonseca, 
de  Rebello.  Nenhum  fora  tão  espontâneo,  tão 
repentista  e  tão  eloquente. 

É  notabilissimo  o  seu  discurso  acerca  da  li- 
berdade de  imprensa.  Grande  subtileza  de  ra- 
ciocínio, clareza,  rigor  deductivo,  primorosa 
arte  em  redarguir  e  concluir. 

Um  intelligente  admirador  de  Vieira  de  Cas- 
tro, apreciando  o  homem  illustre  que  se  apa- 
gara a  um  sopro  de  desgraça  trivialissima,  di- 
zia-me  em  uma  carta  escripia  no  dia  da  con- 


Correspondência  epistolar  35 

demnação :  «Foram  uma  tempestade  politica 
os  dous  annos  parlamentares  de  Vieira  de  Cas- 
tro. O  orador  só  pôde  ser  cabalmente  visto  a 
uma  cambiante  luminosa.  Ahi,  porém,  foi  elle, 
a  um  tempo,  o  todo  e  a  parte.  Os  seus  Discur- 
sos são  a  chronica  e  a  synthese  esplendida  das 
commoçóes  da  tribuna  portugueza  n^aquella 
época  de  paixões.  As  2  5o  paginas  d'este  livro 
Scão  amenissimas,  posto  que,  a  espaços,  relam- 
pagueadas  de  fulminações.  Ha  ahi  Murillo  e 
Miguel  Angelo.  Os  fogos  do  Synai,  e  as  candi- 
díssimas frontes  dos  anjos.  Nem  a  tribuna  an- 
tiga nem  a  tribuna  moderna  nos  dão  melhores 
modelos  de  eloquência^  escreveu  António  Ro- 
drigues Sampaio.  Quando  o  orador  tiver  pas- 
sado para  o  lugar  aonde  a  justiça  humana 
exige  que  se  escondam  de  uma  vez  os  grandes 
talentos  que  ella  ha  de  celebrar  em  duradoura 
apotheose,  o  livro  de  Vieira  de  Castro  será 
francamente  proclamado  o  primeiro  monu- 
mento da  eloquência  politica  portugueza.» 


É  uma  dor  que  punge  e  consola  reler  este 
livro,  ouvil-o,  vêr-lhe  o  movimento  dos  lábios, 
dos  olhos,  o  gesto,  todo  elle  redivivo,  porque 
o  tempo  lhe  não  deliu  em  minha  alma  o  mi- 


36  Correspondência  epistolar 

nimo  traço  das  suas  feições.  N'esta  casa  de  S. 
Miguel  de  Seide  ha  ainda  um  pailido  crepúsculo 
da  sua  alegria  de  ha  seis  annos. 

Quarenta  e  quatro  dias  antes  da  sua  moFte^ 
me  escrevia  elle:  Seide!  a  pedra  e  os  cyprestes! 
Ah!  não  volto  ahi  mais.  Não  cabe  essa  felicidade 
no  meu  destino!  Fujamos  doestas  memorias  que 
me  despedaçam! 

A  pedra  é  uma  lapide  tosca  em  que  está  o 
seu  nome.  Os  cyprestes  plantára-os  alli  mão 
fatidica,  em  dias  tão  felizes!  O  nome  do  bem- 
vindo  do  meu  coração  festejado  em  uma  py- 
ramide  de  granito  do  feitio  de  um  sepulchro, 
assombrada  de  araucárias  que  tem  o  lúgubre 
aspecto  dos  cyprestes !  Um  paradoxo  a  receber 
uma  restea  de  luz  fúnebre  vinda  da  Africa,  do 
cemitério  dos  degredados! 

Os  seus  últimos  dias  da  juventude  foram  os 
que  elle  aqui  viveu.  Eu,  pelo  menos,  nunca 
mais  o  vi  alegre  d'aquella  sua  ridentissima  ex- 
,  pansibilidade  que  tinha  condão  de  incutir  ale- 
gria nos  tristes. 

Nunca  mais  aquelle  gracioso  espirito  do  pa- 
radoxo na  conversação;  as  imagens  hyperboli- 
cas  do  phantasista  radioso;  os  resaltos  inespe- 
rados dos  epithetos  picarescos,  realçados  pelo 
tregeitar  que,  na  móbil  physionomia  de  Vieira 
de  Castro,  era  o  mais  percuciente  gume  das 
suas  satyras,  sempre  elegantes. 


Correspondência  epistolar  3j 

A  primeira  vez  que  o  vi,  de  volta  das  suas 
viagens,  e  com  fama  de  rico,  imaginei  que  o 
ouro  o  revestira  da  gravidade  mal  encarada 
que  é  a  liga  d'este  metal  nos  carões  de  chum- 
bo. Creio  que  lh'o  disse  no  nosso  usual  estylo. 
Sorriu  Vieira  de  Castro  com  a  melancolia  dos 
que  não  querem  carpir-se,  por  amor  próprio  e 
pejo  de  não  serem  tão  felizes  quanto  os  incul- 
cam e  lh'o  imaginam.  E  uma  das  feições  do 
orgulho.  É  uma  valentia  ostensiva,  e  uma  pro- 
funda miséria  humana. 

—  Eu  sou  pobre  —  disse  Vieira  de  Castro. 

—  Pobre! 

—  Pergunta-o  aos  meus  credores  e  a  meus 
irmãos  —  insistiu  o  meu  amigo,  como  quem 
segreda  uma  confidencia.  —  Casei  com  uma 
criança  adorável,  embalada  no  luxo,  nas  indo- 
lencias  do  Brazil,  e  nos  caprichos  da  abun- 
dância. Quero  educal-a,  como  se  educa  uma 
filha;  mas  não  posso  desfazer  com  preceitos 
de  economia  os  hábitos  adquiridos,  ou  as  es- 
peranças prefiguradas.  Tenho  carruagem,  por- 
que é  ainda  cedo  para  eu  insinuar  a  Claudina 
que  não  a  podemos  ter,  e  não  sei  quando  te- 
rei valor  nem  arte  para  lh'o  dizer. 

Sei  que  elle  lh'o  disse,  um  dia,  na  quinta  de 
Moreira,  dissimulando  a  insufíiciencia  dos  meios 
com  outras  considerações  em  que  predominava 
a  impertinência  de  criados. 


38  Correspondência  epistolar 

—  Pois  sim,  Jucá  —  accedeu  com  uns  me- 
neios infantis  e  mórbidos  —  vende  o  trem,  se 
queres,  mas  compra-me  vestidos  com  o  di- 
nheiro. 

Esta  cousa  fútil  não  é  meramente  uma 
criancice.  Aos  vinte  annos  não  ha  crianças. 


O  reviramento  da  indole  folgazã  de  Vieira 
de  Castro  fez-se  súbito  na  intuspecção  de  que 
não  era  amado.  Se  o  cegasse  o  orgulho,  basta- 
ria o  amor  a  descondensar-lhe  as  névoas.  No 
espirito  inculto  d'aquella  senhora  não  havia 
gomos  que  íiorejassem  aquecidos  pelo  talento 
do  marido.  Era  uma  creatura  mais  ignorante 
que  o  vulgar  das  portuguezas  medianamente 
educadas.  Os  dous  intellectuaes,  os  triumphos, 
a  fama  gloriosa  de  Vieira  de  Castro  eram-lhe 
cousas  de  todo  o  ponto  descuriosas,  vãs  e  sem 
préstimo  na  sua  felicidade.  As  cartas  amoro- 
sas que  ella  lhe  escrevera  em  solteira,  com 
uns  requebros  de  dengosa  meiguice,  denota- 
vam alma  precocemente  afistulada  de  perfídia 
porque  mentiam  a  um  homem  que  na  inge- 
nuidade dos  seus  amores  era  d'uma  candura 
pueril. 

Disseram  ahi  que  o  casamento  de  Vieira  de 


Correspondência  epistolar  3g 

Castro  já  da  sua  origem  vinha  empeçonhado 
pela  coacção  da  esposa.  Entre  as  mais  dilace- 
rantes frechas  que  lhe  desembestou  a  villana- 
gem  estava  essa  cravada  no  seio  do  meu  ami- 
go. Devia  de  ser  violentada  a  mulher  que  lhe 
escrevia,  em  solteira,  as  cartas  impressas  a  pag. 
44  e  45  do  Processo  e  julgamento,  Procurem-as 
lá,  que  eu  acho-as  irrisórias  para  serem  reedi- 
tadas. 

Ó  grandes  espíritos,  quanto  é  triste  vêr-vos 
apoucados,  rasteiros  e  postos  ahi  de  supeda- 
neo  á  primeira  mulher  que  vos  enliça  com 
umas  trivialidades  amoriscadas,  como  que  fei- 
tas para  estudantes  de  lyceu! 

Os  instinctos  desleaes  d'esta  senhora  trans- 
pareciam. Houve  pessoas  da  convivência  in- 
tima de  Vieira  de  Castro  que  vaticinaram  o 
desastre,  e  outras  que  viram  com  espanto  a 
realisação  do  vaticínio,  tão  cedo.  O  assombro 
não  era  já  do  delicto :  era  da  pressa.  Ninguém 
o  preveniu  contra  a  infâmia  que  vinha,  nem  o 
avisou  quando  a  infâmia  lhe  cuspiu  o  estigma. 
A  amizade  deplorava-o ;  mas  o  decoro  impu- 
nha silencio  aos  que  o  consideravam  a  ellq 
marido  vulgar,  e  a  ellauma  peccadora  na  via 
dolorosa  das  Magdalenas. 

Elle  abriu  os  olhos  sobre  o  seu  golfão,  quan- 
do o  coração  o  levou  alli  de  rojo.  Suspeitava 
da  perfídia.  Tinha  sentido  nos  braços  a  mulher 


40  Correspondência  epistolar 

regelada  para  o  amor  honrado.  O  que  algum 
dia  lhe  parecera  desamor,  era  já  a  expressão 
do  tédio,  sem  ao  menos  dissimular-se  nas  ca- 
ricias artiíiciaes  da  culpada  tranzida  do  re- 
morso ou  ameigada  pela  compaixão. 

E,  como  voragem  daignonimialhe  devia  ser 
sepulchro,  não  se  despenhou  sósinho. 

O  desgraçado  não  consultou  ninguém,  não 
chorou  em  braços  de  algum  amigo.  Amorda- 
çára-o  o  honesto  pejo  da  sua  desventura.  An- 
tes quiz  incutir  terror  que  compaixão.  Não  po- 
dia confidenciar  a  sua  dôr  a  alguém,  pois  que 
a  sua  ignonimia  havia  de  ser  notória  e  lançada 
ao  dragão  que  ceva  a  sua  fome  no  escândalo 
e  a  sua  sede  nas  lagrimas.  Tudo  lhe  serve,  ti- 
rante o  desforço  em  que  ha  sangue.  Afora  o 
sangue  que  lhe  faz  pavores,  para  tudo  tem  as 
suas  gargalhadas,  tanto  mais  estridulas  quanto 
de  mais  alto  lhe  baquêam  as  victimas  nas 
garras.  Elle  conhecia  a  sociedade.  E,  cuidando 
que  immolava  a  esposa  á  sua  honra,  — é  triste 
dizer-se!  —  foi,  em  grande  parte,  á  sociedade 
que  elle  a  sacrificou,  pensando  que  um  cadá- 
ver, embora  manchado,  era  sacratíssimo ;  e 
um  homicida,  embora  repulsivo,  respeitável  e 
nunca  escarnecivel.  Não  se  illudira.  Foi  assim. 
Ella  coberta  de  bênçãos,  elle  de  maldições;  ella 
suífragada  nas  igrejas,  elle  insultado  na  im- 
prensa e  no  cárcere. 


Correspondência  epistolar  41 

D'esse  holocausto  á  sociedade  estão  ahi  três 
paginas  perduráveis  de  Ramalho  Ortigão.  Era 
já  morto  o  desterrado,  quando  este  grito  de 
justiça,  trovejou  nas  cavernas  da  opinião : 

«Assim  acabou  pois  na  indiíferença  ou  no  des- 
dém da  publicidade  o  homem  publico  que  mais 
ruído  teve  em  voha  do  seu  nome,  aquelle  dos  nos- 
sos companheiros  de  trabalho  e  de  lucta  intelle- 
ctual  que  mais  viveu  nos  applausos  da  celebridade 
e  nas  commoçóes  da  gloria  ! 

«A  amizade  não  deixará  de  vir  amanhã  trazer  a 
esta  desafortunada  sepultura  o  doce  tributo  das 
suas  lagrimas.  A  opinião  porém  essa  ahi  a  estamos 
vendo  já  na  sua  definitiva  attitude,  de  olhos  enxu- 
tos e  de  coração  calado,  perfeitamente  indifferen- 
te,  diante  do  cadáver  d'aquelle,  cujo  maior  defei- 
to, e  talvez  o  único,  foi  ter  amado  a  opinião  —  de 
mais  ! 

«Eu,  que  estou  na  amizade  pessoal,  direi  aos  que 
estão  na  opinião  publica :  sois  cruéis  na  vossa  indif- 
ferença,  porque  sois  cúmplices  na  desgraça  que  ar- 
rancou esse  homem  tão  novo,  tão  exhuberante  de 
mocidade,  de  talento  e  de  vida,  ao  seu  amor,  á  sua 
familia  e  á  sua  pátria.  Porque  elle  rendeu-se  intei- 
ramente, inexperiente  e  desarmado,  desde  os  pri- 
meiros passos  que  deu  no  mundo,  á  consciência  da 
opinião  e  ao  julgamento  do  publico.  Foi,  mais  que 
ninguém,  do  seu  tempo  e  da  sua  sociedade.  Em 
quanto  outros  luctavam  tenazmente  contra  a  cor- 
rente das  idéas,  dos  princípios  e  dos  sentimentos 
consagrados,  elle  arrojava-se  ao  largo,  entregando 
o  seu  baixel  á   providencia  da  onda.  O  seu  cami- 


^2  Correspondência  epistolar 

nho  foi  sempre  para  aquelle  ponto  onde  os  vossos 
applausos  pareciam  denotar  que  se  achava  o  trium- 
pho.  Guiado  pelas  vossas  acclamações  suppunha 
que  a  verdade  estava  no  foco  ruidoso  e  ardente 
onde  a  gloria  apparccia. 

«Devotou-se-vos  integralmente  essa  alma  infantil 
e  cândida.  Acreditou  na  vossa  politica,  na  vossa 
arte  e  na  vossa  honra.  Ora  a  vossa  politica  era  uma 
intriga  de  partidos  degradante  e  baixa.  A  vossa  arte 
era  uma  velha  convenção  doutrinaria  e  emphatica. 
A  vossa  honra  era  uma  versão  da  cavallaria  feita 
com  as  accommodações  necessárias  para  uso  de 
burguezes  bondosos  e  pacíficos,  —  um  mixto  de 
alta  barbárie  e'de  estreita  civilisação  —  os  cavallci- 
ros  da  tavola  redonda  interpretados  pelos  irmãos 
terceiros  de  S.  Francisco. 

«Um  dia  este  homem,  que  fora  tantas  vezes  o 
vosso  Ídolo,  achou-se  repentinamente  repellido  por 
vós  como  um  monstro.  E  todavia  elle  estava  ainda, 
então  como  sempre,  na  lógica  fatal  do  seu  destino. 
A  sua  intelligencia  tinha-se-vos  sacrificado.  Sacrifi- 
cou-sc-vos  também  o  seu  coração.  Nos  arrebata- 
mentos vertiginosos  da  sua  eloquência,  nos  denodos 
da  sua  palavra  e  dos  seus  escriptos,  nos  ostentosos 
requintes  da  independência  e  da  isenção,  nos  re- 
pentes mais  altivos  e  mais  ruidosos  das  opiniões  e 
dos  actos,  nos  mais  frequentes  e  extraordinários 
sacrifícios  que  pôde  fazer  a  abnegação  e  o  desin- 
teresse, elle  mostrou  sempre,  nos  seus  triumphos, 
nas  suas  derrotas,  e  até  na  sua  derradeira  catastro- 
phc,  que  considerava  a  sociedade  uma  cousa  digna, 
austera,  inilludivel  e  sagrada.  E  eis  aqui,  resumida- 
mente, como  no  meio  das  influencias  de  uma  opi- 
nião profundamente   desorganisada  se  eleva  ou;se 


Cor^respondencia  epistolar  43 

despenha  no  conceito  publico  o  mais  coherente  e  o 
mais  honrado  caracter  ! 

«Quando  é  que  nos  applaudis,  e  quando  é  que 
nos  condemnaes  ?  K  mesma  linha  de  conducta  le- 
va-nos  á  victoria  e  leva-nos  igualmente  ao  abysmo. 
O  successo  é  uma  charada. 

«O  tribunal  chamado  da  opinião  publica  não  tem 
por  tanto  razão  de  ser ;  não  se  pode  aceitar,  nem 
admittir.  Uma  sociedade  que  tão  claramente  pa- 
tentêa  pelas  suas  caprichosas  incoherencias  carecer 
dos  princípios  em  que  se  basêa  a  fiel,  a  perma- 
nente, a  immutavel  interpretação  do  dever,  não 
tem  opinião.  A  consagração  da  collectividade  das 
incompetências,  das  inepcias  ou  das  maldades  é 
um  opprobrio.  Quando  quizerdes  convencer-nos  de 
que  vos  assiste  o  direito  de  nos  julgar  no  mal,  pro- 
vai-nos  primeiro  que  tendes  e  que  exerceis  a  facul- 
dade de  nos  guiar  para  o  bem. .  .» 


As  deliberações  de  Vieira  de  Castro,  pro- 
fundas e  decisivas,  eram-lhe  suggeridas  por 
um  só  oráculo:  a  consciência  d'elle,  e  só  essa. 
Não  sei  se  lh*a  formara  a  sociedade,  se  o  ins- 
tincto  insopesavel.  Na  craveira  da  sua  honra 
não  punha  mão  a  prudência  nem  a  razão 
alheia.  Consuhava-se  e  arrojava-se  para  o  alto 
ou  para  os  abysmos.  Em  dous  dos  Discursos 
parlamentares  transluzem,  ou,  mais  pontual- 
mente, formulam-se  as  suas  máximas  em  actos 


44  Correspondência  epistolar 

aífectos  á  dignidade:  ...Acima  de  tudo^  o  foro 
da  minha  consciência.,  para  cujas  sentenças  só 
reconheço  uma  instancia  superior,  que  é  Deus... 
—  Porque  a  crença  é puramente  o  foro  intimo,  e  a 
minha  consciência  respeitável  como  a  consciên- 
cia de  todos^  e  respeitável.^  porque  é  ella  no  ho- 
mem o  sacrário  único  onde  Deus  reside.,  e  por 
tanto  inviolável  como  todos  os  sacrários... 

Aqui  é  mais  solemne  a  condição  da  sua  Ín- 
dole isenta :  Quando  tenho  de  dar  um  passo  na 
minha  vida  publica  ou  particular^  em  questões 
de  honra  e  de  dignidade,  não  conheço  ninguém 
acima,  nem  abaixo  de  mim;  é  a  minha  consciên- 
cia que  consulto,  e  inspiro-me  d^ella  *. 

Quando  Vieira  de  Castro  chamava  telegra- 
phicamente  iseu  irmão  António  —  a  luz,  a  un- 
ção, o  amor  immaculado  de  sua  alma —  a  pre- 
sença d'este  austero  caracter  não  valeria  a  des- 
persuadil-o  do  desforço  resolvido.  Sei  que  An- 
tónio Vieira  de  Castro  exacerbando  as  angus- 
tias do  infeliz  com  phrase  ou  gesto  de  assom- 
bro e  reprovação,  recuou  diante  de  um  impeto 
vertiginoso. 

Que  infinito  inferno  mandou  Deus  na  se- 
guinte noite  áquella  casa  da  rua  das  Flores ! 

O  representante  do  ministério  publico,  no 


*  Discursos  parlamentares.  Sessão  de  lo  de  fevereiro  de 
i865,  pag.   14  e  i5.  Sessão  de  10  de  março  de  i863,  pag.  71. 


Correspondência  epistolar  45 

supplicio  do  julgamento,  despojando- se  da  ca- 
ridade, da  rectidão  e  da  sinceridade,  fallou 
assim :  José  Cardoso  Vieira  de  Castro^  depois 
de  consultar  os  amigos  a  quem  relatou  o  seu 
horrivel  crime  resolveu  entregar-se  aos  tribunaes 
e  não  fugir ;  assim  ofei  depois  de  dormir  mais 
uma  noite  perto  do  cadáver  da  esposa. 

Dormir  !  Que  a  justiça  divina  dê  uma  hora 
d^aquelles  somnos  aos  que  vestem  a  toga  como 
saião  de  verdugo,  e  lançam  o  dardo  da  calum- 
nia  a  um  rosto  em  que  ha  lagrimas. 

Quem  dissera  ao  delegado  que  Vieira  de 
Castro  «dormira  mais  uma  noite  perto  do  ca- 
dáver da  esposa  ?» 

Ninguém.  Inspirou-lh'o  assim  a  musa  da 
Eloquência.  A  terribilidade  da  imagem  soc- 
correu-o  na  penúria  da  argumentação  honesta. 
Na  tela  grosseira  do  entendimento  do  jury  qua- 
drou-lhe  pintar  a  esposa  morta,  e  ali  perto  o 
homicida  a  dormir. 

Trapacisses  d'esta  ignóbil  estofa,  cá  fora  dos 
tribunaes,  chamam-se  calumnias,  e  responsa- 
bilisam.  Lá  dentro,  gozam  foros  de  recursos 
oratórios ;  chamam-se  argumentos,  e  cobrem  o 
impudor  do  seu  rosto  com  o  capuz  da  rheto- 
rica. 

Ah!  a  noite  seguinte  á  morte  de  D.  Clau- 
dina,  um  só  homem  nos  poderia  dizer,  mi- 
nuto por  minuto,  como  ella  correu  para  Vieira 


4^  Correspondência  epistolar 

de  Castro,  se  esse,  que  lhe  assistiu  e  o  acom- 
panhou até  ao  arraiar  da  manhã,  salvasse  a 
memoria  doesse  trance,  d'essa  vertigem  des- 
cendente n'uma  espiral  de  dilacerações  horren- 
tissimas  que  se  elevava  até  Deus  e  baqueava 
até  ao  abysmo  ora  em  gemidos  abafados,  ora 
em  convulsões  de  pavor!...  Aquella  noite,  An- 
tónio Vieira  de  Castro,  meu  excruciado  ami- 
go!... se  a  vissem  como  eu  a  entrevi,  ao  tra- 
vés das  suas  lagrimas  e  da  pallidez  da  sua 
face!... 

#  * 

A  phantasia  dos  noticiaristas  divulgou  um 
quadro  mavioso  em  que  Vieira  de  Castro  ap- 
parecia  no  fundo  da  tela,  e  toda  a  primeira  luz 
batia  na  cara  de  um  padre.  Contou-se  que  um 
sacerdote  minhoto,  amigo  do  illustre  preso 
desde  a  infância,  quando  soubera  da  desgraça 
do  seu  companheiro  de  annos  em  flíôr,  se  po- 
zera  a  caminho  de  Lisboa,  desamparando  os 
parochianos  que  pastoreava,  e  fora  levar  ao 
Limoeiro  lábios  consoladores,  olhos  trémulos 
de  lagrimas,  cousas  divinas  da  religião  de  Je- 
sus, bálsamos  cicatrizantes  para  feridas  de  re- 
morso, emoUientes  mysticos  para  corações  ri- 
jos e  incontritos :  em  fim,  pintaram  o  padre  de 
tal  feitio  que  por  pouco  me  não  fui  depôs  elle. 


Correspondência  epistolar  ^7 

a  fim  de  furtar  ao  meu  pobre  José  uma  par- 
cellla  do  amor  d'aquelle  certo  Pollux  na  hora 
incerta. 

N'este  entretanto  o  meu  amigo,  que  lera  a 
noticia,  escreveu-me  duas  linhas  risonhas,  ga- 
lhofando da  invenção  dos  diaristas.  Havia  com 
eífeito  um  padre  que  nunca  em  sua  vida  co- 
nhecera Vieira  de  Castro.  Estava  em  Lisboa 
requerendo  uma  vigairaria,  quando  Vieira  de 
Castro  entrou  no  cárcere.  Apresentou-se-lhe 
pedindo-lhe  o  seu  valimento  no  bom  despacho. 
Fora  ao  Limoeiro  como  quem  ia  seguro  de  en- 
contrar em  casa  o  protector.  Depois,  como  o 
despacho  se  demorasse,  e  os  recursos  se  ex- 
haurissem,  ia  jantar  com  o  preso;  e,  por  ulti- 
mo, quando  a  sua  inactividade  intellectual  Ih© 
pegava  de  enferrujar  as  molas  da  eloquência, 
pediu  a  Vieira  de  Castro  que  lhe  fizesse  ser- 
mões. 

E,  com  certeza,  o  admirável  talento  e  be- 
nigno coração  do  meu  amigo  fez  sermões  ao 
padre.  Escreveu  cinco  se  bem  me  recordo. 
E  de  todos  apenas  encontrei,  nos  papeis  vin- 
dos de  Loanda,  um  fragmento  do  sermão  da 
Soledade.  Dizia  assim  : 


«A  oração  é  o  elo  invisivel  que  prende  o  espi- 
rito do  homem  á  immensidade  de  Deus  !  é  o  raio 
luminoso   que    ata  invisivelmente  a   commoçao,    a 


4^  Correspondência  epistolar 

supplica,   o   terror,    a  gratidão  humana,  á  augusta 
complacência,  á  piedade,  á  misericórdia  divina! 

«Rebenta  na  amplidão  dos  mares  a  fúria  dos  va- 
galhões contra  a  nau,  desmastreada  já  e  a  pique 
de  perder-se  ;  é  negro  o  céo,  torvo  o  abysmo,  de 
fogo  a  atmosphera  !  Ajoelha,  chrisião,  e  ora,  e  o 
mar  ficará  de  leite,  e  o  céo  sorrir-te-ha,  e  os  tro- 
vões fugirão  á  tua  prece  como  o  Satanaz  das  im- 
precações ao  aspecto  das  cruzes,  e  ao  echo  dos 
cânticos  sagrados ! 

«Rasgam-se  de  repente  os  seios  da  terra  despe- 
.  daçada  n'uma  das  suas  revoluções  geológicas,  racham 
a  pino  as  montanhas,  e  sobem  das  fauces  temero- 
sos  os   volcões,  e  as  chammas  pavorosas  !  O  ter- 
ror humano  ajoelha,  e  ora.  O  volcão  parou  e  Deus 
pôl-o  assim,  immovel,  esplendido,  atado  ao  seu  li- 
mite,  temeroso  ainda,  mas  inoffensivo,  incruento ! 
«A  peste  assola  as  cidades,  a  guerra  extermina 
os  homens,  o  ódio  aniquila  as  raças,  a  natureza 
lucta  pavorosamente  com  as  artes,  os  perigos  e  as 
ruinas  amontoam-se,  a  razão  desfallece,  os  braços 
pendem  sem  esperança  e  sem  força ;  e  tu,  homem, 
que  pedias  tudo  ao  génio,  á  sciencia,  á  tua  ambição 
investigadora,   ao  teu  único  explorar;  tu  ajoelhas 
alfim,  oras,    supplícas,  mas  com  a  fé  ardentíssima 
que  transpõe  as  cumiadas  dos  montes,  e  os  milagres 
resurgem,   e   as  forças  voltam,   e  a  esperança  rea- 
lisa-se,  e  os  prodígios  assombram,  e  assombram-te ! 
«Orar,   orar,  christãos,  é  vincular  Deus  á  nossa 
vontade,   prendel-o  na  nossa   alma,   e   ancorar  no 
seu  infinito  a  barquinha  do  nosso  futuro ! 

«Mas,  se  é  impura  a  tua  alma  e  o  teu  lábio,  chris- 
tão,  quem  ha  de  interceder  por  ti,  com  melhor  es- 
perança de  que  Deus  te  escute  ? 


Correspondência  epistolar  4g 

«Ah !  no  seio  onde  todos  os  vicios  se  purificam, 
onde  todos  os  ódios  se  fazem  amor,  e  a  impiedade 
se  converte  em  devoção,  e  a  soberba  em  humil- 
dade, e  a  injuria  em  blandicias,  e  a  raiva  em  lagri- 
mas ;  na  que  foi  sempre  virgem,  sempre  pura,  a 
encarnação  do  amor  infinito,  e  da  infinita  dor ! 

(Virgem  santissima,  perdoa,  se  a  minha  pallida 
eloquência  ousa  definir-te !) 

«No  seio  d'j&7/a,  a  Santa  das  santas  !  Ella,  amor 
infinito,  que  por  isso  tem  um  perdão  para  cada  cul- 
pa !  Ella,  infinita  dor,  que  por  isso  já  nem  outro 
bálsamo  conhece  ás  angustias  próprias  senão  a  con- 
solação das  angustias  alheias ! 

«Oh  !  a  mais  sublime  de  todas  as  martyres  !  Põe 
o  seu  seio  á  humanidade  peccadora  e  aíílicta,  e  diz- 
lhe :  se  tens  uma  supplica  para  meu  Filho,  e  teu 
redemptor,  pousa-a  em  cima  das  minhas  dores ;  e 
Elle  ha  de  aceitar  a  tua  supplica  para  não  aggrava» 
as  dores  da  mãi ! 

«Dores  de  Maria !  Oração  christã  que  pões  n'es- 
sas  dores  a  tua  esperança,  que  maior  apotheose  do 
que  explicar-vos  assim,  poderá  fazer-vos  a  palavra 
humana  ? 

«A  oração,  senhores,  é  toda  essa  immensidade 
de  confortos,  de  glorias  e  de  sentimentos  puros, 
cuja  virtude  eu  profundamente  sinto,  e  pessima- 
mente explico  !» 


As  cartas  de  Vieira  de  Castro  são  a  voz  que 
vem  de  além-mundo  chorar  ainda  á  beira  da 
sepultura  de  sua  mulher. 

VOL.    1  A, 


5o  Correspotidencia  epistolar 

Se  elle  vos  não  disse  nunca  o  entranhado 
amor  que  lhe  tinha,  vêde-o  n^essas  confissões 
a  um  homem,  um  dos  mais  Íntimos  seus,  o 
mais  valido  nas  suas  magoas,  e  ainda  o  mais 
secreto  confidente  nas  excellencias  e  nos  de- 
feitos da  sua  compleição. 

Como  as  cartas,  a  cada  pagina,  descrevem 
o  que  havia  communicavel  e  exprimivel  na  sua 
desgraça,  estou  dispensado  de  tentativas  mal- 
logradas.  Se  Othelo  escrevesse  quatro  linhas, 
depois  da  catastrophe,  essas  diriam  mais  que 
a  tragedia  do  seu  immortalisador. 

Das  oitenta  e  seis  cartas,  que  possuo,  parte 
d'ellas  foi  queimada  quando  escolhia  as  im- 
j^ressas  n'este  livro.  Eram  umas  em  que  elle 
antepunha  a  palavra  confidencial^  porque  ha 
dores  que  um  desgraçado  revela  a  outro,  quan- 
do se  entra  da  desconfiança  que  Deus  o  não 
vê  nem  ouve.  Mas  as  restantes  são  muitíssi- 
mas, porque  os  dias  do  martyrio  foram  muitos 
e  o  martyr  a  miúdo  encostava  a  cabeça  no  meu 
peito. 

Não  posso  publical-as  chronologicamente 
como  foram  escriptas,  e  em  perfeita  ordem, 
porque  as  do  anno  de  1871  não  tem  data. 
Dir-se-hia  que  as  horas,  os  mezes,  a  luz  e  a 
noite,  o  tempo,  em  fim,  parara  para  o  homem 
empedrado  entre  duas  voragens. 

As  que  eu  lhe  escrevi  numerou-as  elle  até 


Correspondência  epistolar  5i 

cento  e  quarenta  e  quatro;  mas,  os  espoliado- 
res dos  haveres  de  Vieira  de  Castro,  em  Loan- 
da,  guardaram  quatorze.  Eram  provavelmente 
pessoas  amantissimas  do  dinheiro  dos  mortos 
e  dos  autographos  dos  vivos. 

Uma  das  omittidas  e  mais  plangentes  cartas 
que  elle  me  enviou  do  Limoeiro  está  datada 
no  dia  em  que  uma  bem  composta  matrona 
acaudilhando  outras  menos  gafas  alli  entrou 
para  o  insultar. 

Decorridos  poucos  dias,  o  fogo,  que  lhe  vul- 
canisára  o  cérebro,  esfriara.  O  penitente  sorria 
para  o  fundo  do  cálix,  que  offerecia  aos  ma- 
nes da  esposa  vingada  pelas  Eumenides.  Elle 
mesmo  vos  conta  a  sua  ternura,  e  descreve  se- 
renamente esse  lance,  que  nos  mette  em  riste 
a  ferocia  dos  tempos  de  bronze  com  a  pregoa- 
da caridade  de  hoje  em  dia.  Eis  as  palavras 
do  grande  infeliz,  no  ultimo  anno  de  sua  vida, 
as  ultimas  que  escreveu  e  imprimiu  na  sua  pá- 
tria: 

«Succedêra  isso  n'um  cárcere,  no  dia  em  que  en- 
trava Deus  ás  cellas  dos  encarcerados.  Era  o  dia 
da  communhão,  o  dia  em  que  as  portas  das  prisões 
recuam  de  par  em  par  a  dar  passagem  á  hóstia 
consagrada,  o  symbolo  da  reconciliação  entre  a 
culpa  do  homem  e  o  perdão  de  Deus. 

«Contra  os  ferrolhos  de  um  d'esses  cubículos  tu- 
multuavam as  mulheres  e  tumultuava  nos  lábios  d'el- 


^2  Correspondência  epistolar 

las  o  riso,  o  ultraje,  a  curiosidade  insultadora,  o 
despeito  mal  reprimido.  Dentro  d'esse  cubiculo  mo- 
rava um  desgraçado  immensamente  respeitável. 

«Era  um  homem  de  32  annos,  e  que  ao  tempo 
da  sua  idade  acrescentava  já  outros  dez  annos  de 
degredo,  que  elle  aceitara  com  a  mesma  tranquilli- 
dade  com  que  esperava  ainda  mais  cinco  que,  an- 
tes de  nova  sentença,  o  consenso  unanime  lhe  pro- 
phetisava  e  promettia.  A  curta  historia  de  sua  vida, 
c  a  immensa  catastrophe  da  sua  ultima  data,  esta- 
vam amplamente  publicas.  N'uns  melancólicos  tra- 
ços se  pôde  contrahir  essa  historia.  Propiciára-o 
Deus  para  que  desde  os  19  annos,  por  uns  movi- 
mentos apaixonados  de  sua  alma,  assignalasse  sym- 
pathicamente  a  sua  carreira  entre  os  moços  da  sua 
pátria.  Por  vezes  a  fortuna  lhe  sorrira.  Também 
por  vezes  brincara  com  elle  a  gloria.  A  final  um 
dia  uma  labareda  estúpida  se  atêa  com  todos  os 
materiaes  do  seu  auspiciado  destino,  e  ao  sumir-se 
nos  ares  a  derradeira  chispa  do  pavoroso  incêndio, 
veio  a  saber-se  que  com  as  cinzas  evoladas  para  as 
nuvens  do  Senhor  subira  também  a  esposa  estre- 
mecidissima  d'elle,  d'elle  que  ficara  alli  de  pé,  cal- 
cinado, com  tudo  queimado  dentro  de  si,  e  podendo 
ver  com  os  olhos  do  rosto  n'aquellas  carbonisadas 
ruinas  todo  o  interior  de  sua  alma,  do  mesmo  modo 
com  que  horas  antes  contemplava  na  vida  palpitante 
d'esses  lemures  o  céo  todo  inteiro  da  sua  felicidade 
sem  balizas !  Sabia-se  que  esse  homem,  desgraçado, 
ou  louco,  se  atirara  de  cabeça  para  o  fundo  n'uma 
voragem  sem  redempção !  Soubera-se  também  que 
amara  immensamente,  e  que  para  salvar  a  immen- 
sidade  do  seu  amor  n'uma  memoria  e  n'um  perdão, 
bem  ou  mal,  crera  que  lhe  cumpria  abrir  uma  se- 


Correspondejicia  epistolar  53 

pultura  d'onde,  como  n'uma  taça,  Deus  recebesse 
para  o  seu  seio  uma  existência  que  já  não  tinha 
thalamo  na  terra,  e  que  depois,  com  essa  sepultura 
defendida  pelo  seu  peito,  assim  se  quedara  sempre, 
firme,  tranquillo  e  mudo,  deixando  que  repetidas 
vezes  contra  si  se  esgotasse  o  montão  de  pedras  ás 
mãos  da  calumnia  e  do  ódio.  Tudo  isto  era  sabido, 
e  muito  mais. 

«Quando  esse  homem  appareceu  diante  da  jus- 
tiça, e  da  lei,  deram-lhe  a  palavra  para  defcnder- 
se,  e  elle  pediu,  instou,  supplicou  que  lhe  não  infli- 
gissem o  mais  acerbo  dos  tormentos,  na  palavra, 
que  tantas  vezes  lhe  fora  contentamento  e  jubilo 
bom  ou  mau  orgulho.  Só  mais  tarde  quando  lhe 
leram  o  veredictum  que  importava  a  pena  do  seu 
desterro,  então  sim,  resurgiu  serena  a  sua  physio- 
nomia,  e  a  sua  voz,  sem  affectação  nem  ironia,  na- 
tural e  firme,  pôde  agradecer  ao  jury  as  delibera- 
ções que  o  condemnavam.  Por  uma  mutação  pro- 
fundamente commovedora,  e  de  enternecimento 
singularissimo  parecia  que  o  magistrado  presidente 
do  tribunal  lhe  tomara  conta  das  lagrimas,  em 
quanto  fallava.  Era  certo  que  em  vez  do  réo  era  o 
juiz  que  chorava.  Tudo  isto  fora  sabido. 

«No  dia  immediato  o  assombroso  causidico  d'esse 
homem,  tomando  forças  da  mesma  angustia  que  o 
seu  cliente  lhe  inspirava,  consolava-o  dizendo-lhe  a 
propósito  de  uma  resposta  a  um  quesito:  «Fizeram 
a  maior  justiça  ao  teu  caracter:  aquella  resposta  foi 
uma  veneração  para  ti  e  para  as  tuas  memorias!» 
E  o  cliente  redarguia:  «Meu  querido  amigo,  crê 
pela  salvação  da  minha  alma,  eu  senti  em  mim  o 
virtuoso  desejo  de  beijar  a  mão  a  cada  um  d'aqucl- 
les  jurados  cuja  pena  lavrou  o  meu  direito  de  jul- 


54  Correspondência  epistolar 

gar  quem  eu  matei.»  E  Jayme  Moniz,  tremulo,  ex 
citadissimo,  cresceu  com  a  sua  luminosa  fronte  aci- 
ma dos  hombros,  nos  do  seu  cliente,  apoiou  e  es- 
tendeu em  duas  parallelas  os  seus  braços  longos  e 
nervosos,  e  fitando  bem  nos  olhos  d'elle  os  seus 
olhos  inundados  de  dor  e  de  enthusiasmo,  disse- 
Ihe  n'uma  apostrophe  cortada  por  um  gemido:  ^Do 
que  eu  tenho  profunda  pena  é  de  te  vêr  perdido  para 
a  palavra  do  meu  paii  /»  Tudo  isto  era  também  sa- 
bido. 

«Quando  esse  homem  se  levantava  pela  ultima 
vez  ao  cabo  de  três  dias  do  seu  julgamento,  todo 
o  mundo  ouviu  silvarem-lhe  aos  pés,  esganadas  no 
seu  derradeiro  estertor,  as  cabeças  das  viboras  com 
que  por  mais  de  meio  anno  o  enfaixou  a  calumnia 
impunemente,  e  sem  nenhum  desforço  d'elle ;  e  an- 
tes d'isso  ouvira  pela  sua  honra  jurar  o  seu  defen- 
sor que  aquelle  réo  lhe  pedira  de  joelhos  que  só 
n'esse  triumpho  pozesse  a  mira,  que  por  parte  d'el- 
les  dous  de  mais  nada  se  curava  n'aquelle  tribunal, 
e  que  abandonasse  o  seu  delicto  vivo,  inteiro  e  pal- 
pitante nas  garras  famélicas  dos  seus  delatores.  Era 
tudo  isto  sabido. 

«Findo  esse  julgamento,  o  silencio  que  o  prece- 
dera nos  prelos  destemperou  n'uma  trovoada  inces- 
sante. Os  protestos  conglobaram-se  de  toda  a  par- 
te. Havia  um  homem  condemnado,  mas  ninguém 
queria  que  o  julgassem  capaz  de  igual  severidade. 
A's  portas  do  tribunal  confessavam  todos  que  uma 
votação  de  todos  seria  favorável  ao  condemnado. 
Pelas  senhoras  das  galerias  affirmou  uma  que  alli 
teria  unanimidade  a  absolvição.  Ao  cárcere  corre- 
ram no  dia  immediato  caracteres  dos  mais  puros, 
pares  do  reino  entre  elles  e  dos  mais  considerados 


Correspondência  epistolar  55 

na  honra  publica,  a  confessar  que  iam  alli  em  pe- 
nitencia de  se  haverem  deixado  illudir  pela  infâmia. 
De  toda  a  parte  as  adhesóes  e  as  lagrimas.  Das 
ilhas  portuguezas,  de  todas,  os  manifestos  mais 
vehementes,  mais  apaixonados,  mais  affectuosos  e 
estremecidos. 

«Ainda  na  véspera,  de  uma  d'essas  ilhas,  de  An- 
gra do  Heroismo,  um  diploma  popular,  no  qual  se 
alardeava  que  era  a  desgraça  a  que  aquelle  povo 
escolhia  com  amor  para  se  acercar  do  vulto  d'ella. 
Da  America  ouro  e  brilhantes  postos  sobre  a  for- 
mosa cabeça  aonde  se  gerara  a  apotheose  para  o 
caracter  illibado  e  redimido!  —  Tudo  isto  era  sa- 
bido também. 

«O  dia  da  pavorosa  scena  do  cárcere  fora  o  dia 
8  de  maio,  do  mez  primeiro  que  tu  amarraste  á  tua 
chronica.  Mas  esse  dia,  sabes  tu,  fora  o  mesmo 
que  doze  mezes  antes  afogueara  o  quadrante  a 
chamma  d'aquelle  grande  incêndio  do  desventura- 
do. Era  o  primeiro  anniversario  do  seu  trespasse 
d'elle,  a  que  o  destino,  por  umas  cruezas  sem  me- 
moria, quiz  que  o  próprio  morto  ficasse  assistindo 
em  vida  pelo  tempo  adiante. 

«Que  dia!  que  horas  as  d'esse  dia!  que  momen- 
tos os  d'essas  horas  !  que  instantes  n'esses  momen- 
tos! A  pancada  dos  relógios  das  torres  coava-lhe 
aos  ouvidos  as  betas  candentes  d'aquelles  mesmos 
sons  no  mesmo  dia  do  anno  extincto.  O  ar  revolu- 
teava, e  redemoinhava  em  derredor  d'elle,  como 
alguma  cousa  espavorida,  e  enleava-o,  abraçava-o, 
enroscava-o,  para  lhe  triturar  lentamente,  e  fio  a  fio, 
as  fibras  da  alma  e  as  do  corpo.  Era  o  anniversa- 
rio de  sua  própria  morte,  alguma  cousa  de  mons- 
truosamente internai  na  escaleira  dos  nefandos  mar- 


56  Correspondência  epistolar 

tyrios.  Por  isso,  e  só  por  isso,  eu  te  diria  que  era 
immensamente  respeitável  esse  infortúnio.  E  não 
era  ? 

«Mas  mais,  a  cclla  d'aquelle  preso  é  que  era  sa- 
cratíssima !  Porque  dentro  d'ella  guardava  um  de- 
posito seu  a  justiça  humana,  e  fora  velava  por  esse 
deposito  a  providencia  dos  sentenciados.  Vá.  Diga- 
me  a  tua  alma  se  ha  arca  no  mundo  para  resj)eitos 
mais  altos.  Pois  bem.  Umas  mulheres  houve  que 
apodreceram  todas  essas  memorias  e  tradições  ao 
tábido  hálito  de  suas  almas  obduradas,  esbofeteando 
a  Providencia  á  porta  d'aquella  cella,  e  assobiando 
lá  para  dentro,  no  seu  escarneo,  em  horas  mais 
longas  que  a  eternidade,  a  gargalhada  e  o  ultraje. 
Grupos  de  mulheres,  entendes  ?  Não  havia,  não 
houve  nunca  um  homem  no  meio  d'ellas  ! 

«Pensarás  que  estou  atraiçoando  a  verdade  em 
favor  da  minha  refutação.  Bem.  Dou-te  uma  tes- 
temunha insuspeita.  E'  do  funccionalismo,  e  das 
letras  como  tu;  ha  quatorze  annos  escriptor. 
Chama-se  o  dr.  Ferreira  da  Gosta.  D'elle  ouvi- 
ram uns,  que  m'a  recontaram  a  mim,  a  seguinte 
scena. 

«O  teu  collega  teve  de  abrir  passagem  contra 
a  onda,  e  não  sei  se  ao  pôr  a  mão  nos  ferrolhos 
da  porta  involuntariamente  prendeu  as  mechas  sol- 
tas da  ultima  cabeça  que  a  curiosidade  revezava 
na  clareira  da  chave.  Entrou.  O  amigo  d'elle,  e  o 
teu,  estava  só,  de  pé,  com  o  punho  esquerdo  a  am- 
parar-lhe  o  corpo,  fincado  sobre  a  carta  interrom- 
pida em  que  o  preso  estava  enthesourando  para  su^ 
mãi  as  lagrimas  d'aquelle  dia.  Vêl-o  foi  o  mesmo 
que  lançar-se-lhe  nos  braços,  e  exclamar-lhe  quasi 
desabridamente  :  «Obrigado,  meu  velho  amigo,  sal- 


Correspondência  epistolar  5y 

vaste-me  de  enlouquecer,  quem  sabe  ?»  E  o  dr. 
Ferreira  da  Costa  disfarçou  por  longo  tempo  a  im- 
pressão estranha  das  respostas  incongruentes  que 
lhe  dava  o  desgraçado.  Pergunta-lhe  como  elle  o 
viu,  como  por  6o  minutos  o  teve  diante  de  si,  e 
quantas  vezes  o  outro  lhe  repetia,  mesmo  diante 
de  quem  mais  chegou  depois  :  «Tu  não  sabes,  nem 
eu  talvez,  o  bem  que  me  fizeste.  Foi  Deus  que  te 
guiou  aqui.» 

«Já  ahi  estava  o  homem  que  eu  te  oífereço, 
quando  se  passou  o  caso  que  vou  referir-te. 

«Os  i5  degraus  da  escada  que  defronta  com  a 
cella  do  teu  amigo  estavam  tomados  por  um  ran- 
cho gracioso  e  alegre  de  meninas  louras,  que  do 
alto  do  patamar  dominava  uma  mulher  enorme,  a 
qual  d'alli  lhes  atirou  para  cima  da  alegria  d'ellas, 
e  do  seu  chilrear  despreoccupado  dos  pensamentos 
da  outra,  as  seguintes  palavras,  textuaes :  Então ! 
tem  lá  dentro  umas  tahoinhas,  e  um  tapete  ?  Quem 
lh'as  substituirá  por  um  chicote ! 

«Ha  apostrophes  que  são  como  os  tremores  de 
terra,  fazem  o  terror  e  o  silencio.  As  donzellas  fi- 
taram-se  melancolicamente,  e  uns  dous  infelizes, 
companheiros  do  preso,  que  sem  perceberem  a  ma- 
levolencia  de  uma  pergunta  tinham  confirmado  o 
que  a  mulher  asseverara,  sahiram  d'alli  com  os  ou- 
vidos queimados  pelo  simoun  da  asquerosa  contu- 
melia  bufado  dos  lábios  da  Tesyphoné ! 

«E  as  meninas  desceram  a  escada,  por  onde  pa- 
teou  atraz  d'ellas  a  mulher  do  tal  dito.  E  mais 
adiante,  consternadas,  e  rodeando-a,  perguntaram- 
Ihe  ellas,  que  historia  tão  má  era  a  d'esse  preso 
que  tamanhas  severidades  aífrontava.  E  a  velha, 
porque  era  velha  essa  mulher,  lá  foi  contando,  ao 


58  Correspondência  epistolar 

que  parece,   a  historia  pedida,  áquella  innocente  e 
indefeza  colmêa  de  noivas  futuras J» 


Não  se  olvide  uma  pagina  também  pere- 
grina d'aquelle  talento,  inflexível  ás  torturas. 
O  Club  Angrense  enviára-lhe  n'aquelle  mesmo 
dia  o  diploma  de  sócio  honorário.  Vieira  de 
Castro,  retrahindo  as  lagrimas  sob  a  mão  de 
bronze  da  sua  honra,  escrave  a  seguinte  carta 
de  agradecimento,  assombrosa  de  magoa,  de 
paixão  e  conformidade: 

Snr,  presidente  da  assembléa  geral  do  Club  Po- 
pular Angrense,  —  No  dia  7  do  corrente  mez  de 
maio  recebi  das  mãos  do  ili.'""  snr.  Joaquim  Coe- 
lho de  Andrade  e  Santos  a  carta  com  que  v.  exc.^ 
se  dignou  remetter-me  o  diploma  de  sócio  honorá- 
rio do  Club  Popular  Angrense,  encarregado  pela 
assembléa  geral  do  mesmo  club. 

Quantos  motivos,  exc.'"*^  snr.,  se  accumulam 
para  que  esta  honra  tenha  o  melhor  lugar  do  meu 
coração!  Entrou  ella  a  alumiar  as  minhas  trevas  no 
dia  em  que  as  dores  do  meu  infortúnio  renasciam 
na  sua  máxima  intensidade  pela  commemoração  do 
seu  primeiro  anniversario.  Vinha  enviada  d'uma 
cidade  por  ventura  a  mais  fidalgamente  brazonada 
entre  as   relíquias  históricas  d'esta  nossa  pátria,  e 


Consciência,  por  Samuel. 


Correspondência  epistolar  5g 

a  mais  estremecida  nas  tradições  da  minha  familia 
desde  que  meu  querido  e  chorado  pai,  o  snr.  Luiz 
Lopes  Vieira  de  Castro,  ahi  deixou  nas  saudades 
de  todos  os  corações,  e  d'ahi  trouxe  com  as  suas, 
o  nome  abençoado  e  estimadissimo  de  magistrado 
integerrimo.  Procedia,  não  d'um  individuo,  d'uma 
d'essas  raras  almas  que  pousam  por  milagre  nas 
grades  dos  encarcerados  a  apontar-lhes  o  pequeno 
ponto  do  céo  retalhado  por  ellas,  mas  de  muitos 
individuos,  da  alma  coUectiva  composta  de  muitas 
almas,  que  eu  sinceramente  penso  e  creio  que  deve 
de  ser  enxame  de  espíritos  de  eleição,  para  virem 
assim  tão  condolentemente,  até  á  ante-camara  da 
sepultura  d'um  homem  quasi  morto,  a  pousar-lhe 
com  a  maior  dignidade,  e  com  o  máximo  carinho, 
o  bálsamo  de  suas  confortativas  honras  no  vivo  das 
suas  chagas  ! 

Depois,  exc.™*^  snr.,  succedeu  ainda  que,  no  dia 
immediato  áquelle  em  que  eu  recolhia  nas  minhas 
mãos  e  no  meu  aífecto  o  vosso  alto  testemunho, 
por  occasião  de  se  celebrar  n'esta  cadêa  a  exposi- 
ção ostentosa  das  physionomias  e  dos  nomes,  das 
naturaUdades  e  dos  crimes  dos  desgraçados  irreme- 
diáveis, se  atropellaram  afora  do  meu  estreito  cár- 
cere não  sei  quantos  grupos  de  mulheres  sem  cari- 
dade, as  quaes  sibilavam  pela  fechadura  da  minha 
porta  os  ditas  da  sua  curiosidade  insultadora, 
rematados  pela  apostrophe  impudente  de  uma, 
cujos  cabellos  brancos  tornavam  mais  negra  a  sua 
cólera,  e  que  eu  aqui  não  ponho  em  escripta  por 
honra  de  todas  as  mulheres  nascidas  que  não  são 
aquella,  e  por  interesse  da  minha  desgraça  que  re- 
serva para  as  suas  contas  íinaes  com  Deus  o  preço 
d'esse  nefando  insulto  desacompanhado  dos  casti- 


6o  Correspondência  epistolar 

gos  com  que  certamente  o  infamariam  todas  as  al- 
mas piedosas,  se  por  ventura  o  conhecessem,  mas 
attenuando  assim,  o  que  não  quero,  as  dores  com 
que  eu  o  devorei  na  minha  solidão  e  no  meu  silen- 
cio. 

Nas  superstições  da  minha  desgraça  chego  ás 
vezes  a  suppôr,  ex.*"'^  snr.,  que  as  honras  que  eu 
de  vós  recebia  no  dia  7  eram  já  providencial  ante- 
paro contra  os  convicios  do  dia  8. 

Por  todos  estes  motivos  eu  peço  ao  exc.'""  snr. 
presidente  da  assembléa  geral  do  Club  Popular 
Angrense  faça  bem  scientes  os  seus  consócios  do 
muito  em  que  a  minha  alma  transborda  de  gratidão 
pelo  alto  favor  com  que  me  distinguiram,  e  que 
terá  sempre  dos  primeiros  lugares  ao  lado  de  ou- 
tros favores  em  que  Deus  tem  permittido  que  se 
ampare  o  meu  infortúnio. 

Permitta  porém  v.  exc.*^  que  eu  agradeça,  mas 
não  aceite,  as  palavras  finaes  da  carta  de  v.  exc.^ 
com  que  em  seu  nome,  e  no  da  assembléa  geral 
do  Club  Popular  Angrense,  se  digna  exaltar  o  que 
fui,  no  meu  passado,  entre  os  littcratos  e  os  politi- 
cos  do  meu  paiz. 

Gomo  escriptor,  o  mais  medíocre  de  todos,  eu 
pude  apenas  deixar  consignado  nas  ultimas  paginas 
escriptas  na  minha  felicidade,  o  voto  espontâneo, 
sincero  e  crente  pela  futura  republica.  Gomo  poli- 
tico, e  orador  favorecido  pela  attenção  dos  seus 
auditórios,  apenas  me  coube  a  alta  honra  de  defen- 
der sempre,  quanto  em  mim  cabia,  a  causa  da  de- 
mocracia e  do  povo  portuguez,  e  a  coragem  so- 
menos de  accusar  por  vezes,  violentamente  no  par- 
lamento e  nos  comicios  populares,  a  causa  das 
monarchias  e  dos  reis. 


Correspondência  epistolar  61 

Creia  v.  exc.%  e  a  assembléa  geral  do  Club  Po- 
pular de  Angra  do  Heroísmo,  que  eu  os  tenho  a 
todos  na  minha  mais  intima  consideração  e  estima* 

Deus  guarde  a  v.  exc.^  —  Cadêa  de  Lisboa,  10 
de  maio  de  1871.  —  José  Cardoso  Vieira  de  Castro. 

Exc.^^*^  snr.  Matheus  Augusto,  presidente  da 
assembléa  geral  do  Club  Popular  Angrense. 


Hoje  recebo  de  Victorino  da  Motta,  dilecto 
amigo  de  Vieira  de  Castro,  uns  threnos  que 
choram  sobre  a  immorredoura  memoria  do 
martyr.  Eu  não  tenho,  além  do  coração,  lugar 
de  maior  honra  que  lhe  dê  a  estas  paginas 
que  vem  ungidas  de  lagrimas,  senão  este  livro. 

Victorino  da  Motta  privou  com  Vieira  de 
Castro  como  de  coração  para  coração,  como 
dous.  talentos  desabrochados  á  um  tempo,  flo- 
rescidos no  mesmo  abril,  amantes  dos  mesmos 
livros,  sonhadores  da  mesma  felicidade. 

Que  entranhados  e  tantissimos  amigos  teve 
aquelle  adorável  desgraçado! 

Dobar-se-hão  os  annos.  Aquelles,  que  hoje 
lhe  dão  vida  nas  suas  recordações  dolorosas, 
terão  passado,  e  Vieira  de  Castro  será  ainda 
pranteado  na  historia  da  tribuna  pátria,  na 
harpa  do  poeta  e  nas  formidáveis  cóleras  da 
tragedia. 


02  Correspondência  epistolar 

Nas  dores  d'aquelles  que  o  amaram,  a  pos- 
teridade, desempeçada  dos  rancores  que  ainda 
hoje  se  assanham  nas  trevas,  comprehenderá 
quanto  Vieira  de  Castro  foi  honrado  e  querido. 

«Swr.  Camillo  Castello  Branco. 

«E'  o  nome  que  vai  escripto  no  topo.d'estas  pa- 
ginas, e  não  o  signatário  d'ellas,  que  pede  a  v.  ac- 
ceite  este  modestissimo  trabalho. 

f  A  memoria  do* nossa  amigo,  e  a  minha  saudade 
infinda,  serão  bastante  garantia  para  que  v.  acolha, 
sob  a  égide  do  seu  talento,  estas  singelas  recorda- 
ções dos  seus  humildes  camaradas  de  ha  i5  annos, 
na  redacção  do  Atheneo, 

«A  V.  como  o  mais  prestimoso  amigo  do  desgra- 
çado que  choramos,  e  como  mais  estrénuo  defen- 
sor das  suas  altas  virtudes,  serão  consoladoras  to- 
das as  reminiscências  d'aquelle  martyr. 

tSou,  etc. 

<iA,  Victor ino  da  Moita, 


JOSÉ  CARDOSO  VIEIRA  DE  CASTRO 

tLevantemos  uma  lapide  tumular,  escondida  nas 
arêas  ardentes  do  solo  africano. 

«Jaz  ahi  a  ossada  de  um  vulto  enorme,  que  nas- 
cera para  ser  uma  das  mais  brilhantes  glorias  da 
sua  pátria,  e  a  quem  a  fatalidade  arrastou  á  infini- 
dade do  infortúnio. 

«Talento  vigoroso  e  esplendido  acareára  a  admi- 
ração enthusiastica  do  povo  pela  sua  eloquência 


Correspondência  epistolar  63 

tribunicia:  grangeára  o  respeito  publico  pela  sua 
probidade  immaculada ;  merecera  a  sympathica  de- 
dicação de  todos  pela  cultura  esmerada  do  seu  ele- 
vado espirito. 

«Entre  os  braços  da  familia  que  elle  amava  e  os 
carinhos  da  mai  que  o  estremecia,  acordava  sempre 
na  ante-manhã  de  venturas  ridentes. 

lAfastado  das  lides  insanas  da  politica  militante, 
acercava-se  da  feliz  atmosphera  que  o  rodeava,  e 
inspirava  ahi  o  oxygeneo  da  sua  felicidade. 

«Julgava-se  venturoso. 

cMal  diria  elle  que  as  flores  viçosas  da  sua  pri- 
mavera se  enlaçariam  em  breve  a  um  ramo  fúnebre 
de  cypreste. 

«Mal  pensaria  o  desventurado  que  ao  mavioso 
canto  do  rouxinol  se  succederia  um  furacão  tremen- 
do, espantoso,  medonho. 

«Nos  limpidos  horisontes  do  seu  futuro  não  se 
divisava  um  floco  de  nuvem,  que  lhe  prenunciasse 
um  desprazer. 

«A  opulência  da  ventura  tornava  cada  vez  mais 
espesso  o  véo  que  encobria  o  sudário  da  sua  des- 
graça. 

«Aquelle  coração  abrazava-se  em  sede  de  gloria. 

«Não  saciado  ainda  com  os  triumphos  alcançados 
no  parlamento  do  seu  paiz,  foi  procurar  á  America 
novas  ovações. 

«O  tracto  da  peninsula  era  curto  para  fartar  as 
aspirações  vastas  d'aquelle  grande  espirito. 

«Ura  dia,  quando  a  capital  do  império  brazileiro 
pasmava  diante  do  verbo  eloquente  de  Vieira  de 
Castro,  illuminaram  os  esplendores  do  seu  génio  o 
rosto  d'uma  mulher  formosa. 

«Amaram-se. 


64  Correspondência  epistolar 

«As  procellas  do  espirito  cambiaram-se  em  tem- 
pestades do  coração. 

cBafejavam-lhe  as  auras  tépidas  d'aquelles  paizes 
um  porvir  de  fortunosa  bonança. 

«A  aureola  de  gloria  permutou-se  em  coroa  de 
noivado. 

«Entre-abriam-se  as  rosas  para  lhe  oífertarem  os 
seus  aromas  rescendentes^  aplacaram-se  os  mares 
para  navegar  sereno  o  barco  que  os  conduzia ;  pra- 
teára-se  a  lua  d'um  brilho  ineífavel  para  levantar 
os  relevos  d'uma  physionomia  angélica. 

«A  noiva  feliz  e  orgulhosa  pisava  na  sua  passa- 
gem tapetes  de  Suza,  e  repousava  languidamente 
a  cabeça  sobre  ottomanas  d'ouro. 

«A  America  do  norte  abrira  os  seus  portos  aos 
viajantes  felizes,  e  offertava-lhes  a  vastidão  de  suas 
florestas  virgens  para  theatro  dos  seus  idyllios  de 
amor. 

«Raiava-lhes  nos  horisontes  de  todas  as  latitudes 
o  sol  da  felicidade. 

«No  Novo-mundo  ou  na  Europa,  nas  cidades  ou 
nos  desertos,  nas  florestas  ou  nos  mares,  apparecia 
sempre  a  esteira  da  mais  prospera  ventura. 

<De  Nev^-York  escrevia  elle  a  um  amigo  seu : 

uMeu  querido  V. 

«Sinto-me  extremamente  feliz. 

«Tenho  uma  mulher  que  me  estremece  e  a  quem 
eu  beijo  até  á  fímbria  dos  seus  vestidos  e  até  nos 
vestigios  dos  seus  passos. 

«Receio  que  venha  alguma  nuvem  negra  toldar 
este  éden  de  supremas  felicidades. 

«Não  me  esqueço  nunca  de  ti. 


Correspondência  epistolar  65 

«Entre  as  caricias  da  mulher  e  a  dedicação  de 
um  amigo,  como  tu,  ha  uma  distancia  cheia  de  sau- 
dades pelo  teu  coração. 

«Mando-te  o  nosso  retrato. 

«Parto  brevemente  para  Portugal. 

«Junto  do  meu  berço,  quero  aberta  a  minha  se- 
pultura. 

«Adeus. 

«Abraça  por  mim  as  tuas  formosas  criancinhas, 
e  lembra-lhes  todos  os  dias  o  nome  do  teu  hospede 
impertinente  de  ha  4  annos. 

«Vou  residir  na  quinta  de  minha  mãi,  em  Morei- 
ra, perto  do  Porto.  Quero  vêr-te  alli  e  abraçar-te. 

«Escrever-te-hei  logo  que  chegue  a  Lisboa. 

«Teu  velho  amigo 
(íJosé.T> 

«Singrava  rápido,  pelas  aguas  do  Atlântico,  o 
navio  que  embalava  durante  a  viagem,  em  ondas 
de  meiga  ternura,  os  cônjuges  afortunados. 

«A  quinta  de  Moreira  estava  esplendidamente 
preparada  para  os  receber. 

«Desprendido  das  ambições  da  gloria  e  afastado 
das  vicissitudes  da  politica,  sequestrára-se  do  buli- 
cio  do  mundo,  alimentando-se  do  amor  da  esposa. 

«Ao  mesmo  amigo,  que  lhe  noticiava  a  morte  do 
pai,  respondia  elle  de  Moreira : 

a  Meu  querido  M. 

«A's  tuas  desgraças  respondem  as  minhas.  Cho- 
ro a  morte  de  meu  sogro,  a  mais  bella  alma  que 
conheci  no  mundo,  e  o  melhor  amigo  que  eu  tive. 

VOL.  I  5 


66  Correspondência  epistolar 

«Foi  para  mim  uma  grande  perda ! 

«Nunca  te  esqueci,  meu  querido.  Muitas  vezes 
recordo  o  teu  nome. 

«Doia-me  até  a  lembrança  de  que  te  não  hou- 
vesse chegado  ás  mãos  o  retrato  que  te  mandei  de 
New- York. 

«Tenho  immensas  lagrimas  para  o  óptimo  velho 
de  teu  pai. 

«Estou  a  ver  aquella  santa  physionomia,  que 
nunca  teve  uma  levissima  ruga  para  o  hospede  im- 
pertinente do  filho. 

«Como  vossês  se  pareciam! 

«N'isso  éreis  ambos  árabes ! 

«Eu  não  apago  nunca  do  meu  coração  os  dias 
bons  da  tua  casa. 

«Também  choro  a  tua  santa  mãi. 

«E  talvez  façamos  mal. 

«Quem  sabe  se,  elles  por  sua  vez,  chorarão  lá 
em  cima  esta  nossa  estúpida  peregrinação  ? 

«Não  tenho  aqui  os  meus  livros. 

« Mandar- te-hei — Discursos  parla  meutares, — Dis- 
curso da  caridade,  —  Republica,  e  o  Discurso  do 
meeting  do  Porto. 

«Eu  parto  para  Lisboa  por  todo  este  mez,  e  ten- 
ciono fixar  alli  a  minha  residência  por  alguns  mezes. 

«Se  tens  de  vir  ao  Porto  e  queres  dar-me  uma 
grande  consolação,  vem  a  tempo  de  passar  commi- 
go  alguns  dias. 

«Para  ti,  para  tua  esposa,  para  as  tuas  filhinhas 
e  antigas  amiguinhas  minhas,  muitos  affectos  nos- 
sos, meus  e  de  minha  mulher. 

«Adeus.  «Teu  amigo 

{<José,9 


Correspondência  epistolar  òy 

«N'estes  tempos,  ainda  as  lagrimas  do  infortúnio 
se  não  vertiam  no  cálix  das  flores  murchas  da  sua 
primavera  ! 

«A  ambrósia  e  o  néctar  distillavam-se  dos  lábios 
da  esposa  em  dulcissimos  beijos  e  em  sorrisos  ca- 
rinhosos. 

«Gastava-se   depressa   a  vida  n'aquella  febre  de 

affeicÕes  vehementes. 

> 

«A  formosa  Lisboa  encampava,  com  ares  de 
rainha  do  mundo,  ás  velleidades  da  indigena  da 
America. 

«Assentiu  desgostoso  ás  exigências  da  esposa  o 
marido  imprevidente. 

«O  Tejo  desdobrava-se  em  fitas  de  prata.  Lisboa 
sorria-lhe  ao  longe  com  os  seus  theatros  e  as  suas 
soirées  esplendidas. 

«O  brilho  da  corte  apparecia-lhe  em  sonhos,  como 
fascinação  deslumbrante  ;  e  depois.  . .  partiram. 

«Os  grandes  crimes  é  força  que  sejam  perpetra- 
dos nos  grandes  centros. 

«A'quella  alma  impudica  era  mister  um  vasto 
theatro,  onde  fizesse  plena  exhibição  da  sua  immo- 
ralidade. 

«O  desgraçado  seguia  imprecavido  a  estrada  da 
sua  desventura. 

«Confiado  no  amor  da  mulher,  que  todos  os  dias 
lhe  mentia  a  fé  d'um  amor  jurado,  caminhava  im- 
perterrito  atraz  da  sua  desgraça. 

«Semelhava  um  sahimento  fúnebre,  precedido 
por  um  demónio,  que  arrastasse  na  sua  cauda  a 
ossada  de  um  cadáver. 

«Um  dia,  varou-lhe  o  craneo  uma  suspeita  negra. 

«A  monstruosidade  d'um  nefando  crime  depa- 
rára-se-lhe  vultuoso,  agigantado  e  informe. 


68  Correspondência  epistolar 

«Amedrontava-o  a  terrível  realidade,  e  o  hor- 
rível despertar  d'um  sonho  feliz.  . . 

«O  cérebro  queimava-se  em  torrentes  de  lava 
destruidora,  e  o  coração  refrigcrava-se,  ainda,  nos 
frescores  da  esperança. 

«A  duvida  era  um  supplicio  atroz  ;  e,  do  cume 
d^essa  montanha  enorme,  era  forçoso  descer  para 
os  jardins  de  suprema  felicidade,  ou  precipitar-se 
nos  abysmos  d'uma  terrível  verdade. 

«Era  certo  o  opprobrio  :  o  precipício  abría-se-lhe 
temeroso,  mas,  para  aquelle  génio  de  fogo,  não  havia 
a  hypothese  de  uma  vacillação,  sequer. 

«A  voragem  d'uma  cratera  começava  a  sorrir- 
Ihe  seductora,  e  a  fascinação  do  abysmo  attrahía-o 
irresistivelmente. 

«N'aquella  organisação  violenta  cada  impressão 
era  um  abalo,  e  cada  sensação  uma  paixão. 

«Sentia  pulsar  as  artérias  e  correr  o  sangue  nas 
vêas,  e  assemelhava  as  suas  funcções  physicas  a 
uma  perpetua  tempestade  interior. 

«Começou  então  uma  lucta  tremenda  entre  a  di- 
gnidade e  o  amor. 

«A  cabeça  refervia-lhe  n'um  remoinho  de  pensa- 
mentos ínfernaes,  em  quanto  o  coração  transbor- 
dava de  misericórdia  e  de  perdão. 

«A  tempestade  bramia  por  sobre  aquella  cabe- 
ça desvairada,  e  fulminou  uma  existência  serena  e 
feliz. 

«O  raio  estalou,  abrindo  no  rastro  de  fogo  duas 
sepulturas. 

«Foram  poucos,  os  que  poderam  apalpar  as  ago- 
nias excruciantes  d'aquella  alma  dilacerada. 

«Poucos  dias  depois  do  succedimenio  nefasto, 
que   lhe  toldara  para  sempre  as  manhãs  da  vida. 


Correspondência  epistolar  6g 

escrevia  elle  a  um  amigo,  orvalhados  com  lagrimas, 
os  periodos  que  seguem : 

«Ai,  meu  filho,  tu  que  foste,  e  que  de  certo  és 
marido,  como  eu  sei,  adivinha  qual  será  a  consola- 
ção derradeira  de  uma  existência,  que  mostra  para 
um  ponto  do  céo  os  seus  braços  presos  pelas  gra- 
des d'um  calabouço,  a  um  espirito  que  se  amou 
immensamente,  e  que  deixou  de  si,  para  memoria 
eterna,  um  céo  e  um  inferno ;  o  céo  de  umas  ale- 
grias phantasiadas,  immorredouras,  o  inferno,  onde 
tudo  isso  foi  lambido  por  uma  labareda  estúpida  ! 

«Deixa-me  correr  estas  lagrimas.  Perdôa-me,  se 
desvairo. 

«No  teu  peito  ponho  eu  todos  os  meus  gritos, 
como  elles  se  me  alevantam  da  alma  despedaçada. 

«O  que  eu  queria  dizer-te,  é  que  tenho  sido  eu 
que  tenho  confortado  os  meus  amigos  contristados. 

«Não  te  atormentes,  pois,  meu  irmão  de  ha  5 
annos!» 

«Ninguém  ha  ahi  que  desconheça  as  ingentes 
agonias,  que  estrangulavam  aquella  grande  alma 
nos  cárceres  do  Limoeiro. 

«Era  o  dia  8  de  maio. 

«Essa  data  recordava  ao  desventurado  um  terrí- 
vel anniversario. 

«Um  anno  antes  contara  elle,  n'esse  dia,  as  ho- 
ras por  séculos  infindos  e  os  momentos  por  com- 
pridas eternidades. 

«Foi  n'esse  dia  que  se  incendiou  um  thalamo 
nupcial,  devorando,  na  sua  chamma  esverdeada,  duas 
opulentas  existências. 

«Foi  n'esse  dia  que  se  cavaram  duas  sepulturas. 


70  Correspondência  epistolar 

immensas  como  sorvedouros,  que  enguliram,  pelas 
suas  largas  gargantas,  duas  formosas  creaturas. 

«N'esse  dia,  depositava  o  desditoso  as  lagrimas 
de  seus  olhos  nos  seios  de  sua  extremosa  mai, 
quando  lhe  pareceu  ouvir  os  sons  de  estridulas 
gargalhadas  a  repercutirem  se  nos  corredores  do 
cárcere. 

«Era  feminino  o  timbre  das  vozes  que  chasquea- 
vani  e  que  riam! 

»E'  que  esse  dia  era  de  festa  na  prisão. 

«Abriam-se  escancaradas  as  portas  do  Limoeiro 
para  dar  passagem  á  hóstia  consagrada,  symbolo 
de  redempção  e  amor  para  as  almas  atribuladas. 

«Accorreu  de  tropel,  e  em  chusma,  a  turba  das 
mulheres  honestas  da  capital,  ás  portas  d'aquelle 
medonho  antro. 

«Arreceavam-se  de  transpor  os  áditos  da  mas- 
morra as  virtuosas  matronas. 

«Segredava-lhes  a  consciência  que,  nas  suas  cos- 
tas,  se   correriam   os  pesados  ferrolhos  da  prisão. 

«O  appetite  do  insulto  despertou-lhes  a  coragem 
tibia,  decretando  vilipendiar  o  desgraçado. 

«Entraram. .  . 

«A'  porta  da  cella  estreita,  que  fechava  a  liber- 
dade a  um  dos  maiores  desgraçados  d'esta  década, 
redemoinhavam  e  contorciam-se  como  serpentes 
essas  hordas  de  mulheres  famintas  de  curiosidade 
desbragada,  que  se  arremettiam,  agglomeravam, 
aggrediam,  acotovelavam  e  arrojovam  para  se  subs- 
tituírem á  clareira  da  fechadura. 

«Este  bando  de  megeras  ia  levar  ao  calabouço 
do  condemnado  a  maldição  do  insultuoso  escar- 
neo. 

«Nos  lábios  d'essas  pesiaes,  resequidos  já  pela 


Correspondência  epistolar  7/ 

hediondez  do  vicio,  pairava  a  negrura  da  zombaria 
e  da  mofa. 

«O  desventurado  aspirou  até  ao  cabo  essa  atmos- 
phera  d'impropcrios,  de  mistura  com  os  gazes  pesti- 
lentos d'aquellas  boccas  podres  e  corrompidas. 

Publicou-se  mais  adiante,  em  Lisboa,  um  opús- 
culo que  o  author,  penna  vigorosa  e  enérgica,  ap- 
pelidára  Consciência. 

«Vem  escriptas  aili  com  absyntho,  as  dores  que 
acicataram  n'esse  dia  aquelle  pobre  coração. 

«Ouçamos  por  momentos  os  gritos  angustiosos 
d'aquella  alma  esphacellada  *. . . 

«Ahi  estão  os  lamentos  do  martyr  agonisante  nas 
paginas  da  Consciência. 

«Era  ignóbil  aquclla  cruz  para  se  arrastar  ao 
cume  do  Calvário!    . 

«Era  aquclla  sccna  própria  d'um  canibalismo  es- 
túpido e  vergonhoso. 

«As  pantheras  espreitavam  as  viagens  da  victi- 
ma,  que  se  contorcia  em  dolorosas  angustias,  e 
escutavam  os  gemidos  estertorosos  do  martyrio, 
que  lhe  infligiam  as  suas  aduncas  garras  ! 

«E'  mister  uma  heroicidade  santa  para  curtir  em 
si  aquellas  dores  terebrantes. 

«Caracter  brioso  e  altivo,  nunca  pensara  domar- 
se  ás  bofetadas  ignominiosas  da  plebe  latrinaria. 

«Era  muito  outro  então  o  tribuno  vehemente. 

«Alquebrára-lhe  a  desventura  a  valentia  do  gé- 
nio, e  passara  uma  lima  grossa  por  sobre  os  picos 
alcantilados  da  sua  vaidade. 

«A  audácia  do  homem  que  affrontára  afouto  as 


*  Eliminamos  os  períodos  que  eram  parte  das  pungentes 
paginas  que  já  deixamos  trasladadas  da  Consciência. 


7^  Correspondência  epistolar 

tempestades  do  parlamento,  e  que  se  alevantára 
enthusiastico  nas  salas  da  universidade,  succumbia 
débil,  e  curvada,  aos  apodos  das  mulheres  devas- 
sas. 

«E'  que  a  chamma  da  desgraça  havia  lambido 
as  azas  á  altaneira  águia. 

«No  mesmo  dia  em  que  foi  julgado,  dirigia  elle 
a  um  amigo  velho  a  carta  que  segue : 

«Lisboa.  —  Sabbado. 

<íMeu  querido  filho, 

«Sahi  do  tribunal  condemnado  e  honrado. 

«Estou  bem  com  Deus,  com  a  minha  consciên- 
cia, e  com  os  homens,  a  quem  não  tenho  ódio. 

«Desejo  partir  quanto  antes. 

«Não  poderei  abraçar-te,  meu  querido  amigo  ! 

«Deus  nos  dê  vida  e  saúde,  e  poderemos  ainda 
consolar  as  nossas  velhices  com  tantas  recordações, 
que  me  estão  afogando  o  coração. 

«Recebi  o  teu  telegramma. 

«Beijo-te  c  abraço-te. 

«Adeus,  meu  filho. 

«O  céo  não  desampara  todos  os  anjos  d'essa 
casa,  que  se  me  está  toda  repetindo  na  memoria 
com  pungentíssima  pena. 

«Adeus,  meu  querido. 

«Teu  do  coração 

(kVieira  de  Castro* 

«Aquella  alma  recebeu  contente  no  pescoço  a 
corda  do  suppliciado,  mas  repelhra  para  longe  de 
si,  as  nojentas  calumnias,  e  as  injurias  contumelio- 
sas  d'uma  raça  infame  de  detractores. 


Correspondência  epistolar  i3 

«O  jury  quebrara  os  dentes  ás  víboras  que  que- 
riam mordel-o  na  sua  reputação  immaculada. 

«Jayme  Moniz,  o  talentoso  académico,  disse  ao 
condemnado  no  dia  do  seu  julgamento :  «Fizeram 
a  maior  justiça  ao  teu  caracter  •,  a  resposta  do  jury 
foi  uma  veneração  para  ti  e  para  as  tuas  memo- 
rias ;  mas  do  que  eu  tenho  immensa  pena,  é  de  te 
ver  perdido  para  a  palavra  do  meu  paiz !» 

«Mais  tarde  enviava  elle  ao  seu  inconsolado  amigo 
os  tristes  períodos  que  se  seguem : 

^Meu  querido  amigo, 

«Só  hoje  te  respondo,  mas  todos  os  dias  tenho 
contemplado  a  Providencia  na  tua  carta. 

«Grande  alma  a  tua,  nobre  e  grande  coração  o 
teu,  meu  velho  ! 

«Não  sou  de  todo  infeliz. 

«Não  o  é  aquelle  a  quem  Deus  concede  vêr,  á 
luz  do  máximo  infortúnio,  a  mais  apaixonada  das 
dedicações. 

«Abraço-te  e  beijo-te,  minha  adorável  fronte, 
aonde  se  pousaram  as  derradeiras  vistas  da  minha 
vida  de  rapaz ! 

«Mas  não,  meu  filho,  não  digas  mal  d'esta  socie- 
dade, que  me  condemnou. 

«Podia  talvez  ser  menos  deshumana,  podia,  mas 
não  digas  que  foi  injusta. 

«Castigaram  o  meu  delicto,  mas  salvaram-me  das 
injurias,  com  que  me  crucificava  a  maldade  e  a 
mentira. 

«Sei^  que  me  deviam  a  reparação,  mas  podiam 
convencer- se  da  minha  justiça  e  escondei  a. 

«O  mundo  dá  sempre  tão  pouco,  que  é  preciso 
agradecer-lhe  isto,  que  é  muitíssimo  ! 


']4  Correspondência  epistolar 

«Ha  de  consolar-te  saber  uma  cousa. 

«A  desgraça  fez-me  bom. 

aSinto  melhor  a  minha  alma  pela  dor;  vejo  mais 
claro  na  eternidade,  com  as  pálpebras  cerradas  ao 
peso  da  escuridão  do  meu  destino. 

«Não  tenho  ódios ;  fazem-me  chorar,  quando  me 
dizem  que  é  unanime  o  sentimento  inspirado  pelo 
meu  infortúnio. 

«Eu  devo  á  minha  condemnação  a  força,  a  paz, 
a  tranquillidade,  que  talvez  a  liberdade  não  podesse 
dar-me. 

«Não  venhas  aqui,  meu  filho ;  não  venhas,  que 
eu  tenho  medo  de  diluir  essas  três  cousas  nas  la- 
grimas irreprimíveis  do  teu  peito. 

«Sou  eu  que  irei  ahi.  Eu  sim. 

«Diz-me  a  crença  em  Deus,  que  d'aqui  a  lo  an- 
nos  te  visitará  na  tua  casa,  que  é  tanto  tua,  como 
da  minha  memoria,  e  que  poderei  beijar  a  mão  d'es- 
sas  meninas,  então  senhoras,  protestando-lhes  pelo 
meus  cabellos  brancos,  e  pelas  dores  da  minha 
desgraça,  altas  virtudes  da  santa  que  ellas  não  co- 
nheceram bem,  e  que  eu  vi  fazer  a  felicidade  de 
um  dos  mais  inspirados  amigos  da  minha  mocidade. 

«Deus  não  pôde  mentir-me  n'estas  doces  vi<jÕes 
da  minha  modesta  esperança. 

«Deus  sorri-me ;  se  assim  não  fora,  porque  não 
houvera  eu  enlouquecido  ou  expirado  ? 

«A  minha  consciência  está  cheia  do  seu  direito  ; 
a  minha  alma  cheia  das  suas  dores  ;  e  meu  cora- 
ção esmagado  debaixo  de  ambas. 

«Aqui  tens  o  teu  hospede  de  ha  5  annos. 

«Dize  ás  tuas  filhas  que  peçam  a  Deus,  que  eu 
d'aqui  a  lo  annos  possa  bater  á  vossa  porta,  não 
levando  nem  mais  nem  menos  do  que  isto. 


Correspondência  epistolar  jS 

«Adeus.  Beijo-te,  meu  filho.  Beijo  essas  crian- 
cinhas, cujas  imagens  se  cingem  aos  derradeiros 
contentamentos  da  minha  vida. 

«Falla-lhes  alguma  vez  do  desgraçado 


d  Vieira  de  Castro,-» 

«Haverá  coração  que  resista  a  derramar  uma  la- 
grima perante  a  immensidade  d'esta  suprema  dor  ? 

((Haverá  granito  que  resista  aos  raios  d'esta  fa- 
talissima  desgraça  ? 

«O  fel  da  desventura  a  verter-se,  todo  inteiro, 
no  coração  angustiado  da  victima,  e  haverá  punhal 
a  que  se  aguce  a  ponta  para  se  lhe  cravar  no 
peito  ? 

«Clemência  e  piedade  implorava  o  desventurado, 
que  ha  pouco  ainda,  no  zenith  da  sua  gloria,  arrastava 
as  multidões  compactas,  acorrentadas  á  eloquên- 
cia da  palavra,  e  fazia  acuar  a  maiorias  facciosas 
com  a  sua  presença  na  tribuna  do  parlamento. 

«O  Creso  de  glorias  tribunicias,  vem  pedir  de 
rastos  a  esmola  d'uma  phrase  que  o  console. 

((O  orador  temido  e  respeitado  pelos  represen- 
tantes do  seu  paiz  estiola  se  nas  trevas  d'uma  ca- 
verna, e  exora  a  Deu^  termo  da  sua  peregrina- 
ção na  terra. 

«Corta-se-nos  o  cérebro,  em  talhadas  de  sauda- 
de, ao  relembrarmos  as  gloriosas  phases  da  vida 
de  Vieira  de  Castro. 

«Um  dia  a  faculdade  de  direito,  inconsciente  ou 
vingativa,  havia,  constituida  em  jury,  votado  con- 
tra a  admissão  no  seu  grémio,  d'ella,  de  um  dos 
mais  conspícuos  talentos  da  nossa  pátria.  Era  Au- 


^6  Correspondência  epistolar 

gusto  Barjona,  essa  formosíssima  intelligencia,  que 
desagradou  á  esquálida  ignorância  dos  bachás  scien- 
tificos. 

«A  mais  vasta  sala  da  universidade  fora  o  thea- 
tro  escolhido  para  este  supremo  escândalo ! 

«A  mocidade  estudiosa  pejava  todos  os  ângu- 
los do  amplo  espaço  e  ouviu  contristada  o  veredi- 
cium  solemne  d'aquelles  juizes. 

«Vieira  de  Castro  estava  também  alli. 

«Áquella  Índole  de  fogo,  não  lhe  sofFreu  o  animo 
esta  afifronta  á  intelligencia. 

«Levantou-se  inspirado,  ardente  c  altivo,  e  esma- 
gou, debaixo  do  peso  de  apostrophes  violentas, 
este  desamor  ao  talento. 

«A*  audácia  d'aquelle  nobre  caracter  respondera 
a  tibieza  dos  professores. 

«A  faculdade  reconsiderou  na  vergonha  da  sua 
sentença,  e  levantou  da  cabeça  do  cpncorrente  o 
estigma  indelével  de  reprovação. 

«Conhecem  todos  as  funestas  consequências  que 
trouxe  ao  dedicado  moço  esta  acção  desinteressada. 

«O  conselho  dos  decanos,  reunido  em  sessão  se- 
creta, decretara  inquisitorialmente  a  exclusão  da 
universidade,  do  orador  apaixonado ! 

«Isto  não  passa  de  ser  espantosamente  ignóbil ! 

«Como  depressa  se  apagou  aquella  brilhante  es- 
trella,  deixando  um  rastro  luminoso  na  curva  da 
sua  orbita ! 

«Como  depressa  se  extinguiu  aquella  existência 
amoravel,  legando  no  seu  occaso  uma  saudade  im- 
morredoura ! 

«Nas  compridas  noites  de  insomnia,  abafado  pe- 
las pesadas  abobadas  do  cárcere,  ainda  pôde  al- 
guém recolher  as  lagrimas  d'aquelle  martyrio  lento, 


Correspondência  epistolar  77 

no  cálix  da  amizade,  e  tragal-as  depois,  como  con- 
solação á  dor  que  lhe  lacerava  o  espirito. 

«Houve  ainda  alguém  que  sentiu  ao  longe  as  pul- 
sações desordenadas  d'aquellas  artérias  volumosas. 

«Alguém  houve  ainda,  a  quem  os  ventos  rijos  do 
sul  arrojaram  os  soluços  do  seu  passamento ;  e  a 
quem  as  auras  tépidas  do  outono  trouxeram  as  sau- 
dades da  sua  affcição. 

«Era  o  dia  i.°  de  novembro,  e  escrevera  elle  a 
carta  que  vai  seguir  se. 

<LMeu  querido  V, 

«Não  te  esqueceste  de  mim,  não? 

«Nem  eu  de  ti. 

«Só  hoje  volto  a  escrever-te,  porque  tenho  quasi 
medo  de  ir  empanar  as  claridades  serenas  dos  meus 
amigos  felizes,  com  as  trevas  negras  da  minha  se- 
pultura. 

«Estão  quasi  seis  mezes  completos  do  meu  en- 
carceramento, e  já  apenas  sinto,  e  mal,  a  vida  phy- 
sica. 

«O  meu  passado  dá  me  um  amigo,  em  quem  eu 
creio,  como  n'um  irmão.  E's  tu. 

«Tu,  cujo  coração  eu  estou  ouvindo  bater  ao  meu 
lado  esquerdo,  á  tua  mesa  d'essa  casa,  aonde  eu 
me  senti  acarinhado  por  santos  e  por  anjos. 

«Com  quantas  dores  me  pungem  estas  memorias, 
meu  querido  amigo ! 

«Pois  bem:  tenho  de  te  confiar  a  ti  uma  pequena 
cousa,  e  pedir  te  uma  grande  honra. 

«Se  eu  um  dia  tivesse  de  pedir  á  tua  amizade, 
que  sahisses  por  pouco  tempo  de  Villa-Real  e  que 
viesses  encontrar-me,  ser-te-hia  isto  extremamente 
penoso  ? 


j8  Correspondência  epistolar 

«Escreve-me  e  dize-me  como  passa  tua  mulher  e 
os  novos  filhinhos  d'ella. 

«Põe  á  roda  de  ti  essas  minhas  formosas  ami- 
guinhas de  ha  quatro  annos,  e  dize-lhes  que  ás  1 1 
horas  da  noite  do  i.^  de  novembro,  me  lembrei 
d'ellas  com  lagrimas  nos  olhos. 

«A  mim  disseram-me  que  és  ahi  muito  estimado 
e  que  Deus  te  abençoa  o  talento  com  muitas  recom- 
pensas. 

«Fiz  d'isto  para  mim  uma  santa  alegria. 

«Adeus,  meu  filho. 

«Abraça-te  o  teu  velho  amigo 

1  Vieira  de  Castreis 

«Vai  n'esta  carta  a  lutuosa  imagem  que  reflectia 
o  espelho  limpido  da  sua  alma. 

Rastreára-lhe  talvez  pelo  ccrebro  a  idéa  do  sui- 
cídio ? 

«Que  pequena  cousa  iria  elle  confiar  ao  amigo,  e 
que  grande  honra  desejaria  receber? 

«Escripta  com  lagrimas,  a  resposta  do  amigo 
promettia-lhe  uma  dedicação  sem  limites. 

«Se  foi  a  idéa  da  morte  que  pairou  sobre  a  fronte 
escalvada  d'aquelle  desgraçado,  ninguém  o  pôde 
nunca  adivinhar. 

«Nunca  poderá  perscrutar-se  este  mysterio. 

«E'  certo,  porém,  que  o  infeliz  aconchegava  cada 
vez  mais  á  sua  epiderme  o  áspero  sudário  que  de- 
via amortalhal-o. 

«N'uma  carta  datada  de  Loanda,  em  24  de  maio, 
dizia  o  desgraçado  : 

«Tenho  soíFrido  bastante.  Tenho  uma  tosse  que 
me  arranca  lascas  do  cérebro. 


Correspondência  epistolar  yg 

«Devoro  quinina. 

«Ainda  não  tenho  coragem  para  me  demorar  a 
escrever-te. 

«Começa  a  passar-me  pelos  olhos,  cada  dia  e 
cada  hora,  dos  meus  tempos  d'essa  casa,  as  pes- 
soas, que  morreram,  as  que  vivem,  a  nossa  alegria 
e  tudo ! 

«Se  eu  ahi  te  abraçarei  ainda! 

«Rogo  a  Deus  pelas  tuas  filhinhas,  pela  tua  com- 
panheira, e  por  ti. 

«O  degredado  é  sempre  para  ti  o  mesmo  amigo 

<i  Vieira  de  Castro,^ 

«Esgotava-se  a  tempestade  d'aquella  existência 
tumultuosa  n'uma  chuva  de  lagrimas ! 

«A  bonança  sonhara-a  o  desventurado  em  sete 
palmos  de  terra  africana,  onde  um  coveiro  negro 
lhe  cavasse  uma  estreita  sepultura. 

«E  assim  foi. 

«O  denique  é  o  epithaphio  modesto  da  sua  cova. 

«Mas  voltemos  a  aífrontar  os  mares  revoltos  do 
seu  infortúnio. 

«O  encarcerado  digeria  lentamente  o  veneno  que 
a  maledicenica  lhe  propinava  nos  seus  parcos  ali- 
mentos. 

«O  ar  doentio  das  costas  africanas  parecia-lhe 
salutar  remédio  para  combater  o  gaz  insalubre  da 
calumnia,  que  lhe  assassinava  o  corpo  enfraqueci- 
do e  débil. 

«A  anciã  do  desterro  desenhava-lhe  por  um  pris- 
ma negro  as  cores  do  cárcere. 

«Reçumavam  humidade  as  paredes  da  prisão; 
coava  se   a  luz   do  sol  pelas  grades  apertadas  das 


8o  Correspondência  epistolar 

janellas  *,  despertava-lhe  o  ranger  dos  ferrolhos  um 
somno  transitório  ;  acordava-lhe  a  voz  das  senti- 
nellas  o  sentimento  da  liberdade. 

«Quem  lhe  poderia  roubar  a  posse  das  terras 
do  seu  destino? 

«Em  27  de  maio  de  1871,  já  cançado  de  esperar 
pela  decisão  do  tribunal  de  2.^  instancia,  soltava 
mais  um  grito  de  desesperação. 

«iMeu  querido  V, 

«Agradeço-te  a  tua  solicitude. 

«Ainda  não  ha  dia  marcado  para  o  meu  julga- 
mento, com  quanto  eu  espere  que  seja  breve. 

«Os  nossos  desembargadores  são  pouco  escor- 
reitos, e  precisam  de  mais  de  meio  anno  para  po- 
rem   10  annos  de  degredo  em  i5,  ou  toda  a  vida. 

«Eu  só  lhes  não  perdoo  a  infâmia  de  me  esta- 
rem roubando  a  posse  da  Africa,  que  me  deu  a 
primeira  instancia. 

«Pensei  que  o  degredo  pertencia  ao  degredado. 
Pois  parece  que  não. 

«Respondo  pelo  correio  ao  teu  telegramma. 

«Recebeste  uma  carta  minha  que  te  mandei  na 
paschoa  ? 

«Adeus,  meu  filho. 

Os  meus  respeitos  e  os  meus  aífectos  ao  teu  santo 

lar. 

«Sempre  teu 

a  José. » 

«A  carta  que  fora  escripta  na  paschoa  é  ainda 
um  protesto  contra  a  indolência  dos  juizes  da  re- 
lação. 


Correspondência  epistolar  8i 

«Lisboa  9  —  4  —  71. 

<íMeu  querido  amigo. 

«Ha  dous  dias  que  recebi  uma  cana  tua,  deli- 
ciosissima  do  aííecto  que  tanto  te  mereço.  Não  te 
esqueço  nunca.  O  teu  vulto  e  os  meus  dias  d'essa 
casa,  são  das  memorias  que  mais  lagrimas  vertem 
na  minha  alegria  morta. 

aA's  vezes  faço  um  esforço  supremo  para  es- 
quecer, e  peço  a  Deus  por  piedade  o  que  o  Man- 
tredo  pedia  aos  espiritos. 

«Ai,  meu  amigo  ! 

«Tudo  isso  era  para  dizer-te  que  o  meu  silencio 
SC  alguma  cousa  te  provasse,  seria  a  intensidade 
das  minhas  atormentadoras  saudades  ao  recordar- 
me  de  ti, 

«E  teu  pai? 

((Como  me  lembro  d'aquella  boa  alma  ! 

«E'  domingo  de  paschoa  hoje. 

«Se  Deus  resuscita  para  os  desgraçados,  nos 
meus  lábios  encontra  elle  o  pedido  da  tua  felici- 
dade. 

«Para  mim  nada  peço. 

«O  que  eu  quero  é  que  me  deixem  ir  para  o 
meu  degredo  e  quanto  antes. 

«Espero  a  decisão  da  Relação,  que  confirmará 
ou  aggravará  a  sentença  segundo  me  consta.  Se  a 
parte  não  recorrer  para  o  supremo  tribunal,  por  lhe 
não  convir,  eu  também  não  recorro  e  parto. 

«E'  este  o  meu  desejo". 

«Adeus,  meu  filho. 

«Os  meus  respeitos  aos  pés  de  tua  santa  mulher 

VOL.  I  Ó 


82  Correspondência  epistolar 

e  os  meus  carinhos  todos  ás  tuas  filhinhas,  e  ami- 
guinhas minhas  do  tempo  feliz. 


«Teu  amigo 
d  Vieira  de  Castro, -a 

«O  espectro  da  morte  acenava-lhe  de  longe  com 
os  ramos  fataes  da  mancenilha. 

«O  corpo  macerado  na  humidade  d'uma  prisão 
infecta,  já  mal  sentia,  como  elle  confessava,  a  vida 
physica. 

«Gonsolavam-no  tenuemente  as  dedicações  dos 
amigos  e  as  publicações  pela  imprensa,  que  mira- 
vam apenas  á  sua  justificação,  e  que  elle  reputava 
como  os  epitaphios  da  sua  sepultura.  Eram  sim  os 
complementos  da  sua  justificação  \  não  da  justifica- 
ção do  seu  delicto,  do  qual  só  Deus  tinha  a  pedir- 
Ihe  contas,  mas  a  justificação  de  todas  as  negras 
perversidades,  com  que  a  maldade  quiz  infamar  o 
seu  infortúnio  immenso. 

cEra  o  derradeiro  serviço  que  prestavam  á  honra 
da  sua  memoria  os  que  de  perto  poderam  auscul- 
tar a  generosidade  d'aquelíe  coração. 

tAfóra  estes  allivios  transitivos,  ia  sempre  o  des- 
graçado arrastando  uma  agonia  estúpida,  em  quanto 
Deus  julgasse  que  era  cedo  para  lhe  restituir  no 
céo  a  felicidade  que  lhe  deixou  incendiar  na  terra. 

cNos  últimos  dias  de  cárcere,  atormentava-o  a 
demora  em  Lisboa,  e  pungia-lhe  viver  no  meio 
d'aquelle  antro  immundo. 

tNo  dia  28  de  agosto,  escrevia  a  um  amigo  in- 
consolável, os  seguintes  periodos : 


Correspondência  epistolar  83 

(íMeu  querido  amigo, 

a  Parto  para  a  Africa  no  dia  5. 

«Levo  commigo  uma  saudade  immensa. 

«Se  um  dia  aqui  voltar,  correrei  á  tua  porta,  em 
procura  d'uma  das  raras  reminiscências  da  minha 
alma. 

«Deus  o  queria,  filho. 

«Se  morrer,  pede  ás  li  inhas  amiguinhas  de  ha 
6  annos,  que  lembrem  a  Deus  o  meu  nome. 

«A  mim  diz-me  um  fúnebre  presentimento,  que 
um  presidio  d' Africa  será  a  minha  sepultura. 

<Quero  reagir  contra  o  phantasma,  que  me  es- 
maga a  minha  consciência,  e  apparece-me  em  so- 
nhos a  alva  branca  dos  condemnados. 

«Olha,  meu  amigo,  quando  a  mão  descarnada  da 
morte  me  constringir  as  fauces,  irradiarão  três  idéas 
pelo  meu  cérebro,  próximo  a  extinguir-se.  São  três 
saúdes. 

«Uma  para  minha  mãi  e  meus  irmãos,  e  outra 
para  seis  amigos,  que  conheci  no  caminho  do  meu 
Calvário  \  a  outra  é  para  as  tuas  formosas  filhinhas, 
que  fazem,  como  eu  creio,  a  tua  felicidade.  A  Je- 
sus-Christo  abriram  um  sepulchro  junto  da  cruz, 
onde  tinha  os  braços  cravados;  a  mim  servirá  de 
epitaphio  uma  palmeira  gigante,  que  estenda  os 
braços  para  o  céo,  exorando  por  a  alma  acabrunha- 
da do  maior  desgraçado  que  pisou  a  crusta  da 
terra. 

«Adeus.  Vêr-nos-hemos  na  eternidade,  se  a  minha 
individualidade  se  não  perder  nos  abysmos  do  nada. 

«Envia-me  nas  monções  da  primavera  uma  das 
fiôres  da  tua  existência  feliz,  para  que  eu  a  leve 
commigo  ás  trevas  da  minha  sepultura. 


84  Correspondência  epistolar 

«Estou  cançado  de  viver  e  de  pensar  em  ti. 

«Nas  tuas  recordações  levo  eu  na  minha  viagem 
a  ultima  consolação. 

«A  saudade  punge,  mas  também  consola. 

«Correm-me  as  lagrimas  ao  ter  que  despedir-me 
de  ti. 

«Não  sei  se  terei  coragem  para  fechar  esta  carta. 

«Pela  ultima  vez,  adeus. 

«Teu  do  coração 

«José.» 

«Partira  o  condemnado  na  galera  dos  desterra- 
dos, caminho  das  praias  africanas. 

«A  vastidão  do  mar  e  a  immensidade  do  espaço, 
saciavam  de  ar  os  seus  pulmões  sedentos  de  oxy- 
geneo  puro. 

«A  febre  gerada  por  uma  saudade  infinita  tinha 
consumido  aquella  robusta  compleição. 

«O  roble  frondoso  tombou  alquebrado  pelo  tufão 
da  desventura. 

«Diante  da  traição  negra  da  mulher  que  amara, 
não  vacillou  o  seu  génio  impetuoso  e  ardente  entre 
os  apupos  das  multidões  e  a  suprema  condemnação 
dos  homens. 

«No  sacrário  da  sua  consciência  immaculada  es- 
talara um  pensamento  infernal. 

«O  phantasma  do  ridiculo  estorcia-se  diante  d'elle 
em  esgares  zombeteiros,  e  apontava-lhe  com  o  dedo 
para  um  futuro  de  ignominiosas  irrisões. 

«Os  fluidos  venenosos  começavam  de  encher-lhe 
o  craneo,  e  alli  comprimidos,  apertados,  constran- 
gidos, produziram  a  explosão  medonha  que  ater- 
rou Portugal  inteiro. 


Correspondência  epistolar  Sb 

«A  válvula  de  segurança,  a  razão,  essa  havia-se 
fechado   ao  primeiro  refluxo  da  onda  dos  vapores. 

«Quem  poderia  medir  a  dor  d'aquelle  desespe- 
ro, quando  a  sua  mão  nervosa  suffocou  na  garganta 
da  esposa  o  ultimo  grito  das  aífeiçÕes  adulteras  ? 

«Ninguém. 

uMais  tarde  conheceram-se,  pelo  rastro  d'ella, 
os  vestígios  insacaveis  do  martyrio  que  lancinou 
aquella  alma. 

«Tem-se  visto  o  ódio  levar  a  mão  estranguladora 
ás  fauces  da  mulher  que  se  abomina. 

«Tem-se  visto  o  punhal  afiado  rasgar  o  peito  da 
mulher  que  se  detesta. 

«O  assassino  tripudia  então  sobre  os  cadáveres 
das  suas  victimas,  e  traga  com  anciã  o  delicioso 
néctar  da  sua  feroz  vingança. 

«D'esta  vez  é  o  esposo  que  ama,  a  esmagar  com 
mão  de  ferro  os  vestigios  materiaes  da  sua  vergo- 
nha. 

E'  o  juiz  que  enlaça,  ao  collo  de  uma  victima  for- 
mosa, a  corda  do  carrasco. 

«E'  a  justiça  a  castigar  o  crime ;  a  lealdade  es- 
trangulando a  traição. 

«E  como  elle  amava  aquella  feia  alma ! 

«Como  elle  bebia  sôfrego  dos  seus  lábios  femen- 
tidos, o  absyntho  da  mentira ! 

«Como  elle,  temperamento  ardente,  estreitava 
nos  braços  aquelle  corpo  de  gelo  ! 

«Misérias  incomprehensiveis  da  ingenuidade  hu- 
mana. 

«Ahi  vae  uma  prova  irrespondivel  do  culto  inter- 
no, que  elle,  o  desventurado  dedicava  á  esposa. 

«Tumultuava  o  paiz  em  anciãs  eleitoraes. 

«A  candidatura  de  Vieira  de  Castro,  repercutida 


86  Correspondência  epistolar 

em  todos  os  ângulos  de  Portugal,  impunha-se  como 
severa  ameaça  á  situação  governativa. 

«Acontecia  isto  ainda  nos  seus  tempos  de  felici- 
dade. 

«Interrogára-o  um  amigo  acerca  da  veracidade 
da  noticia. 

«Eis  a  resposta : 

9.Meu  querido  M. 

«Quinta  de  Moreira. 

«Com  grandes  delicias  da  minha  alma,  recebi  eu 
a  tua  carta ! 

«Que  inveja  eu  tenho  á  tua  immerecida  obscuri- 
dade I 

« Perguntas-me  n'ella  se  quero  ser  deputado. 

«Eu  tenho  uma  esposa  que  me  ama  estremeci- 
damente,  familia  que  me  estima,  e  terei  talvez  al- 
gum filho,  se  Deus  me  quizer  fazer  essa  mercê. 

«Eu  adoro  a  minha  esposa  e  considero-me  feli- 
císsimo. 

«Ir  á  camará  é  sacrificar  a  familia  á  pátria  ^  e 
quando  a  pátria  é  Portugal,  equivale  o  nosso  ca- 
pricho, em  sacrificar  a  familia  a  uma  imperdoável 
velleidade. 

«Não  chega  a  ser  um  crime,  por  ser  uma  cousa 
principalmente  insignificante. 

«Se  ventos  adversos  me  não  colherem  os  voos 
audaciosos,  aguardarei  mais  prosperas  monções. 

«Crê,  meu  feliz  amigo,  a  familia  e  a  independên- 
cia constituem  o  meu  único  argumento  para  resi- 
gnar a  todos  os  encargos  públicos. 

«Estou  agrilhoado  ao  amor  d'uma  esposa  que  me 
ama,  e  diante  da  qual  eu  me  ajoelho  para  lhe  pe- 
dir perdão  da  minha  vida  de  rapaz. 

«Adeus,  meu  filho,  serás  tu  tão  feliz  como  eu  ? 


Correspondência  epistolar  8j 

((Aqui  tens  o  teu  camarada  na  redacção  do  Athe- 
neo ! 

«Transformou-se  a  coragem  em  fraqueza,  a  au- 
dácia em  imbecilidade. 

«Não  sei  se  foi  castigo,  se  premio  da  Providencia. 

«E'  certo,  entretanto,  que  eu  não  posso  invejar  a 
sorte  de  ninguém. 

«Adeus.  Um  beijo  ás  tuas  filhinhas,  e  um  abra- 
ço para  a  sympathia  do  teu  vulto. 

«Teu  do  coração 

Uoséy> 

«O  avarento  de  glorias  e  triumphos  depunha  aos 
pés  da  mulher  que  amava,  os  sonhos  dos  seus  the- 
souros,  e  prendia  á  orla  dos  seus  vestidos  coroas 
immarcessiveis. 

((Mucio  Scoevola,  queimara  a  mão  n'um  brazeiro 
ardente,  immolando-se  aos  amores  d*uma  mulher 
romana,  que  se  chamava  Glelia. 

((Vieira  de  Castro,  deixara  incendiar  a  vida,  o  fu- 
turo, a  gloria  e  tudo  peio  amor  da  esposa  que  ado- 
rava. 

«Chenier  e  Ghatterton  suicidaram-se.  procurando, 
na  mortalha,  o  socego  d'uma  tranquiliclade  eterna. 

(T Vieira  de  Castro  envergara  o  sudário  d'uma  pe- 
nitencia estertorosa,  macerando  a  alma  com  os  ci- 
lícios d'uma  saudade  immensa. 

«A  peçonha  que  lhe  envenenara  a  alma,  inocu- 
lára-se-lhe  no  sangue  e  percorria,  n'um  grau  rápido 
e  fatal,  a  torrente  circulatória. 

«O  mundo,  sempre,  rígido  e  austero,  constituira- 
se  em  verdugo  despiedado  do  homem,  cuja  culpa 
única  era  ter  esgotado  até  ás  fezes  a  sórdida  es- 


88  Correspondência  epistolar 

sencia  do  mais  asqueroso  fel,  e  cujo  único  pecca- 
do  era  ter  pisado  com  os  pés  sangrentos  e  descal- 
ços, os  espinhos  entalhados  no  rastro  da  esperança 
que  se  lhe  esvaecera  no  occaso. 

«A  critica  do  soalheiro,  virulenta  e  podre  como 
ulcera  sarnosa,  saciava  o  estômago  faminto  nas  vís- 
ceras de  uma  victima,  que  trilhara  sempre  uma  es- 
trada lisa  e  coimbrã. 

«O  homem  que  santificara  no  sacrário  da  sua 
alma  uma  aífeição  estreme  e  pura,  e  resistira  ás 
seducções  da  gloria,  que  lhe  estendia  os  braços,  é 
d'um  desprendimento  que  espanta  os  tibios  e  de- 
sarma a  maledicência  da  canalha. 

«Não  succedeu  porém  assim  ao  meu  desditoso 
amigo. 

«A  opinião  publica  que  desvairava  em  louca  ebrie- 
dade, á  entrada  de  Jesus  em  Jerusalém,  impu- 
nha-lhe,  poucos  dias  depois,  ás  costas  um  pesado 
madeiro,  em  que  iam  gravadas  letras  de  ignominia. 

«Ao  tribuno  eloquente,  que  arrastava  as  multi- 
dões na  cauda  da  sua  palavra,  ao  talento  festejado, 
que  prendia  as  turbas  pela  magia  da  sua  voz,  tam- 
bém a  opinião  publica  lhe  apparelhou  a  cruz  do 
aleive,  e  forjou  os  cilicios  d'um  immerecido  ultraje. 

«Aspirando  ainda  o  suavissimo  perfume  das  flo- 
ridas rosas  que  entreteciam  a  sua  coroa  de  noivado, 
não  pôde  consolar-se  da  dôr  suprema  que  lhe  con- 
frangia o  espirito,  morrendo-lhe  a  única  afFeição  que 
o  prendia  á  vida. 

«Soltando  dous  suspiros  de  saudade  que  reparte 
por  Deus  e  pela  memoria  da  única  mulher  que  ama- 
ra sobre  a  terra,  espera  que  o  estertor  do  agoni- 
sante  lhe  suffoque  nas  fauces  o  derradeiro  gemido 
d'um  eternal  amor. 


Correspondência  epistolar  8g 

«Houve  alguém  que  comprou,  á  custa  de  lagri- 
mas ardentes,  a  photographia  d'essa  dor  vehemente. 
«Ahi  vão  alguns  períodos  do  desafortunado: 

«Mez/  amigo, 

«Pisei  hontem  o  solo  africano. 

«Rescaldavam-me  as  arêas  as  plantas  dos  pés,  e 
a  ardência  do  sol  incendiava-me  o  cérebro. 

«Quando  de  longe  avistei  o  meu  paradeiro,  afi- 
gurou-se-me  logo  um  cemitério. 

<As  casas  offereciam-me  o  aspecto  de  dolmens 
druidicos  e  as  palmeiras  uma  floresta  de  cyprestes. 

«Se  fosse  alli  um  outro  mundo,  onde  emancipa- 
do de  sarcasmos  ignominiosos,  a  podesse  encontrar 
a  ella^  formosa,  como  o  meu  pensamento  a  dese- 
nha, e  como  a  minha  memoria  a  reflecte,  acredito 
que  lhe  perdoava ! 

«Admiras-te,  meu  filho? 

«Espantas-te  da  minha  fraqueza,  ou  pasmas 
deante  da  immensidade  do  meu  amor  ! 

«Mataram-me,  meu  amigo ;  e  eu  na  anciã  cruel 
d'esta  intima  agonia,  nem  ao  menos  posso  soltar 
uma  queixa  contra  os  meus  algozes. 

«Que  me  perdoem  elles,  se  me  perpassa  ás  ve- 
zes pela  mente,  alguma  idéa  de  resentimento. 

«Porque  não  aggravariam  os  meus  juizes  a  mi- 
nha pena,  condemnando-me  irremissivelmente  á 
morte  ? 

«Que  mal  fiz  á  sociedade  para  me  deixar  viver? 

«Não  ha  nada  mais  do  que  arrojar  com  uma  exis- 
tência para  os  presídios  da  Africa,  algemal-a  aos 
pulsos  dos  selvagens,  incendial-a  em  torrões  can- 
dentes, suífocando  á  mingoa  dos  ares  da  pátria,  res- 
pirando os  miasmas  paludosos  do  desterro,  sorven- 


go  Correspondência  epistolar 

do  a  longos  tragos  das  fontes  infectas  um  veneno 
lento  ? 

«Ai,  meu  amigo  e  meu  filho  ! 

«Sahe  amanhã  o  vapor  D.  Pedro!  Que  amargu- 
ras soffrerá  este  pobre  coração,  ao  vêr  levantar  ferro 
a  um  barco  que  vai  com  a  proa  em  direcção  á  pá- 
tria !  Adeus. 

«Se  algum  dia  as  minhas  memorias  te  levarem  a 
visital-o,  pede  lhe  para  ti  e  para  as  tuas  criancinhas, 
uma  saudade  que  te  enviou  um  desterrado,  que  se 
chamou  um  dia 

<í  Vieira  de  Castro.-» 


aTumultua  o  coração  do  amigo  em  pulsações  de- 
sordenadas, inspirando  o  pulmão  nas  brizas  do 
Atlântico  estes  gemidos  longinquos. 

a  Gemidos  de  suprema  angustia,  que  com  cedo 
se  permutaram  em  arrancos  de  moribundo. 

«A  pátria,  que  lhe  fora  madrasta,  enviára-lhe,  pela 
bocca  dos  seus  juizes,  uma  condemnação  suprema; 
a  familia  da  mulher  que  elle  amara  no  mundo,  so- 
prava aos  ouvidos  dos  seus  arautos  calumnias  des- 
preziveis  e  infamantes. 

«Lá  mesmo,  na  posse  do  seu  degredo,  foram  pro- 
cural-o  os  libellos  mais  affrontosos. 

«O  projecto  de  rebellião  contra  a  pátria  fora  o 
ultimo  insulto  que  affrontou  aquellc  martyrio  im- 
menso. 

«O  desventurado,  a  quem  não  sobravam  alentos 
para  combater  contra  phantasmas  impalpáveis,  tor- 
nava-se  na  bocca  dos  calumniadores  ignóbeis,  um 
valente  caudilho  a  propugnar  pela  independência 
das  nossas  possessões  ultramarinas ! 


Correspondência  epistolar  gi 

«Era  a  suprema  irrrisão  da  canalha  vil  e  desbra- 
gada. 

«O  sceptro  de  canna  verde,  cabia  mal  nas  mãos 
que  se  alevantaram,  para  fazer  engulir  a  mentira 
aos  seus  contumazes  detractores. 

«José  Horta,  então  governador  d' Angola,  consti- 
tuira-se  eloquente  advogado  do  desterrado,  fazen- 
do ver  á  luz  da  evidencia,  a  falsa  monstruosidade 
de  taes  protervias. 

«Não  bastara  isto. 

«A  maledicência  nas  suas  ferocíssimas  invenções 
engendrou  nas  trevas  um  outro  aleive  ainda  mais 
miserável. 

«Começara  de  propalar-se  de  bocca  em  bocca,  a 
noticia  de  um  novo  casamento  ao  marido,  que  atra- 
vés do  espaço  se  prendia  ainda  ao  espirito  da  esposa 
morta.  Era  rica  e  opulenta  a  promettida  noiva. 

(íA  torpe  especulação  da  victima  desafortunada, 
era  o  poste  ignominioso  onde  os  phariseus  preten- 
diam amarrar  o  filho  da  desventura. 

«As  narinas  dos  diffamadores  da  honra  alheia  fa- 
rejavam no  rasto  do  condemnado  as  mais  peregri- 
nas contumelias. 

«Vergava  o  corpo  ao  tremendo  peso  das  inju- 
rias; mas  o  espirito  quedava-se  sereno,  como  que 
arredado  das  tempestades  d'este  mundo  sublu- 
nar. 

«A  morte  batia  nas  azas  negras,  por  sobre  aquelle 
craneo  escalvado,  pronunciando-lhe  o  noivado  do 
sepulchro.» 

«Sorriam-lhe  lá  de  cima  as  caricias  da  esposa  que 
elle  tanto  amara,  e  a  alma  obtemperava  tibia  ao 
chamamento  fatal. 

«Na  data  de  25  de  julho  de  1872,  vertia  elle  em 


g2  Correspondência  epistolar 

Loanda,  n'uma  folha  de  papel  vellino,  as  lagrimas 
que  vão  seguir-se  : 

a  Meu  filho ! 

«Tu  não  sabes  as  dores  da  minha  vida. 

aPerdôa  o  meu  silencio,  porque  eu  amo-te  sempre. 

j Penso  em  ti  frequentemente. 

«Tenho  soífrido  muito. 

«Avoejam-me  pelo  cérebro  funestos  presentimen- 
tos. 

«Vae-se  apagando,  pouco  a  pouco,  a  luz  da  mi- 
nha vida. 

«Com  os  olhos  fitos  na  eternidade,  vejo  através 
das  trevas  que  me  cercam,  uma  imagem  querida, 
que  uma  incomprehensivel  fatalidade  arremessou  ao 
regaço  de  Deus. 

aConsome-me  uma  febre  devoradora. 

«A  tosse  dilacera-me  o  peito. 

«Os  médicos  d'aqui  receitam-me  quinina,  que  é 
quasi  o  meu  único  alimento. 

aEu  tomo-o  já  como  um  veneno,  que  acabe  mais 
depressa  com  esta  existência  triste  e  inútil. 

«N'este  equuleo  de  tormentos  vem  ainda  perse- 
guir-me  o  ódio  infernal  dos  meus  carrascos. 

«O  desvergonhamento  não  havia  ainda  tocado  o 
seu  marco  milliario. 

«Era  preciso  caminhar  um  pouco  mais  avante. 

*Não  ha  fel  que  a  mentira  não  derrame  sobre  as 
ulceras  esbrazeadas  do  meu  infortúnio. 

«Julguei  que  as  cinzas  dos  mortos  tinham  um  sa- 
cratíssimo direito  ao  respeito  dos  vivos,  e  que  a 
frialdade  do  meu  cadáver  repellira  para  longe  de  si 
essa  cáfila  de  nojentos  vermes. 

«Enganei-me,  meu  filho. 


Correspondência  epistolar  g3 

«As  hyenas  revigoram  os  seus  alentos  nas  mi- 
nhas carnes  cadaverosas. 

«Queres  saber  o  que  esses  infames  inventaram? 

«Queres  adivinhar  qual  o  fecho  que  apparelha- 
ram  á  abobada  da  minha  desdita  ? 

«Queres  apalpar  as  formas  vultuosas  d'este  novo 
ultrage? 

«Pois  bem;  nas  suas  lucubraçôes  infernaes  for- 
jaram a  ignominia  que  mais  podia  mortiíicar-me ! 
Arrojaram  aos  quatro  ventos  do  céo  a  noticia  de 
que  eu  estava  próximo  a  contrahir  um  novo  casa- 
mento! 

«A  gentalha  não  se  pejou  de  vomitar,  pela  bocca 
asquerosa  e  fétida,  este  lixo  immundo ! ! 

«Ao  martyr  de  tantas  dores  era  mister  mais  esta 
prova  terrível. 

«Curti  calado  este  novíssimo  tormento  e  pedi  á 
minha  consciência  coragem  para  uma  estúpida  re- 
signação. 

«Os  leprosos  careciam  do  bálsamo  das  minha* 
lagrimas  para  lhes  fazer  sanar  as  postemas  nausea- 
bundas das  suas  faces  torpes. 

«Cortou  fundo  o  golpe  no  meu  coração,  já  mor- 
to, sem  verter  gota  de  sangue. 

a  Começo  a  crer  na  hora  próxima  da  minha  liber- 
dade. 

«O  meu  corpo  está  gasto,  e  a  alma  cançada  de 
tanto  soffrimento. 

«Morreu  me  de  todo  a  esperança  de  que  as  tuas 
filhinhas  podessem  ver  ainda  um  dia  os  meus  ca- 
bellos  brancos. 

«Do  teu  amigo  de  Coimbra  não  restará  em  breve 
mais  que  a  triste  historia  da  sua  vida  e  o  esqueleto 
da  sua  memoria. 


g4  Correspondência  epistolar 

«Ao  escrever-te  sinto  a  consolação  das  lagrimas. 

«Eu  devia  luctar  contra  a  morte,  á  espera  de 
que  ambos  nos  encontrássemos  no  caminho  da  eter- 
nidade. 

«Lá  nos  encontraremos  um  dia,  se  as  auras  ce- 
lestes reunirem  os  átomos  dispersos  das  minhas 
agonias  com  suspiros  Íntimos  da  tua  extremosa  sau- 
dade... 

«Interrompi  a  minha  carta  para  te  dizer  adeus 
sem  lagrimas. 

«Fui  suspirar  nas  praias  africanas  um  alento  de 
suavidade. 

«Os  raios  da  lua  d' Africa,  queimam,  como  no 
nosso  saudosissimo  paiz,  abrazam  os  ardores  do  sol. 

«As  brizas  do  mar  parecem-se  com  o  simoun  do 
deserto. 

«O  solo  rescalda  os  pés,  como  vasta  lamina  de 
ferro  candente. 

«A  atmosphera  é  uma  labareda  afogueada. 

«O  firmamento  esbrazeado  assemelha-se  á  ima- 
gem do  inferno. 

«Não  se  respira  aqui,  abafa-se. 

«As  sombras  das  nuvens  são  tempestades  me- 
donhas. 

«Cada  relâmpago  é  um  raio,  cada  trovão  uma 
convulsão  da  crusta  terrestre. 

«Aqui  é  cada  momento  um  anno,  cada  anno  um 
século,  c  cada  século  o  infinito. 

«E'  preciso  conhecer-se  o  degredo  para  se  aben- 
çoarem os  cárceres  da  inquisição. 

«O  pão  é  negro  como  um  ethiope,  a  agua  das 
fontes  envenena  as  entranhas  da  nossa  raça. 

«Em  vez  do  trinar  mavioso  do  rouxinol  da  nossa 
pátria,  ouve-se  apenas  o  descante  dos  selvagens. 


Correspondência  epistolar  g5 

«Ahi  o  dia,  aqui  as  trevas^  ahi  a  serenidade,  aqui 
a  tormenta. 

«Aqui  é  todo  o  pensamento  uma  reminiscência, 
toda  a  recordação  uma  saudade. 

«Ai,  meu  filho  da  minha  alma ! 

«Deixa-me  chamar-te  assim  para  consolar  a  mi- 
nha velhice  prematura.  Morre,  mas  não  mates. 

«Aprende  na  minha  ultima  lição  e  estuda  n'ella 
como  n'uma  Biblia  santa. 

«Esmaga  dentro  do  craneo  os  relevos  mais  sa- 
lientes da  tua  dignidade;  suíFoca  na  garganta  os 
gritos  da  tua  justa  indignação  \  parte  a  lamina  do 
ferro  que  pôde  ser  a  garantia  da  tua  honra  envi- 
lecida *,  afivela  no  rosto  a  mascara  do  cynismo ;  e 
quando  o  mundo  verter  um  escarneò  no  cálix  do 
teu  infortúnio  immenso,  esgota  até  ás  fezes  com 
um  sorriso  nos  lábios  a  triaga  das  tuas  amarguras. 

«Esta  carta  é  o  testamento  do  teu  velho  amigo, 
meu  filho !  . 

«Não  sei  se  voltarei  a  escrever-te  porque  me 
sinto  já  debruçado  á  beira  da  sepultura. 

«Quando  nas  compridas  noites  de  inverno  reu- 
nires, em  volta  do  teu  santo  lar,  a  familia,  que  faz 
a  tua  felicidade,  lembra-lhe,  sempre  que  possas,  as 
dores  do  meu  Calvário. 

«Adeus;  aceita  um  abraço  do  teu 

«Sempre  amigo 
<i  Vieira  de  Castro.y 

<Fôra  este  um  dos  últimos  cantos,  que  alçara  o 
moribundo  cysne  nas  margens  do  Zaire. 

«Aquella  alma  estava  prestes  a  alar-se  para  os 
paramos  celestes,  e  a  embalar-se  ahi  n'um  thalamo 


gõ  Correspondência  epistolar 

de  venturas,  que  um  destino  fatal  lhe  roubou  na 
terra. 

«Mentiram-lhe  as  suas  esperanças,  quando  de 
New-York  dizia  ao  seu  amigo: 

«Quero  junto  do  meu  braço  aberta  a  minha  se- 
pultura.» 

«O  coração  alongava-se-lhe  para  o  céo. 

«A  estrella  que  lá  demorava  em  cima  atraves- 
sava, a  todos  os  momentos,  o  vácuo  da  sua  alma. 

«Não  ia  em  meio  a  flor  de  sua  vida,  e  já  o  vento 
outoniço  começava  de  desfolhar-lhe  as  pétalas. 

«Temperamento  violento,  índole  apaixonada,  alma 
nobre,  esplendido  talento,  coração  aífectuoso,  sem- 
pre aberta  a  mão  da  caridade,  fechado  sempre  o 
peito  a  ruins  instinctos,  sempre  o  espirito  a  sonhar 
na  gloria,  sempre  a  bocca  a  expirar  fragrâncias,  lá 
fora  íinar-se  nos  torrões  africanos  aquella  existên- 
cia luminosa. 

«Perdôe-lhe  Deus,  já  que  os  homens  não  po- 
dcram  perdoar-lhe,  o  delicto  que  commettera  na 
terra,  pelas  torturas  que  soffrera  aquelle  pobre  co- 
ração. 

€  Houve  um  erro?  Que  maior  expiação,  do  que 
o  degredo? 

«Houve  crime?  Que  maior  pena  do  que  os  vaga- 
res de  uma  agonia  lenta  ? 

a  Os  sacrificadores  antigos,  cingiam  nas  frontes, 
radiantes  de  fé,  ramos  de  verbena,  para  immola- 
rcm  as  victimas  nos  altares  dos  deuses. 

«Os  verdugos  d'aquelle  grande  desventurado  en- 
feitavam de  diamantes  as  cabeças  esquálidas,  para 
tripudiarem  em  volta  do  seu  patíbulo ! 

«Felizmente,  que  na  esteira  de  sangue  e  lagri- 
mas  que   deixou,  após   elle.  Vieira  de  Castro,  ger- 


Correspondência  epistolar  gj 

mina  um  formosíssimo  prado  de  saudades,  que  a 
sua  memoria  legou  a  todos  que  contrastaram  o  qui- 
late das  suas  virtudes,  ás  quaes,  um  dia,  a  posteri- 
dade fará  justiça. 


Vieira  de  Castro  estava  na  Africa. 

E  os  diífamadores,  d^aqui  mesmo,  lhe  des- 
empolgavam ao  coração  de  homem  e  á  pro- 
bidade de  portuguez  os  dardos  hervados  da 
aleivosia. 

Uns  davam-o  casado  ou  de  amores  com  uma 
viuva  rica. 

Outros  malsinavam-o  de  fomentar  o  des^ 
membramento  d'aquella  colónia. 

Permitte-lhe  Deus  que  se  salve  dos  homens 
no  seio  da  eternidade;  e  então,  como  se  o  des- 
graçado previsse  a  morte,  enviando  a  António 
Vieira  de  Castro  o  documento  de  sua  defeza, 
apparece  uma  carta  do  governador  geral,  pu- 
rificando a  memoria  do  degredado,  que  acu- 
dira por  sua  honra,  quando  já  não  tinha  ou- 
tro património  que  herdar  aos  seus.  Antepuz 
então  algumas  linhas  ao  desaggravo  instante- 
mente reclamado  por  António  Vieira  de  Cas- 
tro. Fiquem  aqui  esses  pregões  como  atalaias 
das  suas  cinzas,  e  vergonha  surda,  intima  e 
dilacerante  dos  perversos  que  o  calumniavam: 

VOL.   1  7 


g8  Correspondência  epistolar 

REPARAÇÃO 

tDa  Ga\eta  do  Povo  de  26  do  corrente,  trasla- 
damos um  artigo  que  tem  ligação  com  outro  de 
reparação,  que  o  Primeiro  de  Janeiro  publicou,  a 
uma  calumnia  oífensiva  da  probidade  do  snr.  José 
Cardoso  Vieira  de  Castro.  N'aquelle  jornal  lisbo- 
nense apparecêra  o  boato,  procedente  de  inexactos 
informadores.  Folgamos  de  ver  que  esse  mesmo 
jornal  vem  tão  generosa  quanto  obrigatoriamente 
desviar  de  si  a  responsabilidade  da  calumnia.  Se- 
ria indiscrição  esperar  outro  proceder  dos  cava- 
lheiros que  redigem  aquelle  diário.  Não  é  a  com- 
miseração  que  se  levanta  á  beira  da  sepultura  do 
illustre  condemnado  pedindo  á  piedade  publica  que 
dê  por  saldadas  as  contas  do  infeliz  com  a  socie- 
dade, tão  pouco  authorisada  para  lh'as  pedir.  É  a 
justiça  e  a  honra  que  se  postam  ao  lado  da  sepul- 
tura de  Vieira  de  Castro,  obrigando  a  calumnia  a 
retroceder  humilhada,  e  a  ir  cevar-se*  no  coração 
dos  vivos,  visto  que  n'aquellas  cinzas  já  não  ha 
fibras  sensiveis  onde  cravar  as  presas.  Aos  que  o 
arremessaram  ao  degredo  e  á  morte,  povoem  os  an- 
jos o  seu  dormir  de  alegres  sonhos.  Aos  que  rece- 
beram dadivas  generosas  para  o  insultarem  na  im- 
prensa, converta-se-lhes  o  ouro  em  regalias  domes- 
ticas e  respeitos  da  rua.  Ás  damas  descaroadas  que 
insultaram  na  cadêa  Vieira  de  Castro,  no  dia  da 
communhão  aos  presos,  doure-se-lhes  a  velhice  de 
honradas  cãs,  veneradas  pelas  honradas  filhas.  A 
todos  aquelles,  finalmente,  que  arrancaram  uma  pe- 
dra ao  edifício  que  se  desmoronou  e  esmagou  aquelle 
brioso  homem,  abra-lhes  a  sociedade  os  braços,  e 
chovam-lhes  as  delicias,  as  posições  sociaes,  os  aca- 


Coj^respondencia  epistolar  gg 

taraentos,  o  ouropel  com  que  se  cobrem  as  ulceras 
da  infâmia. 

«Lamentof.a  celebridade  irá  seguindo  de  geração 
em  geração  o  nome  do  mais  febril  talento  e  scintil- 
bnte  orador  que  nasceu  no  Porto,  desde  que  esta 
terra  pôde  citar  nomes  distinctos  na  phalange  dos 
propagadores  de  idéas.  O  Porto  fez-lhe  ovações, 
quando  o  ouviu ;  e,  se  o  não  deplorou  na  morte 
com  testemunhos  de  publico  sentimento,  mais  tarde, 
as  gerações  por  vir  irão  meditar  nos  trances  d'este 
desgraçado,  cheio  de  esplendores,  ao  pé  da  urna 
das  suas  cinzas. 

«Levou-nos  o  coração  depôs  a  saudade  do  amigo. 
E'  tempo  de  deixar  que  outros  se  acerquem  da  sua 
sepultura  com  o  voto  de  respeitosa  reparação  á  me- 
moria de  Vieira  de  Castro.» 


«Publicámos  em  tempo  algumas  noticias  de  An- 
gola, das  quaes  fazia  parte  uma  que  se  referia  a 
planos  de  independência  attribuidos  a  um  notável 
degredado. 

«Deu  lugar  esta  noticia  a  reclamações  por  parte 
do  snr.  António  Vieira  de  Castro,  que  suspeitou 
que  era  de  seu  irmão,  o  snr.  José  Cardoso  Vieira 
de  Castro,  que  se  tratava. 

«Nôs  respondemos  sincera  e  lealmente  áquelle 
cavalheiro,  dizendo  que  não  era  invenção  nossa  o 
que  se  dizia  com  respeito  aos  projectos  da  separa- 
ção da  provincia  de  Angola  do  continente. 

«Temos  razões  para  crer  que  s.  exc.^  não  ficou 
satisfeito  com  o  que  lhe  respondemos,  e  hontem 
foi-nos  apresentada  por  um  amigo  commum  uma 


100  Correspondência  epistolar 

carta  do  snr.  José  Cardoso  Vieira  de  Castro  sobre 
este  assumpto  dirigida  ao  snr.  José  Horta,  e  a  res- 
posta d'este  cavalheiro.  Estes  documentos  provam 
plenamente,  que,  se  com  effeito  havia  quem  pen- 
sasse em  desmembrar  da  coroa  portugueza  aquella 
rica  porção  do  nosso  território,  não  era  o  infeliz 
Vieira  de  Castro. 

«Como  pôde  haver  quem  ao  ler  aquella  noticia 
tivesse  apprehensões  iguaes  ás  que  teve  o  snr.  An- 
tónio Vieira  de  Castro,  aqui  declaramos  que  ella  foi 
fundada  em  informações  menos  exactas  que  havía- 
mos recebido  directamente  de  Loanda. 

cE'  explicita  a  linguagem  do  snr.  José  Cardoso 
Vieira  de  Castro,  e  não  menos  a  do  snr.  governa- 
dor geral  de  Angola. 

«Nós  vimos  as  duas  cartas,  e  podemos  responder 
pela  authenticidade  de  ambas. 

«Se  estimamos  sempre  fazer  justiça  a  todos,  por- 
que nos  apraz  cumprir  um  dever  de  honra,  muito 
mais  grato  nos  é  esse  dever  quando  se  trata  de  um 
homem  que  já  não  existe,  de  quem  fomos  amigos, 
a  quem  saudámos  nos  seus  dias  de  maior  gloria  e 
a  quem  abraçámos  com  as"  lagrimas  nos  olhos, 
quando  elle,  esmagado  pelo  peso  de  uma  enorme 
desgraça,  nos  prophetisava  o  seu  próximo  fim  res- 
pondendo-nos  também  com  lagrimas  ás  nossas  pa- 
lavras de  consolação,  e  dizendo : 

«Depois  d'isto  ou  a  loucura  ou  a  morte.» 

«Por  mais  severo  que  seja  o  juizo  que  se  faça  do 
acto  praticado  por  Vieira  de  Castro,  no  que  não 
pôde  haver  discordância  é  de  que  poucos  homens 
tem  havido  mais  infelizes  do  que  elle  ! 

«Mocidade  e  talento,  vida  e  futuro  tudo  desap- 
pareceu  em  menos  de  três  annos ! 


Correspondência  epistolar  loi 

fQue  Deus  na  sua  infinita  misericórdia  se  amer- 
ceie  de  quem  tanto  soffreu  na  terra,  é  o  que  do 
fundo  d'alma  lhe  pedimos.»  ' 


Vieira  de  Castro  escrevia  em  um  pequeno 
Album^  adquirido  pouco  antes  de  sahir  para  o 
degredo,  as  impressões  do  momento,  os  traços 
de  projectados  escriptos,  as  primeiras  opera- 
ções e  facturas  do  seu  commercio  na  Africa, 
as  suas  despezas  diárias,  as  verbas  de  dinheiro 
recebidas  de  seu  irmão  António  durante  a  pri- 
são, os  volumes  da  sua  bagagem,  o  inventario 
da  sua  roupa  e  dos  seus  livros,  as  visitas  do 
seu  medico  em  Loanda.  Está  em  meu  poder 
essa  carteira. 

Uma  das  paginas  é  assim  escripta  a  lápis: 

Viagem  para  Africa.  De  Lisboa  a  5  de  setembro 
de  iSji.  Chegamos  á  Madeira  a  7,  d  meia  noite.  A 
S.  Vicente  a  1 3  ás  4  da  tarde.  Ahi  ficamos.  Pun- 
gente approximação  de  duas  datas l  *  Que  amenis- 
simo  clima !  Sahimos  a  14,  ds  3  horas, 

6^1%.  S.  Thiago,  no  dia  j5. 


*  Presumo  que  a  data  cuja  aproximação  o   punge,  é  a  da 
sua  partida  para  o  Brazil,  em  setembro  de  1866. 


102  Correspondência  epistolar 

A  27  chegamos  ao  l^rincipe.  No  dia  23,  desar- 
ranjo na  ma  china  ao  cahir  da  tarde.  Andamos  á 
pela  até  ás  10  horas  da  noite  do  dia  26.  Formosís- 
sima a  ilha  do  Principe!  Jardim  admirável!  Vege- 
tação esplendida,  lembrando  o  Minho ;  mas  mais  for- 
mosa  pela  raridade  das  arvores  e  das  cores, — Antes 
da  ilha  está  o  celebre  rochedo  com  a  forma  exacta 
de  um  bonet  de  jockey. 


Em  outras  paginas: 

Le  droit  de  tout  homme  d  dire  qiiand  même  sa 
pensée.  (Vide  o  prologo  de  Droits  de  r homme  de 
Pelletan). 

Visitas  do  doutor  Oliveira: 

Primeira  doença 3 

Segunda         »^      2 

24  e  25  de  maio  (1872) 2 

Julho B      S 

Agosto I.      3 

Agosto .)      4 

5  de  Mato  de  i8j2, 

Despe:{as.  Balanças  para  café,,  Sj^ooo. 

Seguem  outras  verbas  miúdas  de  preparati- 
vos para  o  seu  negocio.  Aperta-se-me  â  alma, 
quando  confronto  as  glorias,  o  esplendor,  o 
estrondo  d'aquelle  nome  que  reboava  desde  a 
sala  do  parlamento  por  todo  o  paiz  em  i865, 
e  ia  echoar  nos  prelos  da  America  do  sul,  e  me 


Correspondência  epistolar  io3 

figuro  Vieira  de  Castro,  sorrindo  á  desgraça, 
n'aquelle  humilde  tráfego  de  mercadejar  café  ! 


Em  outra  lauda  do  Álbum: 

Viagem  a  Capengo,  Queimadas^  deserto,  carava- 
nas, cantilenas  dos  carregadores.  Rios,  precipícios, 
luctas  dos  pretos^  roubos,  A  vile:{a  do  negro.  Patru- 
lhas. Cêa,  Almoço.  As  comidas  enxovalhadas  pelos 
dedos  dos  pretos. . . 

Em  Cazengo  comprara  Vieira  de  Castro  por 
1.200^000  réis  uma  casa  térrea,  em  nome  de 
seu  irmão  António,  com  o  intuito  de  alii  se 
fornecer  de  café,  em  transacções  immediatas 
com  o  gentio. 

N'este  crepúsculo  da  noite  intellectual  ain- 
da fulguram  uns  lampejos  do  espirito  que  se  dá 
alôr  para  as  regiões  divinas : 

Era  uma  collina  alta,  immensa,  Íngreme,  esguia, 
a  pino  pelos  ares  fora,  topetando  com  o  seu  coronal 
de  florestas  nas  nuvens  do  céo,  cavando  e  mergu- 
lhando com  as  rai:{es  nos  abjsmos  do  mar.  E,  no 
cimo  d'ella,  alli.  entre  Deus  e  o  homem,  entre  o  in- 
finito e  o  verme,  tu^  arvore  querida  das  minhas  sau- 
dades, meu  cajueiro  amigo,  docel  das  minhas  medi- 
tacões.^  arca  dos  meus  naufrágios^  lua  das  minhas 
noites  l  O  meu  cajueiro!  Tenho  nas  meninas  dos  meus 
olhos  a  photographia  da  minha  arvore.  Rompia  do 
solo  vermelho  o  seu  tronco  secular,  e  logo  se  desa- 
pertava em  duas  vergonteas  colleadas,  como  se  para 


104  Correspondência  epistolar 

dous  amores  o  plantara  alli  a  providencia  do  Se- 
nhor! Erguia-se  á  altura  dos  meus  cabellos,  e  logo 
se  recurvava  por  todas  as  partes  ao  derredor  de 
mim,  beijando  e  marcando  na  terra  a  circumferen- 
cia  do  meu  mundo.  Era  denso ^  era  espesso y  era  bas- 
to: dir-se-hia  a  cabelleira  enorme  de  um  gigante. . . 
Ai!  meu  cajueiro  querido!  Também  eu  te  apago 
muitas  ve:{es  a  sede  das  rai\es  com  as  minhas  lagri- 
mas;  e,  quando  eu  t'as  via  aljofaradas  no  peciolo 
dos  teus  ramos,  eu  punha  sobre  a  tua  enfeitada  ale- 
gria a  lu^  do  meu  sorriso. 

Ai!  minha  saudade  qne  aqui  vinhas  conversar 
commtgo !  Chora  pelo  desterrado  que  chamaste  á  im- 
mensidade  da  tua  dor!  Ha  céo  e  ha  inferno!  Entre 
o  céo  e  o  inferno,  entre  ti  e  mim,  ó  visão  tristissi- 
ma^  estão  as  insondáveis  trevas.  Ai!  meu  cajueiro 
querido! 

Loanda,  g  de  dezembro  de  i8ji. 

A  residência  de  Vieira  de  Castro  era  a  mais 
insalubre  de  Loanda.  A  casa  é  batida  pelo 
mar;  e,  ao  fim  da  tarde,  ennubla-se  em  ne- 
voeiros. Elle  mesmo  em  uma  das  cartas  me 
diz  que  o  brazileiro  que  a  construirá  alli  mor- 
rera logo  de  febre  perniciosa. 

Não  obstante,  os  primeiros  mezes  passou-os 
saudavelmente,  posto  que  nem  o  minimo  cui- 
dado tivesse  comsigo,  nem  desse  peso  aos  con- 
selhos dos  amigos.  Duas  e  três  vezes  por  dia 


Correspondência  epistolar  io5 

se  banhava  no  mar  que  lhe  espumejava  de- 
baixo da  janella  do  seu  quarto.  Mandava  abrir 
todas  as  janellas  a  fim  de  que  as  correntes  do 
vento  do  mar  se  recruzassem.  O  melhor  é  mor- 
rer^ dizia-me  elle. 

As  febres  appareceram-lhe  em  junho  de  1872 
e  nunca  mais  remittiram. 

Em  fim  de  setembro  d'aquelle  anno  fez  uma 
viagem  rio  acima  até  o  Ambriz,  aconselhada 
pelos  médicos.  Melhorou  sensivelmente.  Um 
portuguez,  que  então  convivera  com  elle  três 
dias  em  Benguela,  me  disse  que  o  semblante 
de  Vieira  de  Castro  era  característico  de  insa- 
nável doença ;  mas  que  o  vira  jantar  com  in- 
sólito appetite.  As  noites,  porém,  eram  veladas, 
sem  intermittencia  de  repouso.  Uma  pessoa, 
que  pernoitava  em  quarto  contíguo,  dissera  ao 
snr.  Mendes  de  Vasconcellos,  meu  informador, 
que  Vieira  de  Castro,  durante  a  noite,  passeava 
no  seu  quarto,  e  a  espaços  fallava  alto. 

No  principio  de  outubro  recolheu  a  Loanda. 
No  Mercantil  do  dia  3,  lê-se  esta  local: 

Chegada.  —  Chegou  dos  portos  do  Norte  •  a  bor- 
do do  Cambridge  o  exc.""^  snr.  dr.  José  Cardoso 
Vieira  de  Castro. 

Como  o  paquete  que  vinha  para  o  reino  es- 
tava a  levar  ancora,  Vieira  de  Castro  perdera 
duas  noites  a  escrever  a  sua  correspondência; 


ro6  Correspondência  epistolar 

e,  se  bem  me  recordo,  na  ultima  carta  que  es- 
creveu a  seu  mano  António,  lhe  dizia  que  ás 
(5  da  manhã  tivera  de  ir  á  alfandega. 

No  dia  5  levantou-se,  e,  diz  o  Mercantil^ 
sentou-se  á  carteira  a  trabalhar.  Acabava,  por 
volta  das  onze  da  manhã,  de  sobrescriptar  ao 
seu  agente  commercial  em  Cazengo.,  António 
Pereira  Coutinho,  o  numero  do  Mercantil  de 
3  de  outubro,  quando  pediu  uma  garrafa  de 
agua  de  Seltz. 

Passados  instantes,  chamou  afílictivamente 
uma  criada  e  queixou-se,  apertando  a  cabeça 
entre  as  mãos,  que  sentia  uma  grande  agonia. 
A  criada  correu  em  busca  d'um  negro,  que 
fosse  chamar  medico,  em  quanto  elle  se  desa- 
pertava com  anelados  gestos.  Quando  voltou 
ao  quarto  da  cama,  para  onde  Vieira  de  Cas- 
tro passara,  encontrou-o  pro- trado  sobre  o  ta- 
pete contíguo  do  leito,  d'onde  havia  resvalado 
no  escabujar  da  angustia. 

Os  criados  repozeram-o  na  cama. 

Nunca  mais  teve  luz  nos  olhos,  nem  cons- 
ciência da  vida.  A  divina  misericórdia  cobriu 
o  desgraçado  desde  aquelle  instante.  A  lingua 
oscillava  em  contracções  convulsas ;  mas  não 
articulava  sons.  O  peito  arquejava  nos  grandes 
arrancos  que  deviam  em  poucas  dores  desfazer 
uma  compleição  robustíssima.  Depois,  sobre- 
veio a  modorra,  rebelde  ás  violentas  emborca- 


Correspondência  epistolar  loj 

çóes  da  quina.  A's  9  horas  da  noite,  José  Car- 
doso Vieira  de  Castro  expirou. 


Quando  o  esquife  conduzido  pelos  primeiros 
magistrados  de  Loanda,  desceu  á  beira  da  co- 
va, Urbano  de  Castro,  mancebo  de  elevado 
espirito  e  amantissimo  d'aquella  quebrada  urna 
de  lagrimas  onde  se  afogara  o  maior  talento 
da  palavra  em  Portugal,  apontando  para  o  ca- 
dáver, fallou  assim : 

«Senhores!  A'  hora  em  que  baixa  e  se  some  o 
astro  do  dia,  extingue-se  e  cahe  n'uma  sepultura^  o 
meteoro,  cuja  luz  admiramos :  luz  esplendida,  luz 
amiga,  sobre  cuja  peripheria  não  sei  se  alguma  vez 
um  disco  de  sombra  perpassou ;  porque  me  não 
applico  a  observar  manchas,  pontos  opacos  nas 
espheras,  que  alumiam  o  universo  ;  o  que  detém  os 
meus  olhos  é  a  luz ;  só  a  luz  os  attrahe. 

aA'manhã  reapparecerá  brilhante  no  oriente  o  lu- 
minar divino :  Vieira  de  Castro,  vivacissima  luz  dos 
mundos  do  pensamento,  essa  está  para  sempre  ex- 
tincta  ! .  . . 

«Resplendeu  na  Europa,  scintillou  na  America, 
appareceu  na  Africa. . .  e  apagou-se  aqui! 

«Arvore  frondosa  do  Sinay  da  palavra  democráti- 
ca, que  levantou,  possante,  gigantesca,  os  seus  ra- 
mos sobre  as  mais  altas  da  prophetica  montanha  — 
cahiu ! 


lo8  Correspondência  epistolar 

«Do  solo  em  que  nascera,  a  tempestade  arran- 
cou-a  pelas  raizes;  —  aqui  a  trouxe  o  vento  ;  está 
aqui  \  —  jaz  morta  ! 

aTeve  a  sua  estação  de  flores;  perfumaram-na 
todas  as  ovações,  todas  as  victorias  da  arena  das 
letras,  todos  os  calorosos  e  phreneticos  applausos; 
floriram  nos  seus  braços  as  alegrias  da  vida. 

«Depois. . .  horrorosas  decepções,  desgraças  tre- 
mendas foram  os  fructos  amargos  que  pesaram  nos 
seus  ramos  e  a  vergaram  toda ! 

«Longe  da  pátria  colnera  o  peregrino  talento 
n'um  mesmo  dia  a  coroa,  que  o  votava  á  gloria,  e 
a  coroa  que  o  sagrava  ao  martyrio. 

«E  a  arvore  que  sobre  tantos  estendera  protecto- 
ra sombra,  não  encontrou  quem  a  amparasse,  quan- 
do o  vendaval  da  adversidade  veio  açoutal-a  e  fe- 
ril-a;  a  quebrou  e  despedaçou. 

«Abraçaram-se,  senhores,  n'aquelle  cadáver, 
quando  animado  e  com  elle  á  sepultura  descem 
abraçados,  a  gloria  e  o  infortúnio. 

aE'  aquillo  a  riqueza,  a  sciencia,  o  talento,  o  po- 
derio,  a   gloria!  —  E'  aquillo:  é  Vieira  de  Castro! 

«São  aquelles  lábios,  —  leito,  por  onde  corriam, 
fervendo,  tumultuando,  arrebatando,  caudalosas  as 
ondas  da  eloquência,  —  frios  e  cerrados  agora,  e 
para  sempre  emmudecidos  :  são  aquelles  braços, 
que  o  hálito  do  anjo  da  morte  gelou,  cruzados,  hir- 
tos sobre  o  peito,  apertando  immoveis  um  coração 
parado:  são  aquellas  mãos,  brandindo  hontem  na 
tribuna  e  no  comicio  o  gesto  dominador,  na  guarda 
de  todos  os  direitos,  na  resistência  de  todas  as  ty- 
rannias,  na  protecção  a  todos  os  fracos,  na  defesa 
de  todos  os  opprimidos :  —  aquellas  mãos  traçando 
no  livro,  no  pamphleto,  no  periódico,  a  derrota  do 


Correspondência  epistolar  log 

futuro, —  postas  agora  supplicantes  para  o  céo,  onde 
a  sua  alma  pela  porta  por  onde  todos  entram,  pela 
porta  dos  perdoes  entrou. 

«Pois,  senhores,  áquelle  — a  quem  sorriam  todas 
as  seducçóes  da  vida,  a  quem  também  todas  as  ex- 
cruciaçôes  torturaram,  demos-lhe  n'esta  hora  todas 
as  commiseraçõcs. 

«Abre  a  terra  o  seu  seio  para  receber  o  invólu- 
cro terreno  de  Vieira  de  Castro :  é  a  pá  do  covei- 
ro, só  ella  —  a  final,  —  quem  dá  com  uma  camada 
de  arêa,  que  para  cima  d'elle  atira,  tecto  tranquillo 
áquelle  corpo ! 

«Vieira  de  Castro ! 

«Livro  de  grandes  lições,  vae  o  armário  da  mor- 
te guardar-te !  Vieira  de  Castro ! 

«Descança  —  que  era  tempo  —  da  tua  incompor- 
tável lucta! 

«No  nosso  espirito  viverá  o  teu  pela  memoria  e 
pela  admiração !  O  teu  coração  palpitará  no  nosso 
pela  consternação  e  pela  saudade  ! 

«Os  teus  amigos,  que  aqui  estão,  dizem-te  sollu- 
çantes  o  extremo  —  adeus !  Vieira  de  Castro  ! 

«Recebe-lh'o  no  seio  da  gloria  pura,  da  eterna  fe- 
licidade, no  seio  de  Deus.» 


Sublime ! 

O  apaixonado  coração,  que  assim  orvalhara 
de  lagrimas  o  cadáver  de  Vieira  de  Castro, 
havia-lhe  dado,  em  dia  de  seus  annos,  duas 
preciosas  jarras  do  Japão. 


Ijo  Correspondência  epistolar 

Estas  jarras,  cheias  de  flores,  estiveram  três 
dias  sobre  a  sepultura  do  seu  dono,  que  as  ha- 
via presado  com  amor  de  agradecido  e  amor 
da  immensa  belleza  d'ellas. 

Depois,  retiradas  de  sobre  a  campa,  vieram 
para  Portugal,  compradas  no  espolio  do  morto 
pelo  snr.  Pereira  Coutinho,  que  m^as  deu.  Ainda 
traziam  no  bojo  flores  seccas,  e  entre  estas 
dous  formosos  insectos,  que  lá  haviam  entrado 
por  entre  as  rosas  e  lá  morreram  e  hoje  se  con- 
servam com  o  lustro  e  frescor  da  vida. 

Quando  os  colhi  d'entre  as  flores  murchas, 
com  a  mão  tremente  de  supersticiosa  commo- 
ção,  vi  que  alguém  que  muito  devia  ao  gene- 
roso espirito  de  Vieira  de  Castro,  uma  senhora 
a  quem  o  consolador  de  infelizes  dera  lagrimas 
nos  dias  em  que  ella  tinha  a  virtuosa  coragem 
de  as  não  pedir  a  alguém  —  se  recordava  d'uma 
promessa^  cujo  cumprimento  se  lhe  afigurava 
enviado  de  além-tumulo.  Debaixo  d^essa  im- 
pressão, sahiram  da  alma,  retranzida  de  sau- 
dades e  de  gratidão  immorredoura,  estas  linhas : 

A  PROMESSA 

Era  por  noite  de  agosto,  ardente  e  balsâmica.  O 
astro  luminoso  pompeava  no  occidente  todo  o  seu 
explendido  manto,  e  o  rosmaninho  e  as  plantas 
agrestes  exhalavam  o  aroma  acre  das  campinas  em 
flor.  Estávamos  em  pleno  Minho:  alli  onde  as  rique- 


Correspondência  epistolar  iil 

zas  da  vegetação  crescem  e  se  reproduzem  como 
que  espontâneas,  bafejadas  pelo  sopro  bemdito  do 
Senhor. 

Era  noite  de  festa.  Na  pequena  aldeia  de***  ou- 
viam-se  os  cantos  festivos ;  e  a  voz  das  aldeãs  com- 
petia com  as  rabecas  e  os  clarinetes. 

Passava-se  isto  em  uma  casa  de  campo.  As  seis 
janellas  da  frontaria  jorravam  luz,  e  a  porta  da  en- 
trada por  onde  se  subia  por  larga  escadaria  de  pe- 
dra, estava  afestoada  de  rosas  e  hortênsias. 

Confundido  com  o  grupo  dos  cantores  e  festeiros 
que  enchiam  o  largo  terreiro  da  casa  hospedeira 
que  me  agasalhava,  assisti  invisível  á  scena  que  vou 
descrever. 

Seriam  dez  horas.  Ao  umbral  da  porta,  vindo 
das  salas,  apontou  uma  dama  e  um  cavalheiro.  Pa- 
raram um  pouco,  e  depois  de  relancearem  a  vista 
melancólica  sobre  aquelle  ruidoso  tumultuar,  ella 
sentou-se  n'uma  cadeirinha  baixa  de  encosto  que  es- 
tava no  patim,  elle  recostou-se  ao  lado,  no  rebordo 
do  ferro  da  varanda. 

—  Que  formosa  noite!  —  murmurou  elle. 

—  Formosura  que  faz  vibrar  os  nervos,  e  con- 
tristar as  almas  magoadas. 

—  E'  verdade :  mas  como  isto  é  bello !  Que  sau- 
dades hei  de  ter  d'estes  momentos  ! 

—  Saudades  ?  ai !  —volveu  a  senhora  —  quem  sa- 
be se  as  alegrias  que  o  esperam  não  riscarão  até 
da  sua  memoria  a  lembrança  de  dous  corações  que 
aqui  ficam  a  choral-o...  Mas  —  continuou  depois 
d*um  momento  —  choral-o,  porque?  Lamenta-se 
acaso  a  águia  quando,  fendendo  os  espaços,  se  li- 
bra a  outros  hemispherios,  audaz  e  poderosa  pela 
sua  força?  Não:  seguimol-a  até  a  perder  de  vista  e 


JI2  Correspondência  epistolar 

ficam-nos  gravados  na  memoria  os  rasgos  admirá- 
veis das  suas  azas.  Assim,  aqui  ficaremos  esperan- 
do o  echo  das  suas  glorias ! 

—  Esquecêl-os,  meus  queridos  amigos !  Oh !  fe- 
lizmente sahimos  dos  salões.  Cobre  nos  a  abobada 
celeste.  Creia-me  —  exclamou  alteando  a  voz  —  só 
levo  saudades  d'estc  cantinho  de  Portugal. 

—  Hoje,  pôde  ser. . .  As  suas  impressões  são  vi- 
vas, mas  pouco  duradouras.  De  mais,  sabe  muito 
bem  que  sou  visionaria.  Visionaria  como  todas  as 
creaturas  a  quem  a  geada  do  infortúnio  queimou  os 
rebentões  da  esperança.  Imaginei  que  não  o  torna- 
va a  ver  aqui. 

—  O  que  ? !  Prevê  a  minha  morte  ? 

—  Ao  contrario:  o  seu  caminho  não  me  negreja  ;  a 
estrada  que  segue  é  a  dos  triumphadores.  E'  por 
isso  mesmo  que  a  descrença  me  trabalha  o  animo. 

—  Que  injustiça !  Poderei  eu,  vivendo  d'aqui  a 
cem  annos,  olvidal-a,  minha  santa  amiga?  Deixar 
de  pensar  em  si  e  no  homem  por  quem  sinto  uma 
espécie  de  culto  que  chega  á  adoração? 

—  Obrigada :  por  elle,  e  por  mim.  Obrigada.  Es- 
pero então  que  estas  flores  já  murchas  —  e  apon- 
tou para  as  grinaldas  que  enramavam  a  escada  — 
refloresçam  um  dia,  festejando  a  sua  vinda. 

—  Não  espere ;  conte  commigo.  Será  esta  a  pri- 
meira casa  onde  hei  de  descançar  na  minha  volta  á 
pátria ;  a  menos  que  por  lá  não  deixe  o  corpo,  á 
sombra  dos  cajueiros  e  das  mangavas. . .  E,  se  fi- 
car, através  do  oceano,  mesmo  depois  de  morto, 
hei  de  dar  o  ultimo  adeus  ás  duas  creaturas  que 
mais  amo  e  respeito  no  mundo.  Juro  lhe  isto,  por 
aquella  estrella  que  me  ha  de  alumiar  as  insomnias, 
e  as  horas  meditativas  de  bordo. 


Correspondência  epistolar  ii3 

—  Oxalá  que  sejam  todas  risonhas  como  o  ama- 
nhecer d'um  bello  dia. . .  Também  eu  hei  de  pedir 
áquella  estrella  noticias  suas.  Fallar-lhe-hei  de  si, 
meu  querido  irmão ;  contar-lhe-hei  os  meus  dissa- 
bores, procurando  nos  echos  longinquos  das  flores- 
tas, o  murmúrio  da  sua  voz. 

A  chegada  de  varias  pessoas  interrompeu-os. 

D'ahi  a  momentos  este  homem  beijava  a  mão  da 
senhora  com  quem  tivera  o  colloquio  precedente,  e 
abraçava  soluçante  aquelle  a  quem  no  seu  enthu- 
siastico  aífecto  dava  o  nome  de  irmão. 

Partiu.  Volvidos  poucos  mezes  voltou  a  Portu- 
gal; mas,  como  ella  bem  prophetisára,  as  brizas  da 
terra  de  Santa  Cruz  abafaram  as  reminiscências  do 
passado.  Na  aldeia  de . . .  as  florinhas  não  mais  flo- 
resceram para  festejar  a  vinda  do  ingrato,  mas  as 
almas  que  alli  viviam  regosijavam-se,  sentiam  o 
doce  prazer  de  o  crer  venturoso.  Um  dia  em  que  se 
encontraram,  e  elle  parecia  constrangido,  ella,  que 
o  prezava  sempre  como  um  companheiro  e  consola- 
dor nos  dias  afflictivos,  estendeu-lhe  serenamente 
a  mão,  dizendo:  Fez  bem;  o  infortúnio  repelle. 

De  caminho  já  para  as  nossas  praias,  escrevia 
elle  aos  solitários  do  Minho:  «Sou  feliz,  meus  ami- 
gos !  Sou  feliz,  meus  queridos  irmãos !  Tão  feliz 
que  não  acho  expressões  que  possa  pintar-vos  o 
cumulo  da  minha  felicidade.  A  ventura  chega  a 
embrutecer  !  Achei  um  anjo  ! . .  . » 

Este  anjo  devia  mais  tarde  abeiral-o  do  abysmo 
e  mergulhal-o  no  sepulchro...  E  morreu:  lá  ao 
longe,  sósinho,  triste,  desalentado,  e  sem  mão  pie- 
dosa que  lhe  cerrasse  as  pálpebras  doridas  das  la- 
grimas. Lá  jaz  o  corpo,  debaixo  dos  cajueiros  e 
das  mangavas ! .  . . 

VOL.   I  8 


114  Correspondência  epistolar 

Um  anno  depois,  alguém  que  sabia  quanto  as 
memorias  do  infeliz  eram  apreciadas  pelas  duas  al- 
mas que,  vencendo  o  antagonismo  publico,  se  po- 
zeram  ao  seu  lado  nos  dias  da  prova  e  tribulação, 
trouxe-lhes  d'além-mar  umas  jarras  grandes  do  Ja- 
pão que  tinham  pertencido  ao  desditoso,  e  ador- 
nado a  sua  sepultura  em  dia  de  finados. 

Depois  de  desencaixotadas,  receberam-nas  os 
dous  com  o  pranto  pungitivo  d'uma  sincera  angus- 
tia. De  repente  soltaram  um  grito  olhando-se  com 
religioso  terror.  Dentro  d'uma  das  jarras  estavam 
juntos  dous  insectos  grandes :  um  todo  bronzeado 
e  formosissimo ;  o  outro  verde  esmeralda,  e  que 
tem  o  nome  de  Louva-a-Deus. 

Então,  ella,  cahiu  de  joelhos,  pôz  as  mãos,  e 
bradou  com  a  voz  tremula  de  commoção:  Cum- 
priste a  promessa !  Não  nos  esqueceste  nem  mesmo 
das  portas  da  eternidade.  Aqui  está  o  adeus  pro- 
mettido  ás  duas  almas  que  mais  te  quizeram  e 
amaram  na  terra. 

Este  homem  que  morreu  moço,  e  era  fadado  a 
altos  destinos,  chamou-se  no  mundo  José  Cardoso 
Vieira  de  Castro. 

Os  dous  amigos,  que  elle  deixou  ligados  á  sua 
memoria,  fieis  áquellas  cinzas  adoradas,  continuam 
a  amal-o  pelo  espirito,  commungando  com  a  sua 
alma. 


CARTAS 


DE 


JOSÉ  CARDOSO  VIEIRA  DE  CASTRO 


ESCRIPTAS 


NO  CÁRCERE  E  NO  DEGREDO 


CARTAS 


Meu  querido  Camillo, 

Eu  tenho  querido  todos  os  dias  beijar-te  a  mão 
que  tem  espremido  bálsamos  celestiaes  sobre  as 
minhas  dores.  Leio  sempre  as  tuas  cartas.  Quem 
te  disse  o  que  eu  não  disse  a  ninguém  ?  Como  adi- 
vinhou o  teu  coração  que  eu  não  tive  nunca  uma 
hora  de  felicidade  ?  A  tua  ultima  carta  é  um  enor- 
me thesouro  que  tu  me  deste.  Adivinhas-me  intei- 
ro, e  julgas  bem  os  homens,  de  que  eu  não  posso 
queixar-me  desde  que  me  esmagou  o  pé  que  eu  trou- 
xe trez  annos  nos  lábios. 

Esta  desgraça  trouxe-me  grandes  males.  Sinto-me 
a  cahir  de  todo  em  crenças  de  religião  para  o  que 
ha  de  mais  estúpido :  o  fatalismo.  Vou-te  dizendo 
isto,  porque  eu  espero  ouvir- te  para  tomar  uma  de- 
cisão. Pensei  em  ordenar-me.  Comecei  a  pensar 
n'isto  para  me  defender  contra  a  loucura  que  ás  ve- 
zes queria  saltar  por  sobre  as  tuas  cartas. 

Hoje  penso  que  Deus,  se  Elle  assiste  a  isto,  se- 
gurou na  minha  consciência  a  força  do  meu  direito. 


jj8  Correspondência  epistolar 

Mas  eu  queria  ter  a  fé  immensa  para  amparado 
n'ella  poder  servir  ainda  a  almas  infelizes  a  gran- 
de desventura  da  minha.  Meu  querido  amigo,  pen- 
sa um  conselho  para  este  meu  pobre  coração  que 
se  te  abre  em  tamanha  angustia,  e  que  deu  as  suas 
primeiras  lagrimas  nobres  aos  abalos  profundos  do 
destino. 

Adeus.  Eu  beijo  as  mãos  da  snr.^  D.  Anna,  mi- 
nha santa  e  generosa  amiga. 

Abraço-te  do  coração. 

Teu 

Vieira  de  Castro, 


Meu  mui  querido  Camillo. 

Li  com  intervallos  a  tua  carta.  Não  me  cabia  nos 
pulmões  a  angustia  suavíssima  que  ella  me  trazia. 
Li-a  respirando  alto.  E  interrompi-mc  uma  vez  com 
medo  de  uma  vertigem.  Ai,  meu  querido  amigo,  se 
podesse  ter-te  aqui  ao  meu  lado  n'este  momento, 
abraçava-me  febrilmente  ao  teu  peito,  e  punha  no 
teu  hombro  estas  lagrimas  que  me  obrigam  também 
a  interromper  esta  escripta.  Sem  o  saber,  começo 
esta  por  satisfazer  a  tua  ultima  vontade.  Aqui  me 
tens  a  chorar. 

Beijo  o  primeiro  periodo  da  tua  carta.  Completa- 
mente me  avalias. 

A  ti  só  digo  uma  cousa  que  ninguém  sabe,  e  de 
qne  ninguém  me  desvia.  No  tribunal  direi  só :  «Ma- 
tei aquella  senhora.  Matei-a  n'uma  grande  catastro- 
phe,  quando  era  preciso  atravessar  uma  onda  com 
o   cadáver  d'ella,  ou  com  o  meu.  Amava-a,  e  por 


Correspondência  epistolar  iig 

isso  na  repartição  da  desgraça  dei-lhe  o  quinhão 
menor :  a  morte,  que  é  um  instante ;  e  reservei  pa- 
ra mim  a  dor  que  é  eternidade,  como  disse  Gres- 
set.  A  demência  d'essa  catastrophe  e  d'essa  onda, 
não  dou  á  sociedade  o  direito  de  m'a  pedir.  O  seu 
tumulo  e  a  sua  memoria  são  invioláveis,  e  perten- 
cem-me.  O  orgulho  do  meu  crime  é  o  orgulho  do 
meu  silencio.  Quando  eu  disse  no  primeiro  dia  que 
tinha  matado  por  causa  de  adultério,  estava  alluci- 
nado.  Sou  um  homicida  que  espera  tranquillamente 
a  sua  condemnação.»  Ahi  tens,  meu  filho,  o  que 
direi.  Agora  a  ti  o  mais  que  direi  só  é  uma  cousa : 
que  eu  era  o  noivo  de  três  annos  mais  desfeito  em 
carinhos,  e  o  marido  mais  digno  pelo  conselho  e 
pelo  exemplo. 

Adivinhaste  bem  que  não  podia  dizer  mais  nada. 
Olha  que  tu  não  podes  dizer  a  ninguém  as  minhas 
tenções  no  tribunal.  N'isso  só  olho  para  a  eterni- 
dade, se  a  ha.  Quando  a  matei,  ajoelhei  ao  lado  do 
leito,  orei  por  ella,  beijei-lhe  muito  a  mão  direita, 
ensopei-lh'a  de  lagrimas,  e  disse  a  Deus  que  eu  por 
mim  lhe  perdoava.  Seria  incompleto  esse  perdão 
se  me  não  pozesse  agora  entre  o  seu  tumulo  e  a 
sociedade.  E'  o  que  cumpro. 

Vi  por  entre  as  minhas  lagrimas  o  plano  do  teu 
livro.  Ensina-me  tu  as  palavras  com  que  te  diga 
esta  gratidão  da  minha  alma.  Meu  querido  Camillo, 
que  destino  é  este  nosso  ? 

E  os  teus  sonhos  ?  E  a  recordação  dos  meus  al- 
moços com  essa  querida  metade  das  nossas  mais 
doridas  melancolias?  Eu  não  posso  ler  nem  recor- 
dar isto  sem  suífocar. 

Adeus,  meu  querido  Camillo. 

De  noite  encosto-me  ás  grades,  e  peço  a  Deus 


120  Correspondência  epistolar 

que  alumie  com  as  suas  estrellas  os  meus  queridos 
hospedes  de  Seide.  Conta-me,  se  tiveres  melhor  saú- 
de, e  lembrem-se  sempre  do  amigo  de  ha  quatro 
annos  que  queria  poder  ahi  procurar  no  terraço  as 
lagrimas  que  lá  deixou  uma  noite,  a  ultima  do 
nosso  passado. 

Pede  a  Deus  a  felicidade  de  vossos  filhos  o 

velho  amigo  do  coração 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo, 

Abri  a  tua  carta  de  hoje  com  a  chicara  do  meu 
almoço  diante  de  mim.  Pois  primeiro  a  servi  a  ella 
das  minhas  lagrimas ! 

Não  sei  como  te  pague  tanto,  meu  singular  ami- 
go e  mestre !  Se  fosse  na  minha  mocidade,  que  or- 
gulhos se  me  não  alevantariam  doestes  teus  sublimes 
confortos !  Mas  eu  sei  e  sinto  que  me  não  ficaram 
dentro  de  mim  as  cinzas  de  orgulho  nenhum.  Agora 
só  a  minha  alma  se  eleva,  e  a  minha  razão  se  aífir- 
ma  e  segura  nas  raizes  com  que  tu  a  prendes  no 
fundo  da  cova  immensa  e  generosa  do  teu  immenso 
peito !  Eu  te  agradeço  como  se  tu  me  desses  a  luz 
interior. 

Ninguém  me  desconvenceria  hoje  de  que  tu  en- 
tendes melhor  a  minha  alma  do  que  eu  próprio. 
Vejo-me  melhor,  e  mais  verdadeiro,  e  mais  serena- 
mente n'esta  exacta  photographia  das  tuas  pinturas, 
do  que  o  meu  espirito,  atordoado  pelas  dores  do 
coração,  me  vê  a  mim  próprio.  Tu,  que  já  estiveste 


Correspondência  epistolar  121 

preso,  imagina  o  que  eu  terei  soffrido ;  mas  acres- 
centa ao  meu  martyrio  esta  dor  de  recordar  em 
cada  echo  e  em  cada  luz  uma  lembrança  pungente 
do  passado !  Depois  mal  posso  ler.  Os  livros  sé- 
rios conservam-me  horas  pasmado  nas  suas  paginas 
seccas  e  estéreis.  Os  livros  dos  desgraçados  acor- 
dam-me  o  coração  para  m'o  estalarem.  O  Altmeyer 
parece-me  fulminado  de  raio  ao  pé  das  tuas  santas 
promessas  e  esperanças.  Tomei  o  outro  dia  um  dos 
volumes  do  Byron,  pensando  que  poderia  com  elle. 
Comecei  a  reler  na  primeira  pagina  o  Manfredo,  e 
dilatava-se-me  o  coração  ao  pedido  d'aquelle  grande 
desventurado  que  queria ...  o  esquecimento ;  mas 
depois  as  imprecações  dos  espíritos  evocados  fize- 
ram-me  terror  •,  salto  todas  as  paginas  e  procurei 
aturdir  a  minha  feroz  imaginação  com  a  leitura  do 
que  se  lhe  seguia.  Era  o  Marino  Faliero !  Imagina 
se  eu  poderia  passar  da  terceira  pagina.  Que  infer- 
nos ignorados  deve  saborear  em  nós  o  Satanaz  in- 
visível dos  encarcerados ! 

Eu  deixar-me-hei  levar  da  tua  mão  e  do  teu  con- 
selho, meu  querido  Camillo. 

Espero  o  teu  livro  como  o  céo  do  exilio  para  a 
minha  alma. 

Só  peço  a  Deus  que  me  reserve  no  mais  puro  do 
meu  coração  lagrimas  dignas  d'elle.  Se  tu  quizeres 
que  te  empreste  as  tuas  cartas,  mando-t'as,  porque 
ha  n'ellas  umas  santas  palavras  que  eu  quereria  na 
minha  sepultura. 

Adeus.  Beija  por  mim  os  teus  filhos. 

Teu 
Vieira  de  Castro, 


121  Correspondência  epistolar 


Meu  querido  Camillo, 

Na  tua  contristadora  carta  dizes :  Tenho  eu  a 
vaidade  de  crer  que  coopero  em  tua  alma  para  que 
te  desças  d'essa  opinião.  Mais  do  que  isso.  Se  a 
minha  alma  entender  que  lhe  cumpre  descer,  serás 
mais  do  que  cooperante  :  por  ti  o  farei. 

Ha  uma  confissão  n'esta  tua  carta  que  me  con- 
turba e  fulmina.  E'  quando  me  dizes  que  as  minhas 
desgraças  teem  posto  em  perigo  a  tua  razão.  A 
desventura  faz-nos  idiotas.  Eu  não  sei  as  palavras 
da  minha  gratidão  diante  de  ti.  O  que  sei  é  o  que 
faria  depois  da  tua  desgraça,  filha  da  minha :  suici- 
dava-me  com  uma  bala  que  tenho  alli. 

Que  é  isto  de  me  fallarem  nos  meus  inimigos  a 
quem  daria  gosto  a  minha  condemnação? 

Eu  não  tenho  inimigos.  Ha  homens  e  mulheres 
que  me  detestam  e  que  me  odeiam,  mas  esses  ho- 
mens não  tiveram  nunca  uma  nesga  do  meu  cora- 
ção, nem  um  serviço  do  meu  braço.  Muitos  feriu-os 
o  meu  insulto,  a  todos  magoou  mais  ou  menos  a 
singularidade  do  meu  destino;  detestam-me,  é  na- 
tural. Mas  o  meu  inimigo  morreu,  e  se  ha  uma  ou- 
tra vida  além  d'esta  elle  estará  assistindo  agora 
aos  supplicios  que  me  deixou.  Esse  é  que  foi  o  meu 
inimigo,  porque  lhe  trouxe  três  annos  os  pés  sobre 
o  meu  peito  e  sobre  os  meus  lábios,  porque  o  tra- 
zia ao  collo  a  correr  pelas  salas,  porque  o  levava 
sempre  pela  minha  mão  á  mesa  das  nossas  refeições, 
porque  ainda  oito  dias  antes  de  morrer  o  levava  eu 
para  a  ponte  d' Algés  dando-lhe  beijos  pelo  caminho 
e  ameigando-a  como  a  noiva,  e  esse  inimigo  quei- 
mou-me  innocente  e  puro  como  eu  sinto  que  era  e 


Correspondência  epistolar  i23 

fui  sempre  para  elle !  Se  querem  que  não  dê  gosto 
aos  meus  inimigos,  queiram  também  a  minha  con- 
demnação.  Quanto  mais  infeliz  eu  for  menos  tran- 
quillo  poderá  sobreviver  no  outro  mundo  o  inimigo 
que  me  matou. 

Eu  não  penso  nos  meus  inimigos  da  terra.  Quem 
não  tem  direito  de  me  offender  e  de  me  querer 
mal? 

Que  direito  tenho  eu  de  me  queixar  de  qualquer, 
se  todas  as  minhas  virtudes,  todos  os  meus  afagos, 
todos  roubei  a  todos  por  amor  d'um  que  m'os  pisou 
e  atirou  com  elles  ?  Não  te  aíílijas.  Se  eu  fosse  enor- 
memente desgraçado,  com  tamanha  luz  que  tenho 
na  consciência,  começava  a  crer  que  ou  Deus  não 
existia,  ou  presidia  á  minha  sorte.  Estes  grandes 
brios  da  desgraça  aprendi-os  com  bom  mestre.  Vê 
se  te  recordas  em  que  outro  cárcere  se  me  enta- 
lharam na  alma  estas  lições. 

Dizem  que  veio  muito  dinheiro  do  Rio  para  o 
meu  accusador.  Deus  é  bom !  Se  me  dissessem  que 
a  mãi  d'ella  endoudecera  ou  morrera.  Deus  sabe  o 
que  me  succederia.  Sorrio  para  Deus.  A  quem 
aquelle  dinheiro  pôde  fazer  mal  é  ao  meu  inimigo ; 
a  mim  não. 

Adeus.  Beijo-te  nas  cândidas  e  socegadas  phy- 
sionomias  dos  teus  filhinhos. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


124  Correspondência  epistolar 


Meu  Jilho. 

Não  sei  se  te  cega  a  adoração  por  mim.  E'  cer- 
to porém  que  eu  defenderia  o  meu  crime  por  modo 
estranho  a  todo  o  mundo,  mas  também  sei  que 
este  paiz  não  dava  jurados  á  minha  palavra,  e  que, 
afora  tu,  ninguém  quereria  ser  meu  cliente. 

O  meu  crime  defende-se  pelos  dous  motivos  que 
o  inspiraram :  o  amor  apunhalado  em  mim,  e  o  res- 
peito ultimo  por  mim  prestado  á  mão  homicida 
d'esse  amor.  Esta  é  que  é  a  base  !  Em  mim ;  por- 
que em  mim  esta  é  que  é  a  verdade !  Eu  defenderia 
o  marido  que  matasse,  se  esse  marido  tivesse  mor- 
to :  por  ter  amado ;  e  por  haver  salvado  o  único 
respeito  compativel  com  a  memoria  da  metade  do 
seu  nome ! 

Esta  a  base  da  defeza. 

Agora,  como  provar  ? 

Com  a  premeditação. 

A  premeditação  é  a  eloquência,  é  a  dignidade,  é 
a  santificação  d'estes  crimes ! 

Do  marido  que  mata  allucinado  não  sei  o  que 
pensou  nem  o  que  sentiu.  Do  que  premeditou,  sei 
que  pensou  em  deixar  puro  aquelle  respeito,  e  sei 
que  sentiu  as  torturas  d'aquelle  amor  incendiado 
com  que  lhe  fizeram  chamma,  no  coração ! 

Espero,  agora  mais  que  nunca,  com  o  maior  al- 
voroço o  teu  opúsculo.  Eu  imagino  o  que  será ! 

Tenho  duas  cartas  tuas. 

Mando-te  um  folhetim  do  Vidal.  (Nota  2.*).  Mes- 
mo assim  é  dos  que  teem  mais  abertamente  defen- 
dido esta  causa.  Que  época !  Ainda  nenhum  rapaz 
defendeu  isto ! 


Correspondência  epistolar  i25 

Adeus,  meu  filho.  Eu  lembro-me  com  muito 
amor  das  tuas  crianças.  Beija-as  por  mim.  Os 
meus  respeitos  e  aífectos  á  mãi.  Abraço-te. 

Teu 

José. 


Meu  querido. 

Esteve  hontem  commigo  o  Julío.  Prometti-lhe 
perguntar-te  se  leste  o  folhetim  que  elle  publicou 
ha  dous  mezes  a  meu  respeito.  Se  o  não  leste, 
mando-t'o.  (Nota  3.^). 

Eu  devo  muita  gratidão  a  este  rapaz.  Raro  me 
visitava  d' antes,  e  poz  o  seu  peito  por  mim  n'esta 
grande  desgraça.  Quem  primeiro  lh'o  varou  foi  al- 
gum dos  meus  amigos  Íntimos  aterrando-o  com  a 
imprudência  de  ter  oífendido,  com  o  orvalho  de  la- 
grimas que  me  dera,  o  ferro  em  braza  dos  ódios 
que  me  devem  os  outros. 

Eu  estou  frio  e  indifferente.  Ha  uma  cousa  que 
se  me  não  desencrava  do  cérebro.  Já  t'a  disse. 
Quando  penso  no  extremo  com  que  beijava  a  mão 
que  me  matou,  sinto-me  sem  direitos  para  condem- 
nar  nenhuma  outra. 

Sinto-me  completamente  frio  e  indifferente  para 
tudo  o  que  é  d'esta  sociedade  de  veneno  e  lama. 
Por  tal  modo  me  sinto  que  nem  desprezo  lhes  posso 
dar.  Quando  me  faliam  d'um  miserável,  quasi  que 
o  lastimo  como  a  um  que  nasceu  aleijado,  ou  a  ou- 
tro que  era  são  e  se  damnou.  Isto  é  uma  felicidade, 
porque  é  a  independência  da  razão  e  do  braço  nos 
dias  que  Deus  me  destinar. 


120  Correspondência  epistolar 

Adeus,    meu    querido    Gamilio.    Hoje    não    tive 
carta  tua.  Gomo  estás?  Eu  escrevi- te  hontem. 

Os  meus  respeitos  e  saudades  á  nossa  boa  ami- 
ga, e  beijos  aos  pequerruchos. 

Abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido. 

Escrevo-te  á  pressa,  mas  não  quero  deixar  de  fa- 
zel-o  hoje  para  que  esta  te  encontre  ainda  em  Sei- 
de,  e  se  não  extravie.  Recebi  a  carta  em  que  me 
dizias  ir  para  Villa  do  Conde. 

Eu  vou  passando.  Tenho  melancolias  profundís- 
simas, e  ás  vezes  desejava  morrer  sem  dores.  Nas 
minhas  leituras  pousa-me  nas  paginas  incessante- 
mente a  luz  triste  e  desamparada  como  eu,  de  mui- 
tos dias  do  passado.  Este  mal  nasceu  incurável. 
Não  podia  deixar  de  ser. 

Aqui  não  vem  ninguém.  Os  raros  que  raro  ap- 
parecem  penso  que  se  desobrigam  forçadamente. 
Eu  também  já  ouço  com  repugnância  os  passos  de 
quem  me  procura. 

A  tudo  isso  faço  duas  excepções :  o  dr.  Mattos, 
e  o  Pereira  de  Miranda,  de  quem  me  falias  hoje. 
E*  uma  bella  alma,  e  uma  organisação  anachronica 
n'este  periodo. 

Disseram-me  hoje  n'uma  carta  que  aqui,  e  no 
Rio,  se  fazia  correr  o  boato  de  que  eu  não  queria 
defender-me ;  que  eu  não  estava  seguro  da  minha 
justiça! 


Correspondência  epistolar  12'] 

Que  humanidade ! 

Não  me  dóe  tanto  a  cerração,  calculada,  ou  sin- 
cera, do  entendimento  ao  meu  justo  intuito. 

O  que  me  dóe  é  que  não  creiam  que,  se  eu  ti- 
vesse duvidas,  eu  próprio  as  expiaria  logo  confes- 
sando-as ! 

Mais.  Quem  me  dera  que  podessem  convencer- 
me  de  que  matei  uma  alma  pura! 

Eu  não  teria  sido  nunca  deshonrado,  e  iria  pelo 
suicidio  procurar  a  oífendida! 

Chega  agora  o  Reis.  Um  homem  que  o  visitou 
disse-lhe  que  corria  lá  fora  que  eu  requerera  inven- 
tario, e  que  dava  tudo  a  elle.  E  d'ahi,  perguntei  eu, 
que  dizem  sobre  isso? 

Resposta  do  homem: 

cQue  está  e  que  fica  muito  em  baixo!» 

Deus  existe,  se  não  mentem  estas  minhas  doces 
alegrias. 

Dize  á  nossa  amiga  que  tomara  eu  que  me  des- 
sem o  degredo! 

O  maior  mal  dos  meus  inimigos  é  não  terem 
nada  contra  a  minha  coragem !  O  seu  maior  bem  é 
estar  em  mim  tudo  contra  a  alegria  da  minha 
alma ! 

Adeus.  Abraço-vos. 

Teu 

fieira  de  Castro. 


Meu  Camillo. 

Recebi  a  tua  ultima  carta.  Espero  em  Deus  que 
te  enganarás  mais  uma  vez  com  os  teus  diagnósti- 
cos. 


128  Correspondência  epistolar 

Se  sentires  melhoras,  manda-m'o  dizer,  que  me 
dás  alegria. 

O  escuro  da  minha  alma  é  pungentissimo.  Tenho 
tido  más  noites.  Porém  conservo  a  razão  e  a  saú- 
de. Assusta-me  ás  vezes  a  idéa  de  andar  expro- 
priando com  essas  riquezas  algum  maior  desgra- 
çado. 

Adeus.  Lembra-me  muito  a  essas  meigas  crian- 
ças. 

Teu 

'Vieira  de  Castro, 


€Meu  querido  amigo. 

Tenho  commigo  a  tua  ultima  carta.  São  as  tuas 
palavras  firmes  e  convencidas  que  me  tiram  por  ve- 
zes d'esta  atonia  em  que  me  sinto,  paralysaçao  de 
todas  as  faculdades  e  sensações. 

Não  me  falles  da  tua  saúde.  Isso,  e  a  maior  ener- 
gia da  tua  letra,  animam-me  a  suppôr  que  vaes  me- 
lhor. 

Entra  o  Santos  Nazareth,  moço  de  grandes  qua- 
lidades e  aptidões,  que  em  Lisboa  conhecerás  um 
dia.  Abraço-te. 

Teu 

T>ieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

Escrevo-te  em  grande  agitação  nervosa.  Quero 
agradecer-te  as  tuas  cartas  de  ho)e,  e  pedir-te  que 


Correspondência  epistolar  i2g 

me  informes  do  teu  estado  ao  passo  que  fores  me- 
lhorando, como  espero,  e  como  ardentemente  de- 
sejo no  fundo  do  meu  coração  e  da  minha  alma. 

A  tua  carta  das  Caldas  corta-me  o  coração.  Eu 
só  sei  o  que  te  devo,  e  por  isso  me  dilacera  o  teu 
mal-estar. 

Nas  tuas  cartas  está  já  enthesourado  o  único 
brazão  e  fortuna  que  hei  de  dar  aos  meus  sobri- 
nhos. Verão  por  ellas,  quando  forem  homens,  as 
dores  que  me  pungiram,  e  os  confortos  que  me 
salvaram. 

Adeus.  Se  eu  podesse  saber  todos  os  dias  de  ti! 

Abraço-te  todo  no  meu  peito. 

Teu 

'Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo, 

O  Gresset  citava-t'o  eu  porque  de  certo  conhe- 
cias a  phrase  que  fora  dita  por  elle,  mas  que  é  de 
todos  os  desgraçados  que  antes  e  depois  d'elle  ti- 
veram de  a  entender. 

Para  o  dia  do  julgamento  já  estava  riscado. 

Aíflige-me  pensar  que  tenho  pesado  nas^dôres 
do  teu  bel  lo  coração,  e  fujo  agora  de  provocar  as 
tuas  lagrimas  com  as  minhas  sensações  da  tua  ul- 
tima carta.  Atormenta-me  pensar  nas  enfermidades 
que  te  torturam,  e  consola-me  com  as  tuas  melho- 
ras quando  as  tiveres.  Peço  á  nossa  querida  amiga 
que  me  escreva  por  ti  sempre  que  te  possa  custar 
isso. 

Fizeste  bem,  ou  antes  não  fizeste  mal  em  dizer 

VOL.  I  9 


i3o  Correspondência  epistolar 

que  eu  não  tenho  remorsos  nenhuns.  Sou  comple- 
tamente frio  a  todo  o  conceito  que  possam  fazer  de 
mim  á  excepção  da  mãi  d'aquella  senhora,  mas  a 
verdade  é  que  eu  não  sobrevivia  ao  primeiro  rebate 
de  arrependimento.  Quem  pôde  fazer  o  que  eu  fiz 
não  pôde  arrepender-se. 

Tentarei  fazer-tc  a  vontade.  Quero  traduzir  o  li- 
vro do  Rapet,  Manuel  de  morale  et  economie  politi- 
que, que  teve  o  premio  de  10:000  fr.  da  academia 
das  sciencias  de  Paris.  Supponho-o  um  dos  livros 
mais  úteis  d'este  século.  E'  a  sciencia  e  a  moral 
romantisadas  n'um  conto  amenissimo  e  santo.  Em 
mim  fez-me  a  impressão  de  um  Evangelho.  Se  eu 
o  traduzisse,  era  para  o  dar  de  graça  ás  classes  po- 
bres, se  o  governo  ou  alguém  quizesse  publical-o. 
Veremos.  A  minha  desgraça  faz-me  ver  uma  ironia 
pungente  em  qualquer  tenção  do  meu  espirito  ulte- 
rior a  ella. 

Adeus.  Tenho-te  commigo.  Se  passares  melhor, 
digam-me.  Lembrem-se  sempre  de  mim.  Beijo  os 
vossos  filhinhos. 

Teu 

Vieira  de  Castro, 


oMeu  querido  Camillo. 

Tenho  mais  duas  cartas  tuas,  consoladoras  como 
todas  as  outras. 

Tenho  tido  todos  os  dias  ultimamente  razão  de 
amargura.  Hoje  mando  ao  António  um  jornal  dos 
Arcos,  em  que  me  insultam,  e  lhe  digo  te  remetta. 
O  C.  Lobo,  que  m'o  mandou,  diz  que  é  de  padres. 
Parece. 


Correspondência  epistolar  i3i 

Eu  vou  na  mesma.  Lembro-me  muito  do  Ermo, 
penso  n'elle,  e  de  certo  para  alli  irei  logo,  se  me 
derem  a  liberdade,  que  não  peço,  e  que  tão  pesada 
me  será  com  a  prisão.  O  Ermo  chama  me  por 
muitos  motivos.  D'alli  trouxe  todo  o  coração  e  in* 
telligencia  que  dei  ao  mundo.  Alli  o  tenho  quasi  de 
todo  isento  de  memorias  esmagadoras.  Quasi,  por- 
que lá  passei  ainda  umas  vinte  e  quatro  horas  no 
fim  de  67.  Isto  faz-me  profunda  angustia.  Tenciono 
porém  dormir  nas  prim.eiras  noites  em  casa  d'aquelle 
santo  abbade,  se  não  poder  logo  habituar-me  cá 
em  baixo. 

Não  posso  demorar  me  em  Lisboa  ou  no  Porto. 
Não  poderei  pois  estar  comvosco  aqui.  Facilmente 
comprehendes  a  razão  d'esta  impossibilidade.  E  é 
só  uma:  o  nojo  invencível  d'esta  sociedade,  e  o  de- 
sejo de  salvar  puros  os  meus  brios,  a  minha  cons- 
ciência, e  as  minhas  melancolias,  na  solidão  po- 
voada das  arvores  que  meu  pai  plantou  para  esta 
pouca  de  sombra  que  me  é  precisa  e  que  me  bas- 
ta. Tenho  uns  poucos  de  livros  bons.  Sei,  e  tem- 
m'o  dito  Deus  em  todas  estas  longas  noites,  que 
serei  alli  tão  feliz  quanto  posso  sêl-o. 

Quando  se  fizerem  lá  mais  negras  as  minhas  nu- 
vens, confortar-me-hei  antegostando  a  delicia  das 
ferias  que  tu  me  darás  em  Seide,  e  alH  também. 
N'isto  penso  com  suavissimo  contentamento. 

Digo-te  isto  para  veres  que  tinhas  e  não  tinhas 
razão  n'um  ponto  da  tua  ultima  carta. 

Adeus. 

Abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro, 


j32  Correspondência  epistolar 

Meu  Camillo, 

Estava  hoje  para  escrever-te,  e  para  Seide  á  nossa 
querida  amiga,  assustado  e  triste  do  teu  silencio. 

Deus  te  dê  as  melhoras  todas ! 

Quero  socegar-te  a  meu  respeito.  Penso  que  já 
te  disse  n'uma  carta  que  os  meus  grandes  medos 
eram  que  minha  sogra  endoudecesse. 

Não  sendo  assim,  quaesquer  que  sejam  os  ódios 
desencadeados  contra  mim,  esses  ódios  dão-me  for- 
ça e  não  provocam  outros.  Que  mãi  se  ha  de  pôr 
do  lado  do  homem  que  lhe  matou  uma  filha,  seja 
qual  for  a  razão  d'esse  homem  ?  Eu  mesmo  não 
veria  a  mãi  por  detraz  da  heroina,  se  esta  podesse 
existir. 

Se  eu  pensasse  na  justiça  dos  homens,  poderia 
ver  o  começo  d'ella  na  recusa  de  todos  os  advoga- 
dos honestos  ao  procurador  d'aquella  boa  senhora. 

Em  fim  o  que  eu  sinto  é  que  devo  ter  força  para 
esmagar  as  consequências  torpes  do  meu  infortúnio ; 
e,  se  Deus  me  dér  vida,  espero  que  me  não  falta- 
rão também  nem  a  consciência  nem  a  razão. 

Já  hoje  encommendei  o  livro  de  Proudhon,  que 
não  havia  em  livreiro  algum. 

E'  justíssima  a  tua  veneração  por  esse  espirito. 

Eu  tenho  lido  o  Altmeyer,  por  pensar  que  a 
philosophia  da  historia  me  insulasse  de  mim  pró- 
prio. Encontro  n'elle  um  vasio  immenso,  e  conden- 
sam-se  mais  as  minhas  duvidas  na  sua  débil  ex- 
posição. 

Mandei  hoje  buscar  quatro  livros  teus  que  me 
eram  desconhecidos.  Passo  as  noites  com  elles. 

Tu  recebeste  a  minha  ultima  carta  que  mandei 
para  Seide? 


Correspondência  epistolar  i33 

E  a  nossa  querida  amiga  recebeu  a  minha  res- 
posta á  sua  ultima  carta  ? 

Quando  quer  a  snr.^  D.  Anna  ir  ao  Ermo  ?  Já  ? 
Com  que  alvoroço  me  vem  essa  noticia !  Tu  dirás 
se  alguma  cousa  resolverem  n'esse  sentido,  porque 
eu  quero  preparar  com  alguma  ordem  aquellas  so- 
lidões para  recebel-os. 

Beijo-lhe  as  mãos  á  minha  querida  amiga,  e 
abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

Das  Caldas  recebi,  com  a  de  hoje,  quatro  cartas 
tuas.  Na  ultima  davas-me  notáveis  melhoras,  e  na 
penúltima  aconselhavas-me  o  livro  de  Proudhon. 
Não  recebi  carta  alguma  de  Seide  com  retrato.  Sup- 
ponho  pois  comtigo  que  me  teem  subtrahido  cartas 
além  d'essa.  Custa-me  perdoar  esse  infame  roubo, 
porque  o  é  da  muita  paz  que  me  deixa  á  minha 
alma  a  tua  escripta. 

O  retrato  muitas  vezes  o  tenho  desejado,  e  passo 
momentos  todos  os  dias  a  contemplar-te  n'outro 
que  tem  aqui  na  cadêa  um  moço  infeliz  chamado 
Reis,  que  te  conhece  e  se  accusa  de  não  ter  seguido 
os  bons  conselhos  que  em  tempo  lhe  deste.  (Nota 
4.^).  Eu  tenciono  um  dia  tirar  um  exemplar  im- 
presso d'estas  tuas  cartas  para  dar  n'ellas  a  meus 
sobrinhos  o  brazao  das  minhas  penas  e  das  minhas 
consolações.   E'  também  um  roubo  a  elles  o  que 


i34  Correspondência  epistolar 

commetLem  os  miseráveis  violadores  da  nossa  coi 
respondencia. 

Fazem-me  profunda  angustia  os  teus  padecimen- 
tos. Tenho  porém  mais  esperanças  do  que  tu,  e 
peço  a  Deus  que  sejam  também  os  sustos  da  tua 
imaginação,  c  o  cansaço  da  tua  justa  impaciência, 
que  te  escurecem  mais  o  teu  estado. 

Quando  te  affligir  escrever-me,  já  pedi  á  nossa 
querida  e  boa  amiga  que  o  fizesse  por  ti.  Eu  não 
posse  hoje  pensar  em  que  tu  me  faltasses  no  mun- 
do. Foi  preciso  esse  receio  para  eu  sentir  que  ha- 
via ainda  na  terra  uma  sensibilidade  que  me  pren- 
dia fora  da  minha  familia.  Sem  ti  na  minha  exis- 
tência, apavorar-me-hia  o  vácuo  immenso  dos  meus 
olhos  e  da  minha  alma.  Eu  espero  que  terás  saú- 
de, meu  adorável  amigo. 

Os  teus  filhos!  A  esses  darei  eu  sempre  tudo, 
o  meu  tudo  que  será  ?  menos  aquillo  que  possa 
magoal-os,  o  contagio  da  minha  desgraça.  Ainda  os 
veremos  crescer.  Como  com  elles  crescerão  talvez 
as  nossas  agonias,  é  possivel  que  a  vida  nos  não 
fuja. 

Eu  amo-te  e  venero-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  Camillo. 

Tenho  commigo  o  teu  retrato,  que  todos  os  dias 
verei. 

Agradeço  t'o  immensamente. 

Sorri  da  tua  innoccntc  phantasia  acerca  dos  ho- 


Correspondência  epistolar  lòb 

mens  do  jantar.  Mais  me  vale  o  teu  sonho,  do  que 
valeria  a  vontade  real  da  maior  parte  d'elles. 

Não  tenho  mais  tempo  hoje. 

Abraço-te,  e  sou  sempre 

o  teu  velho 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

E'  a  primeira  vez  que  escrevo  de  noite.  E'  que 
eu  nunca  me  senti  tão  feliz  depois  que  entrei  na 
cadêa. 

Eu  te  conto.  No  dia  em  que  me  entreguei  á  po- 
licia disse  para  o  António,  ao  deixar  a  minha  casa : 
«Não  quero  mais  ver  o  mínimo  dos  objectos  que 
ficam  aqui.  Todas  as  jóias  e  vestidos  da  senhora 
que  morreu,  cerra  tudo  e  manda  para  o  Rio  de 
Janeiro.»  Ao  cabo  de  lo  dias  elle  fez  leilão  da  mo- 
bília, e  foi  a  juízo  assignar  declaração  competente. 
Resolveu  não  mandar  as  jóias,  porque  eu  tinha  di- 
vidas de  réis  2:bzo^ooo  contrahidas  em  1868  depois 
da  eleição  da  Maia,  quando  viemos  para  Lisboa 
com  trens  e  cavai  los.  Mandar  as  jóias  era  fraudar 
os  meus  credores,  que  não  tinham  outra  garantia. 
As  dividas  eram  do  casal,  e  não  tinham  servido 
para  comprar  um  papel,  nem  um  palmo  de  terra. 
Fez  bem,  e  n'esse  ponto  resolvi  eu  o  seguinte.  Feito 
o  inventario  de  que  mandei  separar  duas  partes,  a  do 
Rio  entrega-se  inteira ;  da  minha  pagam-se  as  divi- 
das de  ambos,  e  o  resto,  se  o  houver,  é  para  asylos. 
Vem  a  ponto   dizer-te  que  foi  logo  ordem  para  o 


i36  Correspondência  epistolar 

Rio  para  desistir  dos  meus  direitos  á  metade  da  le- 
gitima paterna  da  fallecida,  no  inventario  que  alli 
corre,  e  ordem  de  entregar  as  prestações  do  monte- 
pio recebidas  pelo  meu  procurador  desde  a  morte 
de  meu  bom  sogro,  as  quaes  não  tinham  vindo  por 
causa  do  cambio.  N'este  ultimo  paquete  chegou  a 
noticia  do  meu  bello  amigo  Albino  de  Oliveira  Gui- 
marães dando-me  parte  de  ter  feito  a  desistência. 
(Nota  5.^. 

Ora  tudo  isto  era  magnifico,  se  não  encalhasse 
na  minha  ignorância  da  jurisprudência,  e  creio  que 
dos  sábios  que  vivem  commigo,  e  a  quem  isto  era 
familiar. 

Apparece  na  Correspondência  de  T^ortugal,  no 
ultimo  numero,  insinuação  de  ladrão  contra  o  meu 
adorável  António  por  ter  feito  o  leilão! 

Tive  um  susto  atroz  quando  suppuz  que  elle  po- 
dia ser  preso;  fiquei  contentíssimo  quando  ha  pou- 
co me  disseram  que  as  culpas  se  podem  desviar 
sobre  mim. 

Mas  soube  mais  o  seguinte :  eu  era  casado  por 
carta  de  metade ;  tenho  pois  de  dar  ao  inventario  a 
minha  quinta  do  Ermo,  e  dizem  até  que  a  coroa 
ofiferecida  no  Brazil,  o  que  te  repito  a  ti  por  ter 
graça ! 

Creio  que  valerá  á  pobre  choupaninha  a  sua 
própria  pobreza.  Como  as  pedras  preciosas  pesarão 
mais  do  que  ella,  com  cila  ficarei  talvez. 

E  ahi  tens  porque  nunca  me  senti  tão  feliz :  por 
um  modo,  desapressado  da  angustiosa  espectativa 
de  ver  preso  este  anjo  do  António;  por  outro,  a 
gloria  immensa  de  me  ver  empurrado  para  a  ex- 
trema indigência  pela  família  que  eu  adorei! 

Isto  é  o  que  me  salva !   Nunca  me  senti  tão  se- 


Correspondência  epistolar  i3i 

guro  de  mim,  tão  certo  de  que  a  razão  me  não  fu- 
girá jamais ! 

Para  serem  completos  os  meus  sonhos  devia  o 
jury  condemnar-me.  O  degredo,  e  uma  banca  de 
advogado  em  Loanda,  seriam  a  satisfação  inteira 
do  meu  orgulho,  do  único  pobre  orgulho  que  eu 
posso  ter,  que  é  o  de  me  mostrar  bem  assim  a  eU 
lay  se  por  ventura  para  lá  do  tumulo  se  sobrevive ! 

O  António  está  aqui.  Brevemente  conto  man- 
dar-te  publicadas  as  cartas  que  elle  vai  dirigir  á 
imprensa  sobre  isto,  que  não  podia  deixar-se  pas- 
sar em  silencio. 

Trouxe-me  uma  noticia  do  Porto.  O  Jalles  foi 
interrogar  minha  mãi  sobre  calumnias  infames  que 
te  são  conhecidas.  Ella  respondeu  que  se  podesse 
estremar  algum  dos  filhos  pela  .obediência  e  pela 
dedicação  d'elle,  era  eu. 

Levantou-se  elle  dizendo  que  em  tal  caso  não  era 
preciso  fa\er  auto!  Este  só  era  preciso  se  eu  fosse 
o  infame  da  maledicência  publica. 

Estou  livre  de  ter  um  cancro  na  lingua,  porque 
de  nenhum  modo  me  estimulam  estes  scelerados  a 
cuspir-lhes,  se  os  encontrar  ainda. 

Meu  querido,  has  de  estranhar  a  linguagem 
d'esta  carta:  é  que  eu  nunca  tive  como  hoje  a  cer- 
teza de  não  endoudecer.  A  pobreza  com  a  máxima 
honra,  e  estas  elevações  que  se  me  levantam,  não 
da  cabeça,  mas  da  consciência,  fazem-me  tão  feliz 
quanto  eu  posso  scl-o ! 

Devia-te  a  ti,  meu  querido  Gamillo,  esta  pri- 
meira expansão  do  meu  primeiro  jubilo  de  encarce- 
rado. 

Recebi  hoje  a  tua  carta.  E'  nova  reliquia  para 
juntar  ás  outras  que  já  tenho. 


i38  Correspondência  epistolar 

Peço-te  que  trates  bem  em  Seide  as  tuas  melho- 
ras. Não  abuses  d'ellas.  A  tua  letra  denuncia-me  a 
debilidade  da  tua  vista.  Ha  dias  o  final  de  uma 
carta  destacava  salientemente  do  resto:  vinha,  como 
que  espreitando,  a  letra,  do  mesmo  modo  que  tu 
certamente  espreitarias  para  escrevel-a.  Não  traba- 
lhes em  quanto  não  estiveres  bom. 

Agradece  por  mim  á  nOssa  querida  amiga.  Pa- 
ga-me  bem  o  Jorge.  Eu  tenho  o  rostosinho  d'essa 
criança  pintado  na  memoria.  Estou  a  vêl-o  com  a 
boquinha  ligeiramente  aberta,  e  os  beicinhos  esten- 
didos, a  mirar-me   muito   serio,  e  tranquillamente. 


Continuam  as  ,  minhas  alegrias.  Vou  eu  mesmo 
requerer  o  inventario,  e  dar  o  meu  Ermosinho  a 
elle. 

A  carta  do  António  penso  que  te  agradará.  E' 
a  historia  do  facto,  provocada  pela  injuria.  Resolvi 
porém  pagar  eu  só  as  dividas. 

Recebi  a  tua  de  hoje.  Cá  vai  para  o  meu  co- 
fresinho  aonde  as  tenho  todas.  Hei  de  lêl-a  pri- 
meiro ao  Júlio,  que  vem  cá  hoje  comer  do  meu 
caldo. 

Estou  bem.  Abraço-te  e  beijo-te.  Beijo  os  inno- 
centinhos  todos,  e  a  mão  da  mai. 

Teu 

José. 


Correspondência  epistolar  i3g 


Meu  querido  Camillo. 

Tive  mais  dias  de  immensa  melancolia.  Deus 
queira  que  não  voltem  muitas  vezes  assim!  Penso 
que  foram  uma  reacção  áquella  tempestade  d'odios 
em  que  te  escrevi  a  ultima  carta.  Sinto  que  será 
eterna  a  minha  immensa  tristeza.  Não  penso  no 
dia  do  meu  julgamento,  nem  sei  quando  será.  Por 
isso  te  não  fallei  n'elle.  Crê  na  pureza  da  verdade 
com  que  te  digo  que  peço  a  Deus  ferventemente  a 
minha  condemnação.  Não  me  julgues  mal;  eu  te 
digo  porque  a  quero.  No  dia  em  que  me  absolves- 
sem, fariam  de  rnim  uma  existência  insanavelmente 
triste.  A  minha  condemnação  seria  o  pedestal  eter- 
no da  minha  consciência,  a  firmeza  do  meu  direito, 
a  serenidade  do  meu  sorriso  perante  Deus  e  a  im- 
mortalidade !  Se  me  absolvessem  era  Deus  que  me 
fugia  com  o  premio  das  minhas  agonias.  Depois,  eu 
tenho  ás  vezes  umas  visões  translúcidas  que  me 
sorriem  das  nuvens.  Quanto  mais  eu  soífrer  aqui, 
mais  sentirá  ella  ao  lado  de  Deus,  para  onde  eu 
creio  que  vão  todas  as  almas,  e  as  peccadoras  pri- 
meiro, que  eu  não  merecia  a  sua  culpa!  Se  ha  al- 
guma mulher  que  no  outro  mundo  renasça  orgu- 
lhosa do  homem  que  deixou  na  terra,  essa  deve  ser 
a  que,  depois  de  ter  vivido,  veio  a  morrer  ás  mãos 
do  seu  amor! 

Esta  visão  salvou-me  hontem.  De  mais:  porque 
modo  influirá  ainda  na  fatalidade  do  meu  destino  a 
minha  absolvição? 

Oh !  crê,  tu :  não  sabes  com  que  fervores  eu 
peço  a  Deus  a  distincção  de  uma  pena  injusta,  e 
com  quantos  sorrisos  de  felicidade  eu  iria  advogar 


140  CotTespondencia  epistolar 

para  pobres  n'uma  banca  de  Loanda!  Tenho  amei- 
gado tanto  com  esta  esperança  estas  minhas  noites 
eternas  que  seria  quasi  selvageria  despedaçarem- 
m'a! 

Ainda  uma  outra  confidencia.  Eu  devo  tudo  a  ti, 
meu  querido  amigo.  Tu  sabes  qual  é  o  único  sonho 
que  eu  tenho?  Eu  t'o  digo.  E'  que  ainda  antes  de 
eu  morrer,  aquella  senhora  do  Rio  seja  obrigada 
pela  sua  consciência,  e  pela  voz  d'além-tumulo  de 
sua  filha  morta,  a  chamar-me,  como  me  chamou 
sempre  por  mais  de  três  annos:  o  seu  querido  Jilhol 
Eu  quero,  antes  de  morrer,  o  amor  d'ella  cheio  de 
lagrimas,  e  a  amizade  de  seus  irmãos  cheia  de 
justiça !  Sei  que  hei  de  ter  tudo ;  o  meu  advogado 
fallará  do  céo. 

Mas  para  isso  o  desterro  era  um  bom  auxiliar. 
Faria  falta  essa  luz  ao  pé  das  outras  que  mais 
tarde  ou  mais  cedo,  accesas  pela  mão  invisivel  de 
um  anjo  que  todos  nós  temos,  lhes  hão  mostrar  e 
alumiar  serenamente  a  historia  intima  do  meu  noi- 
vado de  trinta  e  oito  mezes. 

Aqui  tens  porque  peço  a  Deus  que  me  con- 
demnem.  Olha  lá,  não  me  julgues  mal.  Na  senhora 
que  eu  matei  havia  duas  creaturas.  Uma  que  se 
perdeu,  e  me  perdeu.  Essa,  se  resuscitasse,  morre- 
ria de  novo.  Outra  que  era  todo  o  meu  espirito  e 
toda  a  minha  alma,  aonde  acordavam  todas  as  mi- 
nhas virtudes  e  onde  adormeciam  todos  os  meus 
sonhos.  Essa  choral-a-hei  sempre. 

Hontem  de  noite  pensei  muito  em  ti.  Queria  es- 
cutar-te  aquella  suave  persuasão  com  que  tu  ha 
oito  ou  dez  annos  me  fallavas  aqui,  a  mim  e  a  ou- 
tros, da  necessidade  da  fé.  Uma  noite,  no  Grémio, 
n'aquella  saleta  pequena   aonde  costumava  conver- 


Correspondência  epistolar  14/ 

sar  o  José  Estevão,  fallaste  diante  de  muitos.  Lem- 
bras-te  ? 

A  mim  hoje  bastava-me  a  fé  que  me  deixasse 
verdadeiro  o  meu  sonho. 

Meu  querido  Gamillo,  abraçar-te-hia  longamente 
se  te  tivesse  aqui.  Nunca  esquecerei  o  immenso 
que  te  devo.  As  horas  de  grande  coragem  mandas- 
te-m*as  tu,  e  marcou-m'as  o  teu  relógio  na  leitura 
das  tuas  cartas. 

Treze  de  setembro !  Faz  hoje  mesmo  quatro  an- 
nos  que  embarquei  para  o  Rio !  Porque  não  vi  eu 
então  na  immensa  amplitude  do  mar  a  medida  dos 
espaços  da  minha  desgraça?  Que  data,  meu  queri- 
do amigo ! 

Li  ha  poucos  momentos  urna  carta  em  que  se  al- 
lude  a  uns  convites  e  agradecimentos  para  uma  mis- 
sa, feitos  com  insultos  contra  mim.  Dizem-me  que 
foram  assignados  por  quem  eu  amei  e  amo  tanto 
como  a  minha  mãi.  A  minha  vingança  será  sempre 
a  mesma :  fechar-lhe  unicamente  o  meu  coração 
para  que  ella  não  entre  lá  a  suíFocar-me  o  amor 
que  lhe  tenho  e  terei  sempre. 

Se  ella  me  chamasse  ainda  o  seu  querido  filho!... 

E'  impossível.  Não  é? 

Toma  estas  lagrimas  do  teu  desgraçado  amigo. 


<£Meu  querido  Camillo, 

O  meu  principal  contentamento  são  as  tuas  me- 
lhoras. Hontem  escrevi-te  afflicto. 

Na  minha  carta  d'hontem  dizia-te  que  era  certo 
ter  vindo  a  procuração  quando  te  reflectia  que  ne- 
nhum advogado  honesto  quizera  accusar-me.  Res- 


7^2  Correspondência  epistolar 

pondo  á  tua  de  hoje.  Não  dou  força  a  ódio  estranho. 
Acho  lógico  o  de  minha  sogra,  e  agradeço  a  Deus 
a  força  que  esse  ódio  me  dá,  c  que  a  loucura  d'ella 
me  tiraria. 

Escrevo-te  pouco  hoje.  Annunciaram-me  a  visita 
do  Jayme,  e  dir-te-hci  o  resultado  da  conferencia, 
em  que  eu  não  sei  se  a  sua  defeza  poderá  combi- 
nar com  o  meu  propósito. 

Abraço-te,  meu  querido. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

Recebi  a  tua  carta  de  hoje.  Eu  tenciono  publicar 
a  seu  tempo  as  tuas  cartas  amantissimas  e  santas. 
Então  t'o  direi  de  novo. 

Dizes-me  hoje  uma  cousa  que  eu  já  sentia,  mas 
que  estimei  ver  dita  por  ti :  é  que  para  mim  houve 
uma  dor,  e  não  poderh  haver  mais. 

Ha  dous  dias  que  me  sinto  perfeitamente  calci- 
nado. Chegaram  cartas  do  Rio  asseverando  que  mi- 
nha sogra   

Eu  sou  escravo  da  lógica  das  minhas  idéas  c  dos 
meus  sentimentos.  Essa  senhora,  cujas  censuras  fei- 
tas por  ti  eu  lia  a  custo,  tinha  no  meu  coração  e  na 
minha  alma  o  primeiro  lugar.  Hoje  não  tem  o  ulti- 
mo porque  não  tem  nenhum.  Era  ha  um  anno  viu- 
va de  um  homem  que  foi  um  santo,  e  tal  santo,  que 
Deus  consentiu  que  lhe  vilipendiasse  a  memoria  de- 
pois de  morto  quem  mais  lh'a  devera  honrar  e  ve- 


Correspondência  epistolar  148 

nerar !  Que  mundo,  meu  Deus  !  Eu  acredito  em 
Deus,  se  o  contemplo  nas  harmonias  sublimes  da 
matéria;  mas  horrorisa-me  explical-o  se  o  estudo  e 
o  procuro  n'estas  monstruosidades  do  mundo  moral: 
ensina-me  tu,  meu  colossal  e  adorável  Camillo. 

Sinto,  se  tu  o  sentes,  que  conspirem  contra  o 
drama.  Não  me  espanta.  O  contrario  seria  incohe- 
rencia  com  os  ódios  sempre  crescentes  com  que  a 
Providencia  dos  soberbos  de  sua  desgraça  me  visi- 
ta na  guerra  acerba  dos  que  te  não  perdoam  a  tua 
dedicação.  Seja. 

Adeus,  meu  querido  Camillo. 

Ah!  O  Jayme  disse  o  outro  dia  ao  António  que 
estava  satisfeito  por  pensar  que  defenderia  trium- 
phantemente  todas  as  paginas  da  Biographia.  Elle 
é.  também,  como  tu,  maior  que  a  sua  terra. 

Adeus.  Sede  bem  felizes. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo, 

Ahi  te  mando  a  carta  do  António  que  se  não  pu- 
blica, porque  o  Jayme  não  quer.  Eu  obedeço-lhe. 
Elle  quer  que  vamos  saboreando  o  gosto  de  todas 
as  calumnias  para  ser  mais  assombrosa  a  defeza ! 
No  primeiro  minuto  custou-me  ;  voltou  porém  breve 
esta  santa  indifferença  por  tudo  o  que  me  está  fora 
da  consciência,  e  que  nem  deixa  ser  favor  a  minha 
conformidade. 

Esquecia  fallar  n'essa  carta  da  declaração  feita 
logo  em  juizo,  pelo  António,  depois  do  leilão  dos 
moveis. 


144  Correspondência  epistolar 

Resolvi  não  apresentar  as  dividas  de  2:5ooííí50oo 
réis. 

Hoje  faço  requerimento  para  inventario  dando  o 
Ermo,  e  tudo,  como  te  disse. 

Viu  hontem  o  Júlio  a  tua  carta,  que  o  commoveu 
muito.  E'  um  bello  coração,  parece-me.  Elle  falia 
hoje  de  ti  n'um  folhetim  da  Revolução.  Creio  que  a 
tens  ? 

Como  estás  ? 

As  minhas  saudades  vos  mando  com  estes  meus 
novos  e  serenos  contentamentos. 

Abraço-te. 

Teu 

José, 


Meu  querido. 

Resumo  o  meu  correio  de  hoje.  Deixaram-me 
pouco  tempo  para  umas  poucas  de  cartas  com  que 
eu  tencionava  passar  o  dia  de  hoje. 

Tive  hontem  um  dia  triste.  Amarguraram-me  mui- 
tas cousas,  mas  sobre  tudo  a  carta  de  D.  Anna.  Anni- 
quilou-me.  O  escrever-me  ella,  o  que  me  escrevia, 
tudo  isso  me  pôz  no  desalento  em  que  veio  encon- 
trar-me  o  Jayme.  As  três  horas  de  conferencia  com 
este  também  me  magoaram  muito,  embora  a  im- 
pressão da  tua  memoria  me  affligisse  sobre  tudo. 
Disse  ao  Jayme  qual  era  a  minha  resolução  no  tri- 
bunal. Aceitou-a.  Será  pois  elle  quem  me  defende, 
se  Deus  lhe  der  a  saúde  que  eu  vejo  precária  em 
todos  os  homens  do  grande  talento  e  coração  que 
vossês  teem.  Se  elle  não  podesse  defender-me,  esti- 
maria que  não  me  defendesse  ninguém,  não  po- 
dendo tu  vestir  uma  toga.  O  seu  plano  de  defeza  é 


Correspondência  epistolar  14S 

o  mais  alto  e  sublime,  porque  é  a  verdade  vista  á 
luz  do  grande  génio,  e  ao  calor  de  uma  alma  de 
tamanho  igual. 

Sei  que  isto  te  contentará  muito.  Agora  perdoa. 
Quando  te  dei  uma  resposta  dúbia  ao  teu  pedido, 
fugia  de  magoar  a  tua  sensibilidade.  Eu  logo  te  dis- 
se que  era  impossivel  arredar  me  do  meu  propósi- 
to. Nas  individualidades  caracterisadas  como  a  mi- 
nha ha  deliberações  inabaláveis  que  é  impossivel 
vencer. 

Hoje  tenho  um  dia  mais  feliz.  Respirei  quando  vi 
a  tua  letra  no  sobrescripto.  A  tua  carta  encheu-me  de 
contentamento.  Agradeço-a  a  Deus,  se  Elleolha  para 
isto,  e  se  elle  teve  em  conta  os  meus  sobresaltos 
de  vinte  e  quatro  horas. 

Carta  tua  que  eu  não  accuse,  é  porque  a  não  recebi. 

Cá  espero  o  teu  outro  retrato.  Eu  não  tenho  aqui 
nenhum  meu,  mas  também  não  tenho  o  meu  ulti- 
mo retrato.  Os  últimos  que  tirei  são  do  Rio  e  de 
New- York,  que  deves  ter.  Consta-me  que  se  ven- 
dem retratos  meus,  mas  não  sei  de  que  modo  ar- 
ranjados. Repugna  mandar  buscal-os  aos  infames 
que  assentaram  balcão  no  meu  peito  esmagado. 

Tenho  momentos  horríveis,  tenho.  Mas  espero 
não  perder  a  razão,  o  que  peço  a  Deus,  que  sabe 
que  penso  serenamente  em  perder  a  vida. 

Adeus.  Abraço-te  meu  querido  amigo  pela  feli- 
cidade santa  e  augusta  que  me  dá  a  luz  immensa 
da  tua  divina  inspiração. 

Os  meus  affectos  respeitosos  á  nossa  querida 
amiga. 

Beijo  os  vossos  filhos. 

Teu 

José. 
voL.  I  10 


■ 


14^  Correspondência  epistolar 


Meu  querido  Ca  mil  lo, 

Entristeceu-me  muito,  muito,  a  tua  falta  de  saúde. 
Não  te  posso  dar  mais  nada,  mas  as  commoçôes 
sinceras  da  minha  alma  aceita-as,  e  crê  n'ellas. 
Morrer  deve  ser  bom.  Padecer  é  que  eu  acho  hor- 
rível acima  de  tudo. 

Eu  pago  com  muita  gratidão  ao  Germano,  e  te- 
nho dito  em  Lisboa  aos  politicos  que  elle  é  hoje 
um  dos  primeiros  talentos  para  sustentar  um  par- 
tido. 

Não  me  aíflige  nem  me  alegra  nada  do  meu  jul- 
gamento. Estou  n'uma  sala  de  tecto  muito  baixo,  e 
começa  a  pezar-me  horrivelmente  a  cabeça,  depois 
que  o  procurador  régio  de  cá  deu  subitamente  or- 
dem para  que  se  me  levantasse  a  permissão  de  ir 
renovar  de  ar  respirado  n'um  patamar  de  duas  ja- 
nellas,  e  de  entrar  n'um  pequeno  gabinete  aonde 
lia  e  escrevia.  SoíFro  tudo  docilmente  quando  sus- 
peito que  é  o  dinheiro  da  senhora  do  Rio,  que  me 
dizem  ter  chegado  em  quantidade  para  me  crivar 
nas  publicações  dos  jornaes,  visinhos  da  audiência, 
o  que  me  irrita  n'estas  perseguições  inesperadas,  e 
que  o  próprio  carcereiro  d'esta  casa  me  annuncia 
com  os  olhos  e  a  voz  trémulos  de  lagrimas. 

Não  esperava  ter  a  força  que  sinto.  Quando  me 
disseram  a  mais  sanguinolenta  das  calumnias  que 
me  assacavam,  senti  pelo  mundo  um  despreso  pro- 
fundíssimo com  que  hei  de  morrer.  Agradeço  a 
Deus  esta  força.  Tenho  mentalmente  agradecido 
aos  infames  o  pedestal  das  injurias  para  que  o  meu 
vulto  era  pequeno. 

Queda  ser  julgado  quanto  antes,  e  no  meio  das 


Correspondência  epistolar  14J 

iras  de  todos.  A  prisão  aniquila-me,  illumina-me  o 
desterro;  e,  se  me  absolverem,  tenho  medo  de  não 
poder  desprezal-os  tanto !  O  que  eu  queria  era'que 
me  julgassem. 

O  advogado  contrario  oíFereceu  a  biographia  e  os 
discursos  no  libello.  Dizem-me  que  deseja  provar  o 
meu  atheismo.  Quem  me  dera  ser  elle ! 

Adeus,  meu  querido  Gamillo.  Beijo  as  mãos  da 
nossa   boa   amiga,  e  abraço-te  e  aos  vossos  filhos. 

Teu 

José. 


tMeu  Camillo. 

A  tua  carta  veio  desopprimir-me.  Tenho  tão  pou- 
cas cousas  com  a  minha  alma,  que  estava  a  vêr 
quando  o  deus  estúpido  dos  desgraçados  me  man- 
dava bestialmente  á  cadêa  o  estampido  da  tua  morte. 

Ha  três  dias  que  vivo  n'uma  tempestade  do  ódios 
brutaes.  Não  tem  razão  de  ser  especial.  E'  uma  no- 
va chamma  do  meu  inferno.  Vivo,  porque  concor- 
da com  os  ódios  o  despreso  incommensuravel  que 
todos  os  dias  se  alimenta  no  ruido  da  canalha 
livre. 

Vejo  que  aproveitas  a  saúde  escassa  pensando  e 
trabalhando  por  mim.  Deus  queira  que  não  com- 
movas  ninguém !  O  que  eu  quero  é  a  raiva  bestial 
de  todos.  Nunca  pensei  que  tivesse  tamanho  sabor. 

O  Diário  de  Noticias  falia,  sempre  que  pôde, 
em  mim  para  me  tratar  pelo  preso  fulano  de  tal . . . 


14S  Correspondência  epistolar 

De  dentro  de  uma  enxovia  é  que  se  conhece  bem 
a  lama  que  está  lá  fora ! 


Adeus.  Abraco-vos. 


Teu  velho 
Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo, 

A  tua  carta  de  hoje  alegra-me  de  todo.  Foi  bom 
que  se  me  atormentassem  as  outras  dores  com  este 
susto  que  me  mettcste  para  poder  ter  agora  uma 
alegria.  Hontem  ficara  eu  inquieto  com  a  falta  de 
carta  vossa,  e  aggravou  a  minha  imaginação  uma 
noticia  da  imprensa  sobre  o  teu  estado.  Felizmente 
aquella  noticia  era  naturalmente  filha  de  informa- 
ções anteriores. 

Tenho  a  agradecer-te  uma  nova  delicadeza.  Veio 
hontem  aqui  um  caixeiro  do  Campos  trazer-me  um 
exemplar  da  2.''  edição  dos  ^Brilhantes  do  bra:{tlei- 
ro,  e  offerecer-me  todos  os  outros  que  eu  quizesse 
escolher  do  catalogo  appenso  ao  livro.  Eu  mostrei- 
Ihe  os  livros  que  ha  pouco,  na  mesma  loja  d'elle, 
tinha  mandado  comprar.  Entre  estes  estavam  os 
Brilhantes,  mas  acceitei  a  tua  fineza  ficando  com  o 
exemplar  da  2.*  edição.  Devolvi-lhe  a  elle  o  exem- 
plar da  i.'\  por  me  parecer  isso  agradável  ao  pe- 
queno. Eu  tinha  comprado  ha  pouco:  Os  brilhantes, 
A  mulher  fatal,  oAs  memorias  de  G.  do  Amaral,  e 
Vijite  horas  de  liteira.  Não  tinha  lido  até  hontem  os 
dous  primeiros.  Quando  os  livros  chegaram,  toma- 
ram-me  esses  dous  o  Reis  e  o  guarda-livros  da  ca- 
dêa,   bom   velhote   que   me   ajuda  a  atravessar  as 


Correspondência  epistolar  I4g 

tardes.  Tomei  eu  o  ultimo  dos  quatro  n'uma  noite 
por  me  dizerem  que  era  um  livro  alegrissimo  do 
principio  ao  fim.  Ou  eu  li  cousas  que  lá  não  esta- 
vam, ou  quasi  todo  elle  é  de  uma  profundíssima 
melancolia.  Muitas  d'aquellas  historias  me  aííligi- 
ram.  Dias  depois,  as  Memorias  de  G.  do  Amaral 
atormentaram-me  igualmente,  e  resolvi  adiar  a  lei- 
tura dos  outros.  Hontem  porém  animou-me  á  lei- 
tura dos  Brilhantes  a  circumstancia  de  me  serem 
enviados  por  ti.  Deliciaram-me  as  cem  paginas  que 
li  até  á  meia  noite,  mas  hei  de  ler  o  resto  de  dia 
para  me  não  intimidarem  nas  trevas  os  angustiosos 
lances  ou  tristes  conceitos  que  presumo  no  curso 
d'esta  historia.  Depois,  a  pagina  8o  d'este  teu  livro 
deixou-me  com  medo  de  encontrar  novas  e  verda- 
deiras prophecias  para  mim. 

Quem  dera  cá  o  fim  de  setembro,  se  Deus  me 
não  dá  esta  esperança  de  os  ter  cá  para  m'a  levar 
mais  tarde.  Eu  decerto  aqui  estou.  Já  te  disse,  e 
repito,  que  eu  não  dou  um  passo  para  abreviar  o 
meu  processo,  nem  sequer  interrogo  alguém  acer- 
ca d'elle. 

Agradeço-te  muito  a  tua  amoravel  lembrança  de 
pores  á  minha  disposição  os  teus  estofos.  Que  on- 
das nos  separam  dos  tempos  d'essa  palavra !  Eu 
tenho  commigo  uma  cadeira  que  já  tive  em  Coim- 
bra e  no  Ermo,  e  uma  cama  de  ferro  onde  dormia 
um  dos  meus  criados.  Não  quereria  eu  que  as  tuas 
mobilias  viessem  fazer  fausto  a  quem  teria  de  pôr 
todos  os  dias  diante  d'ellas  a  sua  toalha  e  talher 
de  jantar. 

Adeus,  meu  querido  amigo.  Espero  com  ancie- 
dade  a  confirmação  d'estas  boas  e  confortadoras 
noticias  d'hoje. 


i5o  Correspondência  epistolar 

Os  meus  respeitos  á  nossa  querida  amiga.  Beijo 
os  vossos  filhos. 

Teu 

Vieira  de  Castro, 


Meu  querido  Camillo. 

Recebi  a  tua  carta  de  Braga.  Continuo  a  esperar 
a  ultima  hora  da  tua  convalescença.  Deus  a  traga 
breve ! 

Eu  morro  de  calor.  A  atmosphera  tem  concor- 
rido no  adormecimento  lethargico  das  minhas  facul- 
dades, o  que  me  dá  a  serenidade  dos  moribundos 
sem  dor,  embora  o  despertar  depois  para  a  vida 
me  seja  amargo,  e  tanto  mais  quão  longo  foi  o  in- 
tervallo  do  repouso. 

Não  trabalho.  Leio  bastante,  e  estudo  o  inglez 
com  um  homem  que  vem  aqui  três  vezes  por  se- 
mana. 

Voltou  hontem  o  pequeno  do  Campos.  Trouxe- 
me  um  exemplar  da  2.'^  edição  da  Douda  do  Cau- 
dal, Eu  tinha-lhe  dito  que  tencionava  mandar  bus- 
car este  livro  quando  acabasse  a  leitura  dos  outros. 
Elle  teve  a  bondade  de  trazer-m'o  logo.  Disse-me 
que  tu  havias  dado  ordem  especial  para  me  traze- 
rem a  Mulher  fatal,  mas  que  brevemente  o  fariam 
por  quererem  dar-me  a  2.*  edição.  Mostrei  então  o 
exemplar  que  eu  mandara  comprar,  c  como  fosse 
da  i."^  edição,  o  pequeno  levou-o,  ficando  de  trazer 
opportunamente  o  da  2.'^  Este  livro  só  então  pode- 
rei lêl-o. 

Hontem  depois  do  meu  jantar  sentei- me  na  mi- 
nha poltrona  do  Ermo  e  de  Coimbra,  e  conclui  a 


Correspondência  epistolar  i5i 

leitura  dos  Brilhantes.  As  ultimas  cem  paginas  li  as 
constantemente  através  das  minhas  lagrimas.  Cho- 
rei suavemente,  e  fez-me  bem.  Eu  acho  este  livro 
adorável.  E  acho-o  também  um  livro  óptimo  por 
todos  os  pontos. 

Os  teus  livros  tiveram  sempre  um  grande  poder 
na  minha  organisação  psychologica,  e  agora  é  que 
eu  o  tenho  sentido  bem,  n'este  despenho  de  uma 
grande  desgraça,  em  que  eu  recordo  a  sós  commigo 
os  pedestaes  creados  por  ti  para  a  consciência  pura, 
contra  que  se  levantam  infrenes  e  estúpidas  a  ca- 
lumnia  e  a  aífronta.  Eu  já  mereci  a  Deus  a  supre- 
ma consolação  de  me  sentir  bem  e  feliz  com  os 
aleives  dos  perversos. 

Esta  santa  superioridade  começou  a  formar-se  na 
minha  alma  aos  i3  annos  com  a  leitura  dos  teus 
livros,  singularmente  influentes  em  muitas  saliências 
do  meu  destino. 

Eu  te  agradeço  tudo,  meu  querido  amigo. 

Vou  mandar  esta  carta  para  as  Taipas  na  certeza 
de  que  é  o  mais  seguro. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

Penso  que  serei  julgado  no  dia  28. —  O  Diário 
de  Noticias  já  hoje  annunciou  que  as  authoridades 
brazileiras  pediram  lugar !  Não  poupam  nada.  Ha 
dinheiro  a  fartar,  e  diz-se  que 

para  publicar,  como  publicou,  os  libellos  da  accu- 


i52  Correspondência  epistolar 

sacão,  sendo  um  d'elles  a  synthese  das  principaes 
torpezas  com  que  me  infamam !  Foi  publicado  no 
dia  i8,  porque  n'esse  dia  expirava  o  prazo  para 
apresentar  a  contestação,  sabia-se  que  o  defensor  a 
reservava  para  a  audiência,  como  o  próprio  Diário 
indiscretamente  confessava  no  dia  19,  e  d'este  mo- 
do ficavam  as  torpezas  a  lavrar  até  ao  dia  do  jul- 
gamento !  E'  o  primeiro  caso  que  se  dá  na  im- 
prensa ! 

Meu  querido  amigo,  peço  a  Deus  forças  para 
atravessar  esta  onda.  Não  me  preoccupa  a  con- 
demnação  do  meu  delicto ;  apenas  desejo,  e  espero 
da  Providencia,  que  fiquem  de  todo  esmagadas  as 
calumnias  infernaes  com  que  o  fizeram  horrendo ! 

N'esses  dias  pedirei  a  algumas  das  tuas  cartas  a 
coragem  com  que  ellas  me  salvaram  já. 

Abraço-te,  meu  querido  amigo.  Peço-te  que  faças 
com  que  os  teus  filhinhos  orem  a  Deus  para  que 
me  dê  o  heroismo  sereno  de  que  eu  preciso  para 
esta  grande  provação  do  meu  julgamento.  Adeus. 

Os  meus  affectos  á  snr.'^  D.  Anna.  Parte  do  meu 
coração  está  comvosco. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo, 

As  tuas  cartas  são  a  minha  vingança  e  o  meu 
desforço,  ou  antes  —  que  eu  sinto  sinceramente  que 
o  desforçar-se  ou  vingar-se  a  gente  de  tal  socieda- 
de é  descer  ao  nivel  d'ella  —  são  ellas  a  consolação, 
a  companhia,  o  amparo  dos  meus  confortos  inte- 
riores. 


Correspondência  epistolar  i53 

Eu  bem  sabia  para  que  serviria  ao  advogado  a 
Biographia.  Escrevi  atrapalhadamente,  se  te  dei  a 
entender  cousa  contraria  ao  que  me  dizes  hoje. 

E'  certo  que  o  juiz  marcará  dia  n'este  mez  para 
o  julgamento.  Suspeito  porém  que  a  parte  diga  a 
uma  das  testemunhas  que  não  compareça,  não 
prescinde  d'ella,  e  provocará  assim  o  adiamento 
para  fevereiro.  Gomo  infâmia  espero-a,  como  per- 
seguição agradeço-a  a  Deus.  Veremos. 

Li  com  satisfação  a  carta  do  Germano.  Devol- 
vo-t'a.  Gooperarei  comtigo,  sem  que  elle  o  saiba,  no 
seu  despacho.  Sei  que  elle  é  concorrente  a  um  lu- 
gar na  Relação  do  Porto.  Pedirei  muito  ao  Pereira 
de  Miranda  que  o  proteja,  e  mostrarei  que  é  me- 
nor a  conveniência  do  Germano  do  que  a  d'elle  e  a 
do  seu  partido. 

Continuam  a  perseguir-me.  Fazia-me  companhia 
na  enfermaria  aonde  estou  o  Pedro  dos  Reis.  Con- 
cedera o  carcereiro  que  elle  viesse  aqui  ficar  ás 
noites.  Agora  mesmo  levanta  essa  licença,  e  sei  que 
é  por  ordem  do  procurador  régio.  Faz  hoje  mesmo 
seis  mezes  completos  que  entrei  n'esta  casa.  Será 
a  próxima  noite  a  primeira  que  ficarei  só.  Deus  não 
me  foge  da  razão,  espero-o,  mas  afflige-me  isto. 
Acresce  que  li  hontem  na  Correspondência  de  Por- 
tugal de  20  de  maio  o  que  alli  se  publicou  contra 
mim.  Entre  as  injurias  que  já  te  relatei,  e  de  que  se 
fez  echo  o  advogado,  avulta  esta:  «Suspeita-se  que 
V.  de  Castro  assassinara  de  combinação  com  o. . .  * 
que  se  vai  rindo  caminho  de  Paris!» 


1  O  jornal  referido  citava  o  nome  de  José  Maria  d' Almeida 
Garrett. 

(Nota  do  editor). 


1^4  Correspondência  epistolar 

Chega  a  ser  providencial  esta  infâmia.  Se  eu 
quizesse  defender-me,  querendo  esganar  ás  minhas 
mãos  o  miserável  de  quem  me  faz  parceiro  o  ulti- 
mo dos  negros  da  imprensa  do  mundo,  a  defeza 
seria  essa.  Villões!  negríssimos  villões! 

O  Jayme  caminha  para  o  ideal  da  minha  defeza, 
segunda  me  consta.  Hontem  namorava-o  a  idéa  de 
não  apresentar  uma  testemunha,  de  não  offerecer 
um  documento.  Ouviu  o  meu  coração ! 

Suspeita-se  uma  infamissima  insidia  na  apre- 
sentação do  Moraes  Leal  e  dous  villões  que  são 
dados  com  elle,  sem  se  saber  para  quê,  homens  da 
plebe. 

Adeus,  meu  querido  Camillo.  Beija  o  teu  Jorge 
por  mim. 

Abraço-vos. 

Teu 

José  Caridoso, 


Meu  Camillo, 

Deves  ter  recebido  hoje  a  carta  que  hontem  te 
escrevi  em  resposta  á  tua  ultima. 

Vou  pedir  um  grande  obsequio  á  tua  boa  alma 
tão  solicita  a  favor  d'estranhos. 

Peço  te  que  ponhas  o  teu  nome  no  memorial  in- 
cluso, e  o  mandes  ao  Alves  Matheus  acompanhado 
de  uma  carta  de  verdadeiro  empenho  a  favor  d'esse 
padre,  que  elle  já  conhece,  mas  por  quem  se  inte- 
ressará só  depois  do  teu  pedido. 

Este  padre  é  o  que  vem  hoje  romanceado  na 
carta   de  Lisboa  do  Primeiro  de  Janeiro,  Tem-me 


Correspondência  epistolar  i55 

feito  boa  companhia,  e  eu  tinha  verdadeira  vontade 
de  servil-o: 

Adeus.   E'   o   dia   28   o   destinado  para  o  julga- 
mento. Não  sei  porém  se  o  adiarão. 

Saudades  e  aíFectos  meus. 

Teu 

'Vieira  de  Castro, 


Meu  querido. 

Tenho  duas  cartas  tuas.  Faz-me  bem  vêr-me  tão 
altamente  applaudido  por  ti.  Nada  tenho  com  o 
mundo.  Não  é  por  isso  que  me  faz  bem.  Mas  dou 
contas  á  minha  consciência,  e  fico  sereno,  se  as 
boas  almas  e  os  grandes  espiritos  como  tu  enten- 
dem que  a  minha  desgraça  teve  pelo  tumulo  res- 
peitos dignos  dos  extremos  que  o  meu  amor  dera 
sempre  aos  dias  da  felicidade. 

Lê  na  minha  alma.  A  minha  alma  é  uma  cousa 
immensa.  Eu  entendo  que  ficaram  no  mundo  o 
corpo  que  penou,  e  as  deliberações  frias  da  alma 
que  trahia.  Para  o  céo  passou  a  parte  pura  do  es- 
pirito que  Deus  haverá  recebido.  Eu  choro  essa. 
Não  sei  se  é  virtude,  se  é  fraqueza  \  sei  e  sinto 
que  é  um  luto  irreparável  nos  dias  do  meu  destino. 

O  que  me  vale  são  as  minhas  visões.  Vejo-a  a 
mirar-me,  do  céo  á  vontade  com  que  cu  me  amor- 
talho para  que  no  decoro  do  meu  infortúnio  nin- 
guém deixe  de  ver  que  a  amei  immensamente. 
Quando  a  minha  dor  me  diz  sempre,  e  ao  cabo  de 
tudo,  que  o  meu  crime  era  o  meu  dever,  e  orgu- 
lho único  possivel  da  memoria  d'ella,  e  o  pudor  e 


i56  Correspondência  epistolar 

a  dignidade  de  ambos,  o  meu  anjo  da  guarda 
acrescenta:  <e  a  redempção  d'ella  das  angustias  in- 
fernacs  que  a  despedaçariam  viva,  quando  sobre 
o  coração  lhe  despenhasse  Deus  o  peso  de  sua 
culpa!» 

Ah!  isto  sobretudo  me  dá  toda  a  serenidade  da 
minha  alma,  meu  bom  e  querido  consolador. 

Quando  vieres  a  Lisboa  traze  a  Nossa  Senhora 
de  Lourdes,  se  te  lembrar. 

Não  venhas  aqui  sem  que  possas  fazel-o.  Peço-te 
encarecidamente  isto. 

Adeus. 

Receberias  uma  carta  minha  que  levava  outra 
para  o  Freitas  Costa? 

Receberei  com  grande  prazer  a  carta  da  nossa 
boa  amiga  que  me  promettes. 

Lembro-me  com  muitos  aífectos,  e  abraço-te. 

Teu 

José. 


^eu  querido  Camillo. 

Quem  me  dera  pôr  já  as  minhas  lagrimas  no  teu 
drama  e  no  teu  livro!  Com  a  tua  justiça  folgo  cu 
de  que  os  outros  me  insultem. 

O  Diário  de  V^pticias  continua  hoje  a  tratar-me 
pelo  mesmo  modo  por  que  tratava  o  João  Brandão. 
Deixal-os,  os  miseráveis!  Magoavam-me,  se  eu  fi- 
zesse melhor  conceito  dos  que  os  lêem. 

O  libello  da  parte  que  me  accusa  é  miserável. 
Apresenta  cartas  minhas  á  familia  do  Rio  que  fa- 
zem chorar  um  perverso.  Foram  as  peores  que  en- 


Correspondência  epistolar  iSj 

centraram!  N'uma  digo  que  o...  foi  infame  com- 
mjgo.  N'outra,  fallando  de  politica,  dizia  a  meu 
sogro:  que  continuávamos  a  exhibir  mau  rei,  mau 
parlamento,  mau  governo  e  mau  povo!  As  cartas 
são  oíferecidas  provavelmente  para  me  delatarem. 
Pois  Deus  pôde  presidir  a  isto  que  é  a  vida  de 
barro  ? 

A  Biogi^aphta  toma  grande  parte  no  libello.  Es- 
tão marcadas  todas  as  paginas  em  que  fallo  da  nossa 
boa  amiga. 

Dos  empenhos  principaes  do  advogado  o  pri- 
meiro é  mostrar  que  sou  impio  e  atheu. 

No  opúsculo  A  Republica  está  marcada  uma  nota 
em  que  eu  digo  ter  visto  em  Nev^-York  a  cadeira 
do  Washington,  que  é  alli  venerada  como  reliquia. 
Isto  é  uma  das  provas  que  tem  o  homem. 

De  tudo  só  me  são  amargas  as  calumnias,  que 
o  Jayme  perguntará  no  tribunal  em  nome  de  quem 
são  ditas. 

Dizem  que  grande  parte  das  jóias  recebidas  no 
Rio  são  as  que  eu  depositei.  Ora  não  só  são  todas, 
mas  muitas  outras.  Eu  de  mim  puz  lá  os  botões 
da  camisa,  e  o  relógio. 

Dizem  que  commetti  o  crime  porque  estava  ar- 
ruinado! A  minha  ruina  eram  loo  libras  por  tri- 
mestre, uma  legitima  a  receber,  essas  jóias,  uma 
quinta,  etc. 

Diz  o  infame  que  a  senhora  fallecida  me  não  que- 
ria quando  casou !  Como  se  o  meu  crime  não  fosse 
pelo  meu  caracter  a  resposta  triumphante!  Se  eu 
fosse  um  infame  como  elles,  e  quizesse  pôr  a  des- 
coberto o  tumulo  que  estará  sempre  por  detraz  do 
meu  peito,  que  enorme  confusão  em  que  os  po- 
ria eu! 


j58  Correspondência  epistolar 

O  Jayme  deve  de  ser  sublime!  A  minha  conso- 
lação é  saber  —  sentir  que  lhe  dou  na  minha  ver- 
dade todos  os  elementos  do  seu  immenso  trium- 
pho. 

Isso  é  o  que  importa.  A  minha  liberdade  ou  o 
meu  desterro,  isso  é  cousa  minima,  porque  eu  con- 
tinuo a  não  saber  qual  será  melhor. 

As  testemunhas  de  accusação  que  arranjaram 
contra  mim  são  o  Philippe  de  Carvalho  da  Corres- 
pondência de  Tortiigal,  e  o  Moraes  Leal,  redactor 
do  Mosquito. 

Juntaram  ao  processo  uma  carta  do  António,  em 
que  elle  diz  para  o  Rio  que  o  primeiro  é  o  mais  vil 
canalha  que  conhece ! 

O  segundo  é  um  para  quem  eu  em  Coimbra  uma 
vez  apontava  á  porta  de  uma  loja,  perguntando  ao 
dono  d'esta  se  também  se  vendia  aquelle  traste ! 

Em  fim,  será  como  Deus  quizer. 

Recebo  qualquer  melhora  tua  como  um  presente 
opulento.  O  Jorgesinho  viverá.  E,  se  morresse, 
melhor.  Pois  tu  não  sentes  dentro  de  ti  a  vontade 
sincera  de  ver  morrer  as  criancinhas  que  sincera- 
mente amas?  Eu  tremia  hoje  diante  da  responsabi- 
lidade tremenda  de  me  fazer  pai. 

As  tuas  cartas  são  todas  de  uma  deliciosa  estima 
que  profundamente  me  commove. 

Sou  gratíssimo  ao  interesse  da  nossa  querida 
amiga. 

Abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro, 


Correspondência  epistolar  i5g 

Meu  querido  Camillo, 

No  meio  de  tudo  é  santo  e  consolador  ter  uma 
aíFeição  que  nos  comprehenda,  e  grande  compensa- 
ção que  essa  esteja  em  homem  do  teu  entendimento 
e  da  tua  alma  ! 

Não  sei  porque  viste  tamanho  desanimo  na  minha 
carta.  Sincera  e  friamente  a  escrevi.  Crê.  O  que 
alli  se  refere  á  convicção  da  minha  justiça,  ao  que 
eu  faria  se  essa  convicção  não  fosse  certeza,  á  im- 
potência dos  meus  inimigos,  e  a  tristeza  fatal  de 
mim  próprio,  tudo  isso  é  assim,  mas  não  é  menos 
nem  mais  do  que  eu  te  disse.  Não  tento  illudir-te, 
nem  condenso  de  mais  as  névoas  do  meu  destino. 
Este  tem  o  seu  farol  frouxo  e  triste  a  chamal-o  do 
Ermo,  d'onde  me  sinto  ainda  muito  distante.  Se  eu 
lá  chegar,  parece-me  que  não  serei  dos  maiores 
desgraçados.  Aqui  tens  como  eu  placidamente  penso 
e  calculo  sem  inventar  os  caminhos  do  meu  porto. 

O  que  me  pesa  é  não  me  mandares  tu  para  alli- 
vio  d'esta  pesada  jornada  a  boa  nova  das  tuas  com- 
pletas melhoras.  Veremos  o  que  sentes  em  Villa  do 
Conde.  Quando  d'ahi  fores  ao  Porto  passarás  pelos 
sitios  que  eu  mais  não  poderei  ver  *. 

Teu 

José. 


Meu  querido, 

Sinto-me   atribulado   diante  do  enxovalho  —  ahi 
vai  esse. 

Todavia   quer  Deus  que   eu  vá  ao  de  cima  da 


*  AUude  á  quinta  de  Moreira. 


i6o  Correspondência  epistolar 

onda  dos  ódios.  Se  me  passar  por  cima  da  cabeça, 
irá  com  ella  a  razão,  e  isso  lhe  peço  eu  que  não 
com  as  lagrimas  mais  puras  da  minha  alma. 

E  certo  que  serei  condemnado,  e  já  particular- 
mente pedi  o  degredo  ao  juiz. 

Escreve-me  todos  os  dias.  Eu  não  era  vulto  para 
tamanho  martyrio.  Começo  a  pensar  que  Deus 
premeia  o  meu  immenso  infortúnio.  Se  não  é  prin- 
cipio de  loucura.  Deus  alimente  em  mim  esta  sal- 
vadora visão. 

Recebi  a  tua  carta.  Adeus. 

Teu 

José. 


Meu  filho, 

Fizeram-me  a  vontade.  O  meu  infortúnio  con- 
quistou uma  passagem  gratuita  para  Loanda,  aon- 
de quererá  Deus  que  a  minha  palavra  se  inspire  ao 
serviço  de  desgraçados.  Ha  24  horas  que  eu  ouvi 
ler  a  minha  sentença.  Foi  então  que  pela  primeira 
vez  ergui  a  cabeça  no  tribunal,  que  a  minha  cons- 
ciência appareceu  na  minha  fronte,  e  que  Deus  pôz 
nas  minhas  palavras  a  serenidade  do  meu  animo  c 
a  tranquillidade  do  meu  triumpho. 

Jayme  de  fendeu- vos  como  a  mim,  com  o  coração 
e  com  a  alma.  E'  um  monstro  este  rapaz.  la-me 
despedaçando. 

Quando  vens  a  Lisboa? 

Eu  quero  partir  quanto  antes. 

Tenho  as  tuas  cartas. 

Adeus.  Abraço-vos. 

Teu 

José, 


Correspondência  epistolar  i6i 

Meu  Camillo. 

Recebi  a  carta  da  snr/  D.  Anna.  Hei  de  escre- 
ver-lhe.  Hoje  estou  em  mudança  de  um  lugar  para 
o  outro. 

Dize-me  se  recebeste  a  carta  que  te  escrevi  de- 
pois da  minha  condemnação.  Devias  recebel-a  no 
sabbado  ou  domingo. 

Aceito  de  Deus  as  sympathias  que  a  opinião  dá 
ao  meu  infortúnio  nas  ovações  com  que  recebe  o 
teu  drama.  Por  ora  estou  sereno.  Deus  continua  a 
estar  na  minha  consciência  e  na  minha  razão.  As- 
sim me  não  desampare  nunca ! 

De  resto  a  minha  dor  é  toda  a  minha  alma,  e 
sei  que  não  sahirei  nunca  fora  d'ella ! 

Suspiro  por  vêr-te  ao  pé  de  mim.  Estimo  a  noti- 
cia que  me  dás. 

Deus  continue  as  tuas  melhoras. 

Adeus.  Aceitem  o  meu  coração  agradecido. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 

Quando  chegou  a  tua  carta  no  sabbado  tinha 
commigo  o  Jayme.  Este  rapaz  é  colossal.  Li-lh'a. 
Elle  estava  sentado  n'aquella  nossa  velha  voltaire, 
e  ás  ultimas  palavras  tuas  cosia  se  com  ella  para 
comprimir  nas  paredes  do  peito  o  vagalhão  das  la- 
grimas que  eu  lhe  ouvia  a  atropellar-se  lá  dentro. 
Tremiam-lhe  os  lábios,  e  a  fronte  immensa  fez-se- 
Ihe  da  cor  da  morte  como  sempre  que  aquelle  for- 

VOL.  I  1 1 


102  Correspondência  epistolar 

mosissimo  coração  é  tocado  por  um  raio  de  luz  su- 
perior, ou  por  um  gemido  de  santa  piedade.  Esta 
alma  é  um  anachronismo  n'estes  tempos  E*  im- 
mensa. 

Uma  hora  depois  pedia-lhe  eu  pela  segunda  vez 
o  seu  retrato.  A'  primeira  tinha-se  ficado  a  olhar 
para  mim  enleado  por  novas  convulsões  da  sua 
physionomia,  c  eu  suppuz  que  era  ainda  o  enterne- 
necimento  em  que  o  punha  o  teu  pedido.  Não  era. 

Contou-me  a  seguinte  historia : 

Antes  de  partir  da  ilha  para  Portugal,  ha  annos, 
pedira-lhe  a  mãi  o  retrato.  Elle  promettera  man- 
dar-lh'o  d'aqui.  Passou  muito  tempo  sem  cumprir 
a  promessa.  Havia  n'clle  uma  repugnância  invencí- 
vel a  retratar-se.  O  seu  espirito  originalíssimo  via 
ahi  uma  vaidade  de  que  as  razões  em  contrario  não 
logravam  desconvencel-o. 

Foi  para  Coimbra.  Adoeceu,  e  o  presentimento 
da  morte  persuadiu-o  a  favor  da  santa  pretenção 
da  estremecida  senhora,  e  do  justo  desejo  já  então 
de  muitos  admiradores  e  amigos  seus.  Quando  ia  a 
preparar-se  para  o  retratista  cahiu  de  cama.  Sen- 
lou-se  por  vezes  a  morte  á  sua  cabeceira.  Quando 
a  elle  lhe  pareceu  que  a  visita  era  sincera  e  de  vez, 
escreveu  duas  linhas  á  pobre  senhora  pedindo-lhc 
o  seu  derradeiro  perdão  e  a  sua  ultima  benção. 

O  retrato  não  ia. 

Poucos  dias  depois  a  mãe  entrava  no  céo,  á  pro- 
cura d'elle,  para  lhe  perdoar  e  abençoal-o.  Ella  mor- 
reu, e  elle  escapou. 

Mais  tarde  volvera  o  pae  a  pedir-lhe  o  retrato. 

«Levou-o  minha  mãi  para  o  céo!»  Resposta  d' a- 
quelle  espirito  angélico. 

«Aceitarás   tu  e  o  Camillo  com  um  abraço  a  mi- 


Correspondência  epistolar  j63 

nha  recusa,»   tinha-me  elle  dito  antes  doesta  lacri- 
mosa historia. 

Eu  abracei-o.  Tu  abraçal-o-has  quando  vieres. 

Deus  não  fuja  nunca  da  minha  alma  com  estes 
santos  enlevos !  Que  suavíssimo  orvalho  de  lagri- 
mas !  Já  me  úz  da  mai  d'elle  uma  outra  companhei- 
ra no  céo,  que  de  lá,  como  a  minha  na  terra,  con- 
ta desde  hoje  um  filho  a  mais! 

Se  a  desgraça  é  assim,  eu  peço  a  Deus,  de  joe- 
lhos e  de  mãos  postas,  que  me  deixe  ser  sempre 
desgraçado ! 

Adeus,  santo  consolador  da  minha  alma ;  beijo-te 
e  abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo, 

Não  demoro  um  instante  em  te  abraçar. 

Se  o  condemnado  tiver  um  dia  liberdade,  serás 
tu  o  primeiro  a  receber  as  tristezas  que  ella  me  ha 
de  produzir. 

Deus   te   dê  a  saúde.    E  a  mim  a  virtude  de  te 

ser  eternamente  agradecido ! 

Abraço-te  estreitamente. 

Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo. 

Escrevo-te  á  pressa.  Não  quero  que  amanhã  fal- 
te ahi  o  meu  abraço.  *  Elle  vae  de  mais  a  mais  ao 


*  Escrevia  na  véspera  de  Natal. 


j64  Correspondência  epistolar 

teu  peito  e  ao  da  minha  boa  amiga  agradecer  estas 
novas  lagrimas  que  me  fizeram  as  palavras  da  tua 
carta  de  hoje.  Deus  ha  de  querer  que  um  dia  ainda 
nos  abracemos  de  mais  perto ! 

Mando  agora  ao  Jayme  a  tua  de  hoje. 

Tenho  as  tuas  duas  ultimas.  Conheces-me  e  ava- 
lias-me  profundamente ! 

Adeus,  meu  filho. 

Abraço-vos  muito  contra  o  meu  peito.  Beijo  mui- 
to as  creancinhas. 

Teu 

José. 


oMeu  querido  Camillo. 

Recebi  a  tua  ultima  cartinha.  Li  hontem.  no  Pri^ 
meiro  de  Janeiro  uma  cousa  adorável  tua,  como  tu- 
do teu.  Os  estrondos  da  tua  cabeça  são  como  os 
do  céo.  Orvalham-te  o  estylo  e  enchem-no  de  pé- 
rolas. 

Dizem-me  que  vai  o  teu  drama  depois  d*amanhá 
e  que  ha  grande  anciedade  de  vêl-o.  Eu  conto  os 
dias  que  me  separam  da  tua  nova  publicação  acer- 
ca do  meu  infortúnio.  Quando  pouco  mais  ou  menos 
chegará  ? 

Aonde  moram  ?  Gomo  está  a  snr.*  D.  Anna  ? 
Meus  queridos  dias  de  Seide  !  Pois  ainda  alli  nos 
juntaremos  d' aqui  a  lo  annos  ? 

Abraço- te. 

Teu 

José. 


Correspondência  epistolar  i65 

Meu  querido  Camillo. 

Eu  tenho  as  tuas  42  cartas  com  um  prologosinho 
para  os  meus  sobrinhos,  que  hão  de  lêl-as  com  to- 
das as  outras  que  o  teu  providencial  coração  man- 
dou ao  meu  cárcere.  Não  me  separo  d'ellas. 

Pôe  uma  ou  outra  no  Condemnado,  sim  ?  Que  im- 
porta isso  á  tua  immensidade  ?  Tudo  quanto  escre- 
vas é  santo  para  mim !  Sei  que  me  farás  isto. 

Quando  estará  impresso  o  drama  ? 

Tn  bem  sabes  o  que  a  minha  alma  estimará  ou- 
vir da  justiça  da  tua.  Adeus. 

Abraço-te. 

Teu 

Vieira  de  Castro. 


Meu  querido  Camillo. 

Respondo  á  tua  de  hoje.  Não  posso  demorar  este 
novo  agradecimento  que  tu  santamente  impões  ao 
affecto  que  te  tenho  e  á  gratidão  que  te  devo. 

Considero-me  feliz  quando  medito  que  Deus  me 
concede  contemplar  em  vida  estas  perpetuas  bên- 
çãos que  tu  estás  compondo  para  a  minha  sepul- 
tura. 

Ainda  não  vi  o  Condemnado.  Não  me  disseste 
que  estava  a  imprimir-se?  Quando  virá? 

Eu  tenho  immensa  vontade  de  pôr  as  minhas  la- 
grimas nas  tuas  doces  paginas. 

Doe-me  do  coração  que  te  oífendam  por  amor  da 
tua  dedicação  por  mim. 

Não  me  surprehendem. . .  Crê  porém  que  mui- 
tos amigos  e  admiradores  teus,  que  tu  nem  conhe- 


i66  Correspondência  epistolar 

ces,  folgam  de  não  vêr  levantada  no  teu  nome  uma 
cousa  c(ue  ahi  anda  tão  baixa  e  ridiculamente.  Eu 
sinto-me  lançado  para  o  numero  d'esses. 

Já  sabia  que  levavam  aqui  o  Condemnado,  Se 
Deus  permittisse  que  elle  me  desse  aqui  a  estima 
de  muitos  corações  como  eu  sei  que  succedeu  no 
Porto !  Eu  hoje  não  quero  senão  a  estima  e  amor 
de  todos.  E'  por  isso  que  aguardo  com  muito  aba- 
lo o  resultado  das  representações. 

Os  meus  aíFectos  e  respeitos  á  nossa  querida 
amiga. 

Beijo  os  pequerruchos,  e  abraço-te,  meu  bom  e 
adorável  Gamillo. 

Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo. 

Beijo  a  tua  mão,  meu  querido  filho  da  minha  al- 
ma, e  ponho  n'ella  estas  lagrimas  suavíssimas  que 
sahem  da  minha  alma  para  lá  caberem  bem  claras 
estas  santas  e  preciosíssimas  palavras  da  tua  dedi- 
catória. 

Obrigado,  meu  querido  Camillo.  Crê,  porém, 
que  eu  mereço  isto  que  me  dizes.  Sou  muito  infeliz, 
e  a  consciência  ainda  me  não  convenceu  que  mere- 
cia sêl-o  tanto. 

Mas  não  te  afflijas.  Eu  sinto-me  tranquillo.  Quero 
dizer-te  uma  cousa  que  deve  consolar-te.  A  desgra- 
ça faz-me  extremamente  bom.  Essa  virtude  sinto-a 
em  mim,  e  agradeço-a  de  joelhos  e  de  mãos  postas 
a  Deus !  Quando  vieres  tu  verás  que  te  não  minto. 

A  sociedade   fez  um  grande  heroísmo  commigo. 


Correspondência  epistolar  lôj 

Não  foi  dar-me  a  reparação  das  injurias.  Foi  não  a 
esconder,  e  confessai  a.  De  toda  a  parte  me  asse- 
veram que  sou  estimado  e  querido.  Eu  sinto-me 
pois  bom  para  todos,  e  peço  a  Deus  que  me  deixe 
morrer  assim.  No  Porto  sei'  eu  que  devo  tudo  a  ti. 
Toda  a  gente  m'o  assevera,  e  diz-m'o  hontem  o  An- 
tónio n'uma  carta  cheia  de  commoção  pelo  immen- 
so  que  te  devemos. 

Todas  as  cartas  que  me  chegam  d'alli  vem  es- 
criptas  com  as  lagrimas  que  o  teu  drama  fez  chorar. 

Abraço-te  e  beijo-te  fervorosamente. 

Adeus.  E  a  nossa  boa  amiga  ?  Vou  escrever-lhe. 

Beija  as  criancinhas.  Devo  á  oração  d'ellas  a 
tranquilla  serenidade  dos  meus  trcs  dias  de  orató- 
rio. Beija-as  outra  vez 

o  teu  pobre 

Vieira  de  Castro, 


Meu  querido  Camillo. 

O  drama  cegou-os !  O  esplendor  era  de  mais, 
e  por  isso  mais  mortal  o  anathema  jurado  a  tama- 
nha luz !  Esta  foi  a  impressão,  ao  que  calculo  do 
que  ouço  e  leio  com  o  meu  silencio  profundíssimo. 

Dir-te-hei  tudo  o  que  souber,  porque  entendo 
cumprir  um  dever .... 

Na  impotência  da  analyse  malévola  ahi  tens  o 
que  chega  aos  meus  ouvidos: 

i.*^  Jorge  devia  perdoar. 

Isto  prova  o  que  esta  gente  é!  Hontem,  conver- 
sando com  o  Jayme,  dizia-lhe  eu:  Quando  cheguei 
ao  fim  do  drama  afoguearam-se-me  as  faces  quando 


iG8  Correspondência  epistolar 

me  lembrei  que  poderiam  vêr-me  no  homem  que 
permittia  ao  infame  chorar  por  ellal  Quanto  mais 
perdoar!  —  E  dizia-lhe  a  verdade. 

Devo  porém  dizer-te   que   depois,  a  sangue  frio, 
e  apanhando   melhor   a  synthese  da  tua  concepção 
mui  differente  da  minha  historia,  approvei  tudo. 
Isto  tinha  muito  mais  que  dizer,  mas  que  é  inútil. 
2.°  Os   vinte   annos   de    degredo  dão  a  entender 
que  era  a  sentença  que  se  esperava  contra  mim! 
Ah  Cambronne,  Cambronne ! 
3.°  O  drama  parece  a  apotheose  do  infamei 
Esta  ultima  revela  profundamente  duas  cousas: 
I.*  o  ódio  infernal  contra  o  ferro  em  braza;  2.*  a 
impotência  absoluta  de  fazer  brecha  na  tua  obra. 

Mas  não  é  nada  d'i.sto.  E'  tudo  quanto  diz  a  vis- 
condessa de  Pimentel  pela  voz  arripiadora  d'aquella 
infernal  Gertrudes  que  estava  no  mundo  para  ser  o 
echo  das  tuas  apostrophes.  Creio  que  vai  admira- 
velmente. 

Ahi  tens  a  verdade,  segundo  penso. 

O faz   o   mal    que    pôde    no   Jornal   da 

Noite.  No  sabbado  dizia  que  não  havia  publico  no 
dia  antecedente,  e  inspirava  ao umas  insi- 
nuações que  vinharTi  no  folhetim. 

Consta-me  que  ha  conspiração  para  não  irem  se- 
nhoras ao  theatro,  e  isto  teve  em  grande  parte,  se- 
gundo calculo,  origem  na  cabeça  fecunda  de... 

Perdoa,   filho.    Eu   o   que   sentia  era  que  estes 
maus  me  tirassem  a  bondade  com  que  quero  mor- 
rer. 
Beijo-te,  meu  filho. 

Teu 

José, 


Correspondência  epistolar  i6g 

Meu  filho. 

Ahi  te  mando  o  folhetim  do  Júlio.  Beijo-te,  meu 
adorado  cantor,  e  pai. 

Se  não  fosse  por  ella,  uma  outra  desgraça  qual- 
quer, maior  ainda,  quasi  que  seria  um  bem  com  o 
orgulho  e  com  a  gloria  das  tuas  azas  por  cima! 

Imagina  a  minha  surpreza  ao  lêr  os  teus  inspira- 
dos versos. 

Adeus.  Abraço-te  estreitamente,  meu  adorado 
Camillo.  Os  meus  aíFectos  á  nossa  amiga. 

Pois  Deus  ainda  nos  mandará  um  dia  ahi,  ou  a 

Seide?  Oxalá! 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo, 

Escrevi-te  ha  pouco  depois  de  lêr  as  primeiras  e 
as  ultimas  paginas  do  teu  opúsculo  *. 

Li  agora  a  narrativa.  Senti  o  pavor  que  me  dei- 
xaria uma  pagina  do  Hoffmann  ou  do  Poê ;  e  sinto 
o  presentimento  doloroso  de  vêr  com  aquella  histo- 
ria apunhalar  o  teu  coração  e  o  meu  ouvido! 

O  teu  livro  prova  uma  these.  Matar  é  supremo 
bem,  comparado  ao  supplicio  da  vingança.  Provas 
com  a  suprema  eloquência. 

A  tua  historia,  porém,  figura  uma  mulher  que 
diz  ter-se  casado  violentada;  e  o  marido  não  prova 
o  contrario,  dizendo  mesmo:  como  quer  que  fosse, 
etc. 

Ora  eu  não  absolvo  em  caso  nenhum  a  queda  da 


•  Allude  ao  livrinho  intitulado:  Voltareis^  ó  Chrisío? 


770  Correspondência  epistolar 

esposa;  mas  também  não  dou  direitos  nenhuns  ao 
marido  que  aceita  a  violência.  São  as  minhas  velhas 
theorias  que  muitas  vezes  me  ouviste.  Pôde  dizer- 
se:  mas  se  este  marido  ainda  assim,  suppliciou,  que 
maior  direito  não  tinha  de  matar  o  marido  perfeito? 
De  accordo.  Isto  é  um  reforço  da  these. 

Mas  se  aquella  mulher  dissesse  ao  padre :  «eu 
amei,  e  fui  amada;  pequei  por  allucinação»,  nem 
haveria  prejuízo  para  a  these,  nem  os  horrores  do 
castigo  pareceriam  tão  tremendos ! 

Agora  o  meu  presentimento  é  este:  os  maus  e 
inimigos  quererão  apropriar  em  mim  aquella  histo- 
ria, e  podem  tentar  afogar  com  aquella  denuncia  de 
violência  a  prova  em  contrario  que  deixou  o  meu 
processo.  A  apropriação  da  liistoria  occorrer-lhes-ha 
de  outras  analogias,  e  elles  infamemente  calarão  as 
dessemelhanças. 

Perdôa-me.  Leio  na  tua  alma,  e  por  isso  sei  que 
não  recusarás  o  teu  peito  a  este  desabafar  de  do- 
res antecipadas  que  eu  começo  a  sentir  por  ti  e  por 
mim. 

Reportando-me  acima:  se  aquella  mulher  dissesse 
as  palavras  que  escrevi,  dizia  a  verdade  da  minha 
historia,  justificava  o  supplicio  soffrido,  e  dava  todo 
o  relevo  á  differença  do  meu  castigo. 

Eu  digo-te  isto  porque  receio  até  que  haja  duvida 
minima  no  teu  espirito  acerca  d'isso. 

Agora  me  occorre  uma  cousa  tremenda!  Se  al- 
guém suspeita  de  que  tu  não  tens  convicção  pro- 
funda de  que  não  fosse  violentada  a  senhora  que 
casou  commigo  !  Pela  saudade  d'ella,  que  não  quero 
perder,  te  juro  que  é  verdade  absoluta  em  relação 
a  nós  isso  que  eu  digo  que  poria  na  mulher  da  tua 
narrativa. 


Correspondência  epistolar  lyi 

Tenho  pena.  Parece-me  que  nada  alterava  a  his- 
toria, e  antes  aperfeiçoava  a  tua  immensa  demons- 
tração. 

O  que  eu  sinto  é  a  pedrada  dos  maus,  que  ex- 
plicarão pela  vingança  a  queda  de  quem  morreu.  E 
não  foi  assim,  não,  coitadinha! 

Com  pequena  alteração  o  teu  opúsculo  deve-me 
conso*lações  infinitas. 

Não  te  magoes,  filho.  Eu  vejo  acima  de  tudo  o 
dever  de  te  abrir  a  minha  alma. 

Teu 

José, 


Meu  querido. 

Ainda  trémulo  com  a  leitura  das  primeiras  e  das 
ultimas  paginas  do  teu  divino  opúsculo,  corro  a 
acudir  por  mim,  e  pelo  teu  socego  sobresaltado 
com  a  minha  ultima  carta. 

Pois  quê,  filho  ?  A  tua  ultima  pagina  é  a  minha 
theoria.  Deus  me  livre  de  ter  sentido  a  premedita- 
ção  fria,  como  entendeste  ! 

Essa  é  a  do  assassino  que  mata  para  roubar ! 

A  premeditação  que  eu  defendo  é  aquella  que  tu 
explicas  a  despedaçar-se  a  cada  estrondo,  mas  re- 
vivendo sempre  !  E  defendo  esta,  porque  tu  sabes 
que  esses  cadáveres  que  a  insultam,  não  admittem 
essa  mesma,  porque  não  querem  senão  a  loucura 
da  ra:{ão  para  desculpa !  Nós  defendemos  a  loucura 
do  amor  com  a  razão  infernalmente  clara  sobre  as 
ruinas  da  alma ! 

Pois  é  clarissimo ! 

Para  veres  que  senti  comtigo,  ahi  te  mando  essas 


i']2  Correspondência  epistolar 

linhas  escriptas  depois  da  carta  que  te  escrevi,  e 
que  me  interromperam.  A  premeditação,  sim,  mas 
a  premeditação — máximo  tormento,  que  é  o  que  tu 
sublimas  também,  negando  a  premeditação,  mas 
como  significado  do  que  vulgarmente  tomam  por 
isso. 

Isso  que  te  mando,  queria  eu  que  fosse  a  base 
de  um  livro,  que  se  chamasse  Claudina,  e  que  eu 
podesse  pôr  d'aqui  a  dez  annos  sobre  o  tumulo 
d'ella ! 

Esse  livro  devia  provar  que  o  meu  homicidio  era 
o  meu  ultimo  beiio,  que  a  sua  morte  era  a  sua  re- 
surreição ! 

Se  Deus  me  ensinasse  a  escrever  esse  livro ! 

Amanhã  te  escrevo.  Devo)ve-me  esse  papel  quan- 
do quizeres. 

Mil  beijos  a  essas  crianças ;  e  á  mãi  d'ellas  os 
meus  aífectos. 

Aceita  o  meu  coração. 

Agora  reparo !    Dizes  tu :  expliquei  o  que  foi  em 

TI   A  PREMEDITAÇÃO  ! 


Exactamente ! 


Teu 
José. 


Meu  querido  Cnmillo. 

Depois  de  te  escrever  ante-hontem  é  que  me 
occorreu  que  tu  não  poderias  entender  todos  os 
meus  sustos  por  não  poderes  mesmo  frisar,,  como 
eu,  todas  as  semelhanças  que  ha  na  Narrativa  com 
a  mais  atroz  das  calumnias  com  que  quizeram  fe- 
ri r-me. 


Correspondência  epistolar  lyS 

Ora  em  primeiro  lugar  partamos  da  base  :  se 
aquella  historia  é  verdadeira,  é  inútil  todo  o  arra- 
zoado, e  entende-se  bem.  Se  é  ficticiá,  os  estúpidos 
perguntarão  como  ella  é  de  tal  modo  architectada. 
Ora  eu  sei  que  é  verdadeira,  mas  crê  que  muita 
gente  a  considerará  phantasiada. 

As  taes  semelhanças  são:  violentada  a  casar; 
meu  pai  sacrificou-me  cuidando  felicitar-me ;  querer 
casar  com  outro;  trahir  com  um  ainda  parente;  o 
qual  estudava;  que  quiz  fugir ^  mas  que  não  podia 
com  esse  encargo^  sendo  o  marido  deputado.  Tudo 
isso  a  calumnia  forjou  contra  mim  em  tempo. 

Ora  tudo  isto  é  fútil  para  nós,  mas  serviria  aos 
infames,  pensei  eu.  Deixa-me  porém  socegado  a  tua 
carta  de  hoje,  e  espero  em  Deus  que  seja  eu  o 
illudido. 

Mando-te  o  folhetim  do  Biester.  A  respeito  do 
Condemnado  já  te  disse  que  o  tenho  por  uma  mara- 
vilha assombrosa.  Eu  ou  hei  de  descrer  dos  teus 
males,  ou  hei  de  pedil-os  a  Deus.  Como  está  escri- 
pto  o  opúsculo :  Voltareis,  ô  Christo!  Os  teus  inter- 
vallos  de  silencio  são  como  os  do  cysne  debaixo 
d' agua ;  que  limpidez,  que  formosura,  que  eloquên- 
cia ao  emergires  de  novo ! 

Adeus,  filho.  N'esses  apontamentos  não  pude, 

porque  me  interromperam,   completar  a  base   do 

livro.  Mandei-t'os  logo  porque  eram  bastantes  para 

te  mostrar  que  eu  entendia  a  premeditação  como  tu. 

Abraço-te. 

Teu 

José. 


i']4  CorrespondencicL  epistolar 


Meu  querido. 

Que  adoráveis,  que  santas  palavras ! 

Abraço-tc  por  ellas,  e  quero  já  pedir-te  perdão 
da  magoa  que  de  certo  te  fizeram  estes  meus  últi- 
mos sustos.  Eram  naturaes.  Tu  mesmo  reconheceste 
o  direito  de  me  assustar,  não  foi  assim  ? 

Mas  é  que  a  minha  razão  fria  vê  agora  no  teu 
opúsculo  uma  outra  cousa  suprema:  é  o  quilate  da 
tua  convicção,  tua  e  do  publico,  acerca  das  purezas 
anteriores  do  meu  casamento,  quilate  tal  que  não 
admittiste  sequer  a  possibilidade  de  uma  disputa 
provocada  pela  narração  d'aquella  historia  aonde 
figura  uma  violência. 

Como  sabes,  o  que  me  affligiu  foram  todas  aquel- 
las  semelhanças,  que  eu  aposto  que  nem  tu  enten- 
deste todas  na  carta  que  hontem  te  escrevi.  Per- 
dôa-me. 

Tenho  gemido  de  frio. 

Peço  a  Deus  que  me  tire  do  mundo  antes  de  me 
levar  a  saúde. 

Como  está  essa  nossa  familia?  Abraça-vos  a  lo- 
dos com  saudade  o  vosso  eterno  amigo. 

José  Cardoso. 


Meu  querido  Camillo. 

Nós  só  podemos  consolar-nos  com  uma  esperan- 
ça. Se  eu  chegar  aos  dias  distantes  da  minha  liber- 
dade, e  tu  também,  c  podermos  voltar  a  Seide,  já 
velhos,  supprimindo,  se  Deus  nol-o  permittir  então, 
o  intervallo   que   vai   até  ahi  desde  a  hora  em  que 


Correspondência  epistolar  ij5 

eu  lá  deixei  o  meu  quarto,  quietos  e  tranquillos,  á 
espera  do  maior  descanço,  então  sim,  poderemos 
ter  talvez  uma  hora  de  paz,  de  alegria  mesmo,  da 
alegria  que  nos  é  licita.  Esta  alegria  devem  man- 
dar-nol-a  do  Rio,  ou  de  New-York  os  teus  filhos, 
que  tu,  depois  de  lhe  ensinares  humanidades,  con- 
fiarás de  uns  parentes  meus  *,  se  é  que  Deus  ainda 
me  reserva  no  mundo  essa  suprema  felicidade  de 
abrir  a  algumas  crianças  um  futuro  feliz  e  honrado, 
e  se  para  cumulo  de  tal  ventura  essas  crianças  de- 
vem de  ser  as  tuas.  Não  sei  se  isto  te  molesta,  se 
te  oíFenderá  mesmo.  Eu  estimaria  bem  que  te  con- 
tentasse. Tu  talvez  os  queiras  para  a  fama  e  para 
a  gloria.  Eu  arrancal-os-hia  das  chammas  d'essas 
Eumenides. 

A  tua  carta  sensibilisa-me  profundissimamente. 
O  que  é  estúpido  é  viver  assim!  Se  o  matar-se  a 
gente  não  fosse  uma  cousa  torpe,  mais  valeria  isso. 
Se  vivermos  com  os  teus  filhos  ainda  seremos  feli- 
zes com  elles,  quem  sabe? 

Eu  não  espero  nada  da  Relação ;  nem  também 
desespero.  Não  penso  n'isso  senão  quando  m'o 
lembram.  Dizem-me,  sem  que  eu  o  pergunte,  que  o 
meu  relator  é  um  grande  carrasco.  Talvez  por  isso 
resuscitem  para  o  meu  caso  a  pena  de  morte,  apro- 
veitando o  arrependimento  publico  do...,  e  ser- 
vindo assim  as  tendências  do  dito  sujeito  relator. 
Fazes-me  plena  justiça  esperando  que  me  não  ven- 
çam essas  minimas  misérias.   Com  a  minha  alma 


1  Um  d'estes  parentes  de  Vieira  de  Castro,  o  snr.  Oliveira 
Guimarães,  suicidou-se  em  Lisboa,  no  mez  de  julho,  de  1874, 
por  não  poder  sopesar  um  ultrage  feito  á  sua  honra  imma- 
culada. 


1^6  Correspondência  epistolar 

aberta  de  lado  a  lado  te  confesso,  meu  Camillo, 
que  só  duas  cousas  eu  desejava:  ou  a  liberdade 
absoluta  e  immediata,  ou  mais  dez  annos  de  de- 
gredo em  cima  dos  dez  que  ja  cá  tenho.  No  pri- 
meiro caso  convencer-me-hia  a  piedade  social,  e  eu 
respondia  triumphantemente  pelo  meu  infortúnio 
desterrando-me  então  voluntariamente.  No  segundo 
caso  estreitar-me-hiam  por  mais  tempo  com  as  mi- 
nhas saudades  e  com  o  meu  luto. 

Uma  cousa  detesto:  é  que  pensem  em  quantida-- 
des  de  penas,  em  me  arraçoar  o  tempo  de  desterro, 
mudando-me  villãmente  dez  annos  em  cinco,  como 
quem  se  diverte  a  espatifar  a  ultima  partilha  que 
me  coube  da  generosidade  social  depois  de  me  ter 
sido  espatifado  tudo  o  mais.  N'uma  palavra,  eu 
tenho  o  mais  profundo  desprezo  pelo  meu  destino, 
e  peço  á  immensa  generosidade  de  Deus  que  me 
deixe  este  punhado  de  lama  interior  em  que  se  me 
resolveram,  e  suppuraram,  sentimentos,  aspirações^ 
e  idéas. 

Adeus,  meu  filho. 

Beijo  a  mão  da  nossa  estremecido  e  boa  compa- 
nheira e  amiga. 


Beija  os  pequenos. 
Eu  abraco-te. 


Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo. 

Ahi  te  mando  mais  esse  feixe  de  parvoíces,  que 
vai  mesmo  no  farrapo  em  que  um  estanqueiro  crú,. 
mas  justo,  me  remettia  uns  40  charutos.  Eu  li  ape- 


Correspondência  epistolar  ijj 

nas  até  o  ponto  em  que  me  surge  como  ideal  o 
Othello,  cujo  suicídio  o  parvo  ignorou  ter  sido  pro- 
vocado pela  innocencia  reconhecida  de  Desdemona. 
A  litteratura  em  Lisboa  está  óptima  como  nunca! 
Os  estanqueiros  é  que  são  os  justos !  Logo  no 
mesmo  dia! 

Adeus.  Abraço-vos. 

Teu 

José. 


Meu  Camillo. 

Vejo  que  não  recebeste  hontem  a  carta  em  que 
logo  respondi  á  tua  amargurada,  em  que  me  pedias 
consolação.  Recebeste-a  já?  Dize-me  se  recebes  as 
minhas  cartas  nos  dias  immediatos  ás  datas  que 
lhes  ponho. 

Eu  respondi  no  mesmo  dia  á  tua  carta  triste. 
Hontem  também  te  mandei  outra  com  um  retalho 
de  gazeta  aonde  vinha  um  fallatorio  acerca  do  t€u 
drama. 

Concordo  plenamente  com  tudo  o  que  dizes 
acerca  do  Germano,  mas  elle,  na  publicação  do  fo- 
lheto, pôde  aproveitar  o  teu  conselho.  Da  critica 
que  lhe  fazem  não  me  admiro  nada. 

Abraça-vos  o 

vosso 

Vieira  de  Castro. 


VOL.  I 


ijS  Correspondência  epistolar 


Meu  querido  Camillo. 

Tenho  a  tua  cartinha  d'hontem  e  a  de  hoje. 
Respondo-te  á  pressa  porque  tenho  hoje  um  cor- 
reio enorme  p§ra  o  paquete  do  Brazil  que  segue 
amanhã. 

Li  hontem  ao  Jayme  as  tuas  meigas  palavras,  e 
elle  agríadece-f  as  mui  ternamente. 

Espero  com  anciedade  o  teu  folhetim,  que  hoje 
peço  ao  António  que  me  remetta,  pois  que  me  sus- 
penderam a  remessa  do  Primeiro  de  Janeiro. 

Beijo-te  e  abraço-te,  meu  filho,  pela  tua  incan- 
çavel  ternura  e  carinhosa  protecção. 

Teu 

José. 


oMeu  querido  Camillo. 
Que  hei  de  dizer-te? 

Estou  inundado  de  immensa  luz  que  tu  acumu- 
las sobre  mim,  e  tenho  pejo  de  citar  a  immortali- 
dade  com  receio  de  lembrar  a  minha  que  eu  deve- 
rei a  ti ! 

Isto  é  uma  cousa  immensa,  sobrenatural,  aterra- 
dora ! 

Tenho  duas  providencias  por  mim :  uma  é  Deus; 
a  outra  és  tu. 

Estava  o  Jayme  quando  chegou  o  Primeiro  de  Ja- 
neiro. Ficou  assombrado  ! 

Lá  levou  um  numero  que  eu  lhe  pedi  que  lesse 
ao  Rebello. 

E'  immortal  esta  tua  maldição  sobre  os  infames 
que  cuspiram !  (Nota  6.^).  Ainda  bem  que  tu  sur- 
ges assim  diante   d'esta   sociedade  corrompida  na 


Correspondência  epistolar  17 g 

medulla,  no  dia  immediato  áquelle  em  que  a  im- 
prensa nos  disse  que  o  rei  exhibira,  n'um  baile,  os 
predicados  capitães  de  Lúcifer,  o  pai  os  farrapos  de 
um  Pierrot,  e  o  irmão  as  ancas  roliças  de  um  la- 
caio ! 

Adeus,  meu  filho.  A  minha  alma  adora-te.  A  nos- 
sa amiga  tomou  decerto  no  seio  estes  júbilos  da  nos- 
sa honra  conquistada.  Abraçai-vos  pois  na  minha 
memoria  até  que  venha  o  dia  em  que  eu  possa  abra- 
çar-me  nos  vossos  hombros. 

Beijo  os  vossos  filhos,  meus  queridos  amiguinhos. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 

Recebi  a  tua  ultima  carta. 

Que  redempção  queres  tu  para  mim?  A  do  ódio? 
E'  a  que  eu  receio,  se  fugir  (isso  não  fujo),  mas  se 
me  furtarem  ao  cumprimento  da  pena.  Continua  a 
sorrir-me  o  degredo.  Eu  ou  serei  bom  ou  perverso. 
Agora  o  espirito  dá-lhe  para  pensar  que  em  Portu- 
gal seria  o  segundo.  Se  eu  tivesse  liberdade  já  em 
Portugal,  receio  que  me  viesse  o  furor  infernal  de 
promover  uma  anarchia  que  apressasse  o  aniquila- 
mento d'csta  charneca  de  torpilhôes,  procurando 
com  o  peito  a  bala  dos  negros.  O  que  é  que  tu 
chamas :  cahir  a  minha  alma  ?  Cahida  está  para  to- 
do sempre ;  e  que  quer  dizer  a  pátria  ou  o  desterro 
para  me  fazer  resurgir?  Mas  resurgir,  como?  Tu, 
sinceramente,  se  eu  podesse  vir  ainda  a  dar  a  mi- 
nha alma  ao  serviço  de  uma  idéa,  não  vias  ahi  aba- 
tido o  decoro  do  meu  infortúnio,  rasgado  o  seu  luto 


j8o  Correspondência  epistolar 

eterno  que  esse  decoro  lhe  impõe  ?  Do  decoro  fallo, 
por  não  querer  chamar-te  á  discussão  do  argumen- 
to maior  e  irrespondivel,  se  esse  o  não  levar  o  tem- 
po de  sobre  as  cinzas  do  meu  coração,  como  eu 
profundamente  acredito. 

Deixa-me  partir.  Eu  tenho  resolvido  requerer  o 
meu  embarque  no  dia  seguinte  ao  do  novo  enxova- 
lho da  Relação,  que  é  capaz  de  me  diminuir  a  pe- 
na para  me  insultar ! 

Eu  começo  a  sentir  a  verdadeira  honra  de  um  de- 
gredado em  Portugal ! 

Quando  eu  partir  para  a  Africa,  obsequeias-me 
grandemente  publicando  estas  palavras  n'algum  livro 
teu  para  que  os  que  me  amam  saibam  que  eu  sou 
feliz,  e  os  que  me  odeiam  conheçam  profundamen- 
te o  meu  desprezo. 

Outro  assumpto.  Tenho  talvez  de  escrever  o  ser- 
mão do  Lava  pedes,  e  o  da  Soledade.  Para  este 
principalmente  peço-te  que  me  indiques  leitura  boa, 
se  a  conheces. 

Se  o  fizer,  levo  dinheiro  e  tenciono  leval-o  para 
dar  um  presentesinho  á  Emilia,  ao  Jorge,  e  ao  fi- 
lho do  António,  e  do  Luiz. —  Lembro-me  com  pro- 
funda melancolia  de  vossês. 

Peço  a  Deus  que  vos  leve  os  vossos  filhos,  e  po- 
nha nas  vossas  almas  a  força  que  lá  deve  amparar 
a  gratidão  por  tamanho  beneficio. 

Perdôa-mc  se  te  despedaço. —  Faz-me  horror  e 
asco  o  futuro  de  portuguezes. 

Abraço-te.  Abraço-vos  a  todos,  meus  queridos 
corações. 

Teu 

José, 


Correspondência  epistolar  i8i 

Meu  querido  amigo. 

Eu  já  esperava  esta  dolorosa  surpreza,  mas  não 
tão  cedo!  Grande  bem  em  todo  o  caso  me  fez  a 
tua  companhia,  na  qual  o  meu  espirito  se  alevanta 
sempre  quanto  pôde,  embora  possa  pouco. 

Acho  detestável  o  teu  ultimo  photographo.  Accu- 
so-o  a  ellc  principalmente,  e  não  ao  retrato,  porque 
a  elle  era  que  cumpria  escolher  outra  pose  de  phy- 
sionomia,  e  outra  accentuação  no  olhar,  e  outra  do- 
cilidade no  bigode,  etc,  etc.  Eu  nunca  vi  tão  insi- 
nuante a  tua  physionomia,  tão  lisa  e  tão  branca 
mesmo  a  tua  face  como  agora.  Pois  no  retrato  pa- 

reces-me  uoi  homem  esfolado !  Este andaria 

avisadamente  cambiando  o  estabelecimento  por  ou- 
tro que  o  appellido  lhe  está  aconselhando. 

Espero  que  esta  carta  te  encontre  ainda  antes  da 
tua  partida  para  Braga.  Tenho  a  pedir-te  um  obse- 
quio, e  infelizmente  com  pressa.  Peço-te  que  me 
mandes  um  numero  do  Primeiro  de  Janeiro  que  te- 
nha a  tua  local  a  respeito  do  tinteiro.  O  António  já 
procurou  na  administração  da  folha,  mas  parece 
que  não  havia.  O  que  te  peço  pois  é  que  obtenhas 
do  Germano  o  numero  que  certamente  devia  ficar 
para  a  redacção,  e  o  obtenhas  emprestado,  e  m'o 
remettas,  porque  eu  da  minha  parte  pouco  t'o  de- 
moro, e  devolvo-t'o. 

Quando  regressares  de  Braga  fallarás  largamente 
com  o  António  a  respeito  dos  meus  contentamentos 
futuros  em  Loanda,  e  relatar-lhe-has  o  que  te  dis- 
seram por  aqui. 

Não  esqueças  nunca  o  teu 

velho 

José  Cardoso. 


i82  Correspondência  epistolar 

Meu  querido. 

Aqui  estou  com  umas  lagrimas  a  dançarem-me 
nos  olhos.  Fiz  o  rascunho  de  uma  carta  a  uma  po- 
bre mulher  que  pede  o  perdão  do  marido  de  ao  pé 
do  leito  do  moribundo  filho  de  ambos,  o  qual  lhe 
deixa  nos  braços  d'ella  um  anjinho  de  três  annos ! 

O  homem  cahiu  a  chorar,  e  eu  chorei  também. 
Deus  me  não  falte  nunca  com  estas  boas  regas  da 
alma. 

Li  na  cama  a  tua  de  hoje.  Também  chorei.  O 
morgado,  que  sempre  me  fez  rir,  fez-me  chorar  pela 
primeira  vez  !  Chorei  por  elle  ! 

Mas  agora  que  me  levantei,  que  estou  lavado  e 
fresco,  e  bebi  a  primeira  pancada  de  luz,  estendo- 
Ihe  a  mão,  sacudo-lh'aomaís  selvajalmente  que  pos- 
so, e  peço  a  Deus  que  nos  ouça  e  nos  cubra  este 
cumprimento :  cPara  a  vida  e  para  a  morte !  eh  lá! 
para  a  Africa!» 

Enche-me  de  alegria  o  retrato  que  me  fazes  d'elle 
e  das  suas  qualidades. 

Não  pende  o  meu  espirito  para  a  agricultura,  que 
em  Portugal  seria  o  meu  enlevo.  Deu-te  o  Calhei- 
ros- a  razão. 

Alegra-me  a  satisfação  do  António.  Tanto  mais 
quanto  eu  o  suppunha  menos  convencido. 

A  absolvição  do  Anthero  deu-me  relevantíssimo 
prazer.  A  moral  triumpha,  porque  o  desaggravo  da 
honra  não  pôde  ser  nunca  o  alardo  da  deshonra ; 
e  eu  bemdigo  a  Deus  por  ter  posto  no  meu  ser 
melhores  e  mais  puros  respeitos  pela  mulher  do 
meu  nome ! 

A  tua  carta  deixa-me  uma  impressão  celestialis- 
sima.  Cá  vos  espero  na  terça  feira. 


Correspondência  epistolar  i83 

Respondo  á  tua  de  hontem.  Recebi  a  local  do 
tinteiro,  que  te  agradeço  muito. 

Adeus. 

Os  meus  aífectos  á  nossa  boa  amiga,  que  tanto 
se  interessa  pelo  seu  velho  hospede. 

Beijos  aos  pequerruchos  \  vós  sois  também  minha 

familia. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 

A  tua  carta  deliciou-me.  Eu  estava  afflicto  com 
a  tua  doença.  Talvez  a  casa  de  saúde  aqui  te  faça 
bem.  Pareceu-me  que  te  era  boa  a  capital  nos  dias 
em  que  por  cá  te  demoraste.  E'  justissimo,  é,  tudo 
quanto  dizes  a  respeito  do  Condemnado  e  da  co7^ôa. 
Eu  tinha  pensado  tudo  isto. 

Que  contente  que  eu  estou  com  as  noticias  do 
António!  Sinto-me  feliz,  tanto  quanto  posso  sêl-o! 
Deus  nos  proteja,  e  nos  dê  d'aqui  a  dez  annos  os 
dias  serenos  e  alegres  que  eu  lhe  peço  de  joelhos 
na  pureza  da  minha  alma  e  na  santidade  dos  meus 
intuitos  e  na  sinceridade  de  todas  as  minhas  des- 
ambições  fora  da  única  que  me  resta:  ter  dias  de 
saudade  e  de  felicidade  ignorada  no  meio  doesta 
constellação  das  almas  devotas  da  minha  desgraça. 

Vossês  meus  sócios!  com  que  alegria  eu  penso 
n'isto!  Seria  crueldade  do  destino  se  dessem  em 
chimera  estas  esperanças!  Pois  Deus  permittiria 
que  eu  ainda  um  dia  vos  desse  contas  dos  lucros 
do  mendobi  e  da  urzella,  e  das  colheitas  na  car- 
cassa do  elephante  de  Pungo  Andongo?  Supremo 


184  Corres]pondencia  epistolar 

contentamento!  Suprema  vingança  commum  das 
victimas  dos  teus  livros  contra  ti,  e  de  ti  contra  ci- 
las! 


Abraco-te. 


Teu 
José, 


Meu  Camillo. 


Este  morgado  é  admirável !  é  único  l  Cuidei  que 
me  arrebentava  hontem  com  o  riso !  Tem  sobre 
Loanda  as  vistas  vorazes  do  Alarico.  Vai  resolvido 
a  tudo.  Sem  fallar  n'aquelle  pj^eto  esturrado  que 
te  quer  mandar  na  primeira  saca  de  café,  tem  pla- 
nos de  aíFrontar  o  cosmos  mudando  os  crocodilos 
para  o  matto  virgem,  e  os  tigres  para  o  oceano, 
com  o  intuito  de  uma  erppresa  lucrativa.  A  sua 
primeira  ambição  ao  pôr  pé  em  terras  de  Salvador 
Corrêa  é  degolar  um  preto  innocente !  O  seu  argu- 
mento é  que  o  preto  deve  sacrificar  a  vida  ao  ho- 
mem que  sacrifica  a  pátria  e  a  familia.  Não  tem 
resposta. 

Posto  este  preambulo  á  sua  vida  nómada,  o  mor- 
gado tem  duas  ambições:  enriquecer,  e  escrever-te 
cartas  que  te  assombrem  e  te  alegrem.  Para  estas 
elabora  já  um  assumpto  tenebroso.  Não  descança 
em  quanto  não  levar  a  deshonra  ao  seio  da  familia 
de  um  soba  para  te  fulminar  com  a  repa  de  uma 
carapinha  real !  Olha  que  isto  é  tudo  d'elle,  meu 
filho.  E  o  que  é  d'elle,  e  eu  aqui  não  posso  pôr,  é 
a  fé  ardente,  o  enthusiasmo,  a  alegria,  a  esperança, 
a  crença  com  que  espera  voltar  rico  a  Portugal !  a 
chamma  satânica  que  lhe  crispa  dos  olhos  nas  vi- 


Correspondência  epistolar  i85 

sualidades  degoladoras  da  pretalhada  pura  !  Quando 
repete  o  argumento  do  sacrifício  que  elle  faz  para 
justificar  a  hecatombe,  chega  a  ser  medonho.  . . 
como  o  argumento ! 

Na  sua  volta  á  pátria  tem  outras  ambições,  iguaes 
em  numero:  esmagar  tudo,  e  vingar-se  ! 

Fundeado  o  vapor,  não  quer  barco  que  o  traga 
ao  cães ;  tem  a  certeza  de  que  dá  tamanhos  pulos 
que  o  Tejo  se  aparta  de  medo  para  lhe  ministrar  o 
finca-pé ! 

Quer  demorar-se  alguns  tempos  em  Lisboa.  A 
sua  deliberação  é  amarral-as  todas  torpemente  ao 
catalogo  das  deshonradas  dos  régulos ! 

Partiremos  depois.  Não  se  anda  em  parte  ne- 
nhuma senão  com  todos  os  matadores.  Nas  hospeda- 
rias de  Villa  Nova  não  se  come  senão  peru ;  e  o 
não  estamos  afeitos  a  isso,  resposta  a  tudo  mais, 
obrigará  os  locandeiros  a  uma  via  sacra  accelerada 
pelas  despensas  dos  mais  ricos  do  povoado. 

Quer  esmagar  tudo  !  quer  vingar-se  ! 

Mas  vingar-se  de  que?  que  ódios  pôde  ter  este 
bom  moço  ?  que  abysmos  lhe  tem  posto  o  mundo? 

Não  sei.  Nem  elle.  E'  certo  porém  que  quer  es- 
magar tudo,  e  quer  vingar-se  ! 

Ódios  tem  um !  Esse  resume  todos.  E'  o  de  Bel- 
zebuth  a  Deus;  é  um  inferno  que  lhe  queima  o  cé- 
rebro, e  que  se  lhe  entranhou  lá  dentro  com  perigo 
de  afogar-lh'o,  como  um  hydrocephalo,  na  vossa 
ultima  viagem  para  o  Porto.  O  seu  ódio  é  aquelle 
visconde  gordo  de  Aveiro,  cujo  nome  nem  feições 
recorda,  que  te  respondeu  com  soberanissimo  des- 
prezo quando  tu  lhe  perguntaste  se  me  tinha  visi- 
tado. O  seu  ódio  é  esse !  Quer  pois  esmagar  tudo, 
quer  vingar-se  ! 


i86  Correspondência  epistolar 

Ao  cabo  de  tudo  isto  trato  eu  de  lhe  amaciar  as 
raivas  pondo  as  minhas  modestas  visões  na  tran- 
quillidade  santa  da  nossa  querida  Seide,  e  conven- 
cendo-o  de  que  a  vingança  completa  seria  talvez 
substituir  na  pratica  o  titular  odiado.  Logo  que  lhe 
fallei  cm  Seide,  prorompeu  o  morgado:  Lá^  a  pri- 
meira cousa  é  outro  monumento  á  nossa  chegada ! 

Agora  serio,  meu  filho.  Eu  vejo  a  Providencia 
em  tudo,  e  aceito  das  bondades  d'Ella  o  presente 
d'este  homem.  Se  se  realisarem  os  nossos  planos, 
se  os  nossos  corações  e  sentimentos  se  entenderem 
sempre,  como  espero,  de  certo  não  nos  separaremos 
mais.  Ambos  nós  daremos  um  ao  outro  a  dedica- 
ção extrema  e  a  honra  sem  mancha.  Deus  aben- 
çoará o  resto.  Devo  dizer-te  que  espero  muitissimo 
das  suas  faculdades  e  aptidões  para  o  nosso  com- 
mercio,  segundo  o  que  lhe  ouvi. 

E'  teu  amigo  a  valer.  Quando  voltar  a  Portugal 
só  conhece  uma  pessoa  fora  da  sua  família :  és  tu. 
Tu  não  escreves  mais,  e  és  nosso  para  a  vida  e 
para  a  morte. 

Deus  traga  esse  dia.  Eu  andarei  com  os  pedaci- 
nhos da  minha  alma  uma  vez  no  Ermo,  outra  no 
meu  quartinho  e  no  adro  de  Seide,  e  outra  no  meio 
da  sobrinhada.  Se  Deus  me  dér  isto ! 

Abraça-vos. 

Teu 

José. 


õMeií  querido  Camillo. 

Passei  hontem  a  tarde  angustiadissimo  desde 
que  senti  que  não  vinhas  abraçar-me.  A  noite  pas- 
sei-a  do  mesmo  modo  até  ás  3  horas  assustado  por 


Con^espondencia  epistolar  jSj 

estas  tuas  imprudências,  meu  filho.  Pois  uma  via- 
gem sobre  outra,  e  ambas  de  noite !  Eu  peço-te 
que  venças  absolutamente  os  teus  appetites,  e  te 
trates  com  o  maior  escrúpulo  pelo  que  diz  respeito 
a  alimentação. 

A  tua  carta  de  hoje  aííligiu-me.  Preciso  de  me 
agarrar  á  esperança  que  tenho  de  que  melhores  ra- 
pidamente, e  espanques  estas  tuas  tristezas. 

Adeus,  meu  adorado  Gamillo.  Os  meus  affectos 
á  snr.^  D.  Anna,  e  beijos  aos  meus  artistas.  Abra- 
ço-te  e  beijo-te. 

Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo, 

E's  injusto  comtigo  e  commigo.  Eu  encontro 
sempre  luzes  novas  nas  tuas  obras.  Li  aqui  em  voz 
alta,  penetrado  de  commoção  e  de  convicção,  a  ver- 
dadeira philosophia  do  teu  ultimo  folhetim  sobre  os 
meios  próprios  para  entender  e  confortar  os  tormen- 
tos alheios.  O  que  eu  sentia  sentiam  os  outros. 

Vi  a  local,  e  agradeço-te  muito  a  publicação. 

Abraço-vos. 

Teu 

José. 


Meu  bom  Camillo. 

Escrevo-te  muito  á  pressa  estas  duas  linhas.  En- 
tristeceu-me  a  ida  do  bom  velho.  *  Passaram-me  no 


iRefere-se  á  morte  do  seu  tio  José  Vieira  de  Castro. 


i88  Correspondência  epistolar 

cérebro  lentamente  os  dias  do  Ermo,  e  comparei  a 
felicidade  do  tumulo  de  então  com  a  desventura  do 
tumulo  d'hoje !  Mas  eu  já  não  lastimo  os  que  mor- 
rem. Tenho  medo  que  isso  lhes  perturbe  a  bem- 
aventurança  da  sepultura. 

Beija  as  mãos  da  snr.*  D.  Anna  pela  adorável  car- 
tinha que  me  mandou.  Eu  hei  de  escrever-lhe  mais 
vezes.  Nós  ainda  viveremos  em  Seide.  Deus  ha  de 
querer  que  sim. 

Peço  a  Deus  que  te  restitua  a  saúde  antiga.  As- 
sim me  ouça ! 

Abraço-te. 

Teu 

José. 


Meu  Camillo. 

Deu-me  grande  prazer  saber  hoje  pelo  António 
que  estiveras  ahi  com  os  pequenos  d'elle  e  com  a 
senhora. 

Estás  tu  melhor  ? 

Eu  levantei-me  agora  com  a  cabeça  atordoada. 
Ha  dous  dias  o  Pereira  de  Miranda  trouxe-me  aqui 
para  eu  ver  um  projecto  d'elle  sobre  colónias.  Quiz 
fazer-lhe  uma  fineza  escrevendo  uma  analyse,  sur- 
prehendendo-o  com  ella.  Estudei  a  matéria,  e  escre- 
vi esta  noite  umas  vinte  tiras,  que  deverão  ser  me- 
tade talvez  de  outras  vinte  que  hoje  escreverei. 

Queria  publicar  a  cousa  no  Primeiro  de  Janeiro, 
Por  muitos  motivos,  como  podes  suppôr,  me  era 
agradável  a  preferencia  d'esta  folha.  Ha,  porém,  es- 
paço? Tens  tu  a  nimia  bondade  de  ver  as  provas, 
e  corrigir  as  quedas  mais  espalmadas  do  estylo  de 


Correspondência  epistolar  i8g 

um   encarcerado   de   anno,  já   sem  vislumbres  de 
sentimento  plástico  ? 

Poderias  fazer  com  que  viesse  n'um  numero  só, 
ou,  quando  muito,  em  dous? 

Era  isso  o  que  eu  te  pedia,  acrescentando,  porém, 
a  pressa  para  não  perder  o  interesse  actual  d'estas 
cousas.  Escuso  dizer-te  que  não  assigno  o  artigo. 
Aquillo  é  uma  divida  de  consciência,  e  nem  podia 
ter  aspirações  a  mais.  Sahirá  entre  os  artigos  de  re- 
dacção, mas  pôr-lhe-has  uma  letra  qualquer,  ou  um 
asterisco,  se  o  Germano  o  exigir. 

Responde-me,  se  poderes,  na  volta  do  correio. 

Tive  hontem  uma  atroz  e  pungente  semsaboria 
quando  ia  a  sentar-me  com  certa  satisfação  para  es- 
crever. Cahiu-me  a  vista  sobre  o  Diário  de  Noti- 
cias, que  eu  nunca  vejo  sequer,  e  encontro  noticia- 
da a  morte  do  meu  pobre  velho,  tio  do  preso  J.  C. 
F.  de  Cf  e  irmão  do  antigo  ministro. 

A  insistência  do  insulto  apimentada  com  o  vene- 
no da  aproximação  do  ministro !  Que  villões !  Será 
Deus  que  me  experimenta  ?  E'  certo  que  afoguei  o 
nojo,  e  passei  a  noite  escrevendo  agradavelmente 
de  um  grande  amigo. 

Adeus,  meu  filho.  Os  meus  affectos  á  nossa  boa 

amiga.  Beijos  aos  vossos  filhos. 

Abraço-te. 

Teu 

José. 


Meu  querido. 

Estou  nervoso,  acabei  o  artigo,  e  escrevo-te  á  pres- 
sa. Beijo-te  pelos  orvalhos  que  espargiste  na  sepul- 
tura do  pobre  velho. 


igo  Correspondência  epistolar 

O  final  do  artigo  que  escrevi  denuncia  a  proce- 
dência. Não  o  assigno,  com  o  António,  e  d'aqui 
mesmo  comtigo,  combinaremos  uma  cousa  que  é 
longa  para  agora.  Um  discurso  de  Russell  enlevou 
a  minha  alma  na  elaboração  das  minhas  idéas.  Que- 
ria que  esse  artigo  significasse  apenas  a  veracidade 
da  minha  consciência  conformada  com  a  sua  sorte. 
Hei  de  ver  se  t'o  mando  áman'iã. 

Abraço-vos  pães  e  filhos. 

Teu 

José. 


Meu  querido. 

O  Reis,  e  outro,  acabam  de  copiar  o  meu  escri- 
pto.  Mando-t'o  hoje.  Vou  pedir-te  um  obsequio  que 
tu  não  recusarás  ao  teu  amigo.  Palavra  ou  locução 
mais  imprópria  ou  menos  limpa,  corrige-m'a.  Eu 
nunca  soube  escrever,  e  agora  menos.  Acostumei- 
me  a  pensar  os  periodos  um  pouco  selvagens  para 
as  condições  da  tribuna,  mas  para  isso  é  preciso  fa- 
lal-os,  não  escrevel-os.  Ahi  estavam  algumas  cou- 
sas que  eu  faria  valer  no  discurso,  mas  nada  d'isso 
presta  na  escripta.  Confio  no  teu  favor,  e  cada  cor- 
recção tua  será  um  prazer  que  me  darás.  Aprovei- 
to o  ensejo  de  dizer  ao  meu  paiz  que  quero  partir 
quanto  antes  para  o  meu  destino. 

Agora  uma  cousa.  Haja  cuidado  em  que  isso  se 
não  publique  em  nenhum  dos  dias  8,  ou  9,  ou  lo 
do  corrente.  O  melhor  seria  até  sabbado,  ou  mes- 
mo depois  do  dia  10  se  não  poder  ser  antes. 

Puz-lhe  a  data  de  abril  para  que  me  não  oíFen- 
dessem  allusões  á  data  de  maio. 


Correspondência  epistolar  igi 

Eu  tinha  o  maior  empenho  em  que  o  artigo  vies- 
se n'um  numero  só.  Separal-o  é  quebrar  todo  o  in- 
teresse no  desenvolvimento,  já  de  si  limitadissimo 
do  assumpto. 

Agora  renovo  também  o  pedido  de  toda  a  tua  pa- 
ciência para  a  revisão  das  provas  d'essa  frioleira. 
As  primeiras  columnas  sahiram-me  uns  periodos 
tão  longos,  que  é  preciso  não  lhe  largar  o  governo 
da  pontuação,  aliás  fica  de  todo  mau  o  que  já  não 
presta  para  nada.  Em  fim  ahi  tens  a  cousa,  e  terei 
o  cuidado  de  não  rabiscar  mais  para  não  ter  de  res- 
ponder ás  tuas  dedicações  com  pavorosas  estopadas 
como  esta  que  te  dou. 

Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo. 

Escrevo-te  á  pressa,  mas  não  quero  deixar  de  fa- 
zel-o.  As  tuas  cartas  teem-me  tristissimo  com  os 
soffrimentos  do  teu  filhinho.  Deus  será  bom  para  ti, 
mas  tu  deves  precaver  a  tua  alma  contra  o  mais 
pungente  desenlace.  Eu  como  teu  amigo  imponho- 
t'o,  e  ouso  esperar  tudo  da  tua  força.  Não  fallo  em 
meu  nome ;  obrigo-te  em  nome  da  outra  criança. 
Seria  mais  que  cobardia,  seria  uma  espoliação  sem 
attenuantes  succumbires  ao  lado  d'outro  filho,  se 
Deus  te  reclamasse  um.  Tu  decerto  não  cahirás. 
Escreve-me  e  consola-me  promettendo-m'o,  porque 
penso  em  ti  a  todas  as  horas.  Chamo  a  tua  força 
por  este  caminho,  e  por  não  querer  magoar-te  pe- 
dindo-te  que  visses  a  felicidade  na  bemaventurança 
do  filhinho  que  Deus  chamasse  para  si. 


jg2  Correspondência  epistolar 

Abraço-te,  meu  filho. 

A  ultima  phrase  da  tua  carta  consterna-me.  Co- 
ragem !  que  tanta  vez  me  pediste,  e  em  tantas  ve- 
zes te  obedeci! 

Adeus,  meu  bom  Gamillo. 

Abraço-te,  e  peço  a  Deus  pelo  teu  anjinho. 

Teu 
José, 


Meu  querido  Camillo. 

Aíílige-me  a  falta  de  carta  tua  por  não  saber  do 
estado  do  Jorgesinho.  Deus  permitta  que  vá  me- 
lhor!   • 

Eu  estou  espancando  as  memorias  negras  d'es- 
te  dia ...  * 

Teu 

José. 


oMeu  Camillo, 

A  tua  carta  veio,  como  todas  as  tuas  outras  car- 
tas mais  particularmente  consoladoras,  em  hora  ne- 
cessitada. 

O  dia  d'hontem  foi  horrível.  Esta  humanidade  é 
negra,  sem  descripçao  possivel  em  nenhuma  lingua ! 
Era  hontem  a  communháo  dos  presos,  festa  osten- 
tosa para  o  publico  que  se  atropella  nas  salas  e 
enxovias  do  cárcere  distinguindo-se  principalmente 


*  Era  o  anniversario  da  catastrophe. 


Correspondência  epistolar  ig3 

as    senhoras   no  interrogatório  feito  aos  desgraça- 
dos acerca  dos  seus  nomes  e  dos  seus  crimes. 

A  mim  tinha-me  dito  o  guarda-livros  que  a  festa 
acabava  ás  duas  horas  e  que  só  então  o  publico  vi- 
zitava  os  quartos  particulares  que  estivessem  aber- 
tos. Combinei  pois  com  o  António  em  estar  aqui  a 
essa  hora,  e  ás  dez  já  eu  estava  encerrado.  A  fes- 
ta porém  acabou  á  uma  hora.  Estava  eu  fechando 
a  carta  que  te  mandei. 

Sinto  na  escada  e  sobre  a  porta  do  meu  gabine- 
te o  rebolar  de  uma  onda  estúpida.  Eu  estava  fe- 
chado á  chave.  Com  o  murmúrio  ouvi  duas  panca- 
das bestiaes  na  porta,  que  eu  logo  conheci  serem 
dadas  com  o  intuito  de  lograrem  todos  vêr-me,  se 
eu  abrisse,  esquivando-se  todos  á  responsabilidade 
d'ellas.  Eu  tinha  o  creado  prevenido  para  bater  de 
um  certo  modo  quando  me  procurasse  amigo  meu. 

As  scenas  e  os  ditos  que  se  passaram  á  minha 
porta  não  seriam  acreditáveis  em  terra  de  bestas- 
feras.  Atropellavam-se  para  espreitarem  á  fechadu- 
ra as  senhoras,  mães,  esposas  e  filhas.  Não  havia 
homens  n'este  canibalismo ! 

Eu  ouvia  o  vago  murmúrio  de  tudo  isto,  mas 
não  sei  o  que  me  succederia  se  não  entra  o  Ferrei- 
ra da  Costa  a  quebrar  o  horrível  de  uma  solidão 
insultada  por  tal  modo,  e  que  eu  estive  em  riscos 
de  povoar  com  os  delírios  de  uma  loucura  que  ain- 
da senti  ameaçar-me.  Depois  é  que  eu  soube  tudo. 
Umas  queriam  que  eu  fosse  forçado  a  abrir  a  porta, 
outras  lastimavam-se  profundamente  da  inutilidade 
de  uma  visita  á  cadêa  que  não  tivera  outro  estimu 
lo  senão  vêr-me  !  D'estas  uma  era  uma  menina  que 
viera  em  equipagem  soberba,  e  que  procurara  o 
meu  quarto  ao  lado  do  delegado  Neves ! 

VOL.  1  i3 


ig4  Correspondência  epistolar 

Uma  velha  de  caracoes  frisados,  ricamente  ajae- 
zada, descia  a  escada  dizendo  para  um  grupo  de 
raparigas :  «E  tem  tapetes  e  taboinhas,  segundo  di- 
zem! O  que  elle  merecia  era  um  chicote!» 

E'  horrivel  isto !  Eu  sinto  mais  desprezo  do  que 
ódio  por  esta  villanagem.  Não  sou  bastante  bom 
para  sentir  piedade.  Esse  dito  da  velha,  ouvi-o  eu 
cá  dentro,  e  lá  fora,  o  Reis,  e  toda  a  gente. 

Senti  que  não  estivesses  ao  meu  lado,  de  saúde. 

Sofifrerias  como  eu,  mas  darias  talvez  grande  li- 
ção a  essa  matilha  de  leprosos. 

Que  mães,  que  esposas  virão  d'essas  crianças 
trazidas  pelas  mulheres  de  cabellos  brancos  a  estes 
espectáculos,  e  educadas  n'essas  apostrophes  d'odio 
podre  ?  Como  é  que  não  existe  n'essas  almas  som- 
bra alguma  de  respeito  e  de  caridade  pelos  immen- 
sos  infortúnios? 

Depois,  a  data  de  hontem  ! 

Isto  é  horroroso,  e  eu  peço  a  Deus  por  piedade 
que  me  dê  depressa  o  degredo  como  vingança  ! 

O  António  pagará  ahi  o  teu  abraço.  Elle  vem 
logo. 

A  tua  carta  deixa-me  uma  esperança  de  melho- 
ras para  os  pequeninos.  Abraça-os  e  beija-os.  Deus 
permitta  ao  cabo  de  tudo  que  nos  alumiem  a  ve- 
lhice. 

Teu 

José. 

P,  S. —  Acabo  de  escrever  ao  Casal,  ao  Sam- 
paio, ao  Pereira  de  Miranda  e  ao  Jayme,  pedindo- 
lhes  que  abreviem  a  minha  partida  para  o  degredo. 

Quero  fugir  aos  canibaes. 


Correspondência  epistolar  ig5 

Meu  querido. 

Ha  dias  que  não  tenho  carta  tua.  Devias  receber 
a  minha  ultima  em  resposta  á  tua. 

Acabo  de  ler  o  folhetim  (5)  do  Germano.  E'  es- 
plendido como  todos  os  outros.  Tinha  vontade  de 
o  abraçar.  A  primeira  phrase  do  ultimo  periodo  de 
hoje  encontra-se  com  as  bases  do  livro  que  te  man- 
dei. Pergunta-lhe  se  elle,  concluido  esse  trabalho, 
não  o  publicará  á  parte  em  opúsculo. 

Eu  mandar-lhe-hia  uma  grande  remessa  para  o 
Brazil.   Dize-lhe  isto  em  particular  como  cousa  tua. 

Eu  fal-o-hia  porque  as  palavras  d'elle  são  sobre 
tudo,  como  as  tuas,  o  epitaphio  de  respeito  no  tu- 
mulo á'ella. 

Abraço-vos. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 

Recebi  a  tua  ultima. 

Já  me  entregam  o  Primeiro  de  Janeiro.  Agrade- 
ço o  teu  cuidado.  Agradece  por  mim  ao  Baltar 
quando  o  vires. 

O  folheto  do  Germano? 

Penhoram-me  os  rapazes  de  Coimbra,  e  as  pes- 
soas de  Villa  Real. 

Eu  sinto-me  mais  triste  hontem  e  hoje.  Dão-me 
grandes  desejos  de  sahir  para  o  degredo.  Pezam- 
me  os  tectos  da  cadêa,  e  a  liberdade  em  Africa  faz- 
me  menos  horror  que  em  Portugal.  Começo  a  sen- 
tir a  asphyxia  moral. 


jyô  Correspondência  epistolar 

Veremos  o  que  Deus  determina. 

Fazem-me  grande  pena  os  teus  soífrimentos.  Lem- 
bra-te  dos  que  soífrem  mais. 

Eu  não  sei  bem  se  isto  é  uma  consolação  nobre, 
mas  parece-me  que  tem  um  lado  assim.  A  mim 
tem-me  amparado  immenso! 

A  nossa  amiga  como  está  ?  e  os  filhinhos  ?  Eu 
abraço  a  todos. 

E'  verdade.  Aonde  moram?  Todas  as  vezes  que 
fecho  uma  carta  para  ti  é  que  reparo  em  ter  esque- 
cido esta  pergunta.  Curiosidade,  como  podes  ima- 
ginar, mas  que  me  interessa,  como  as  grandes  cou- 
sas, a  vosso  respeito. 

Adeus,  meu  bom  Camillo. 

Que  escura  que  é  a  minha  alma  hoje !  Que  dias 


estes ! 


Teu 
José. 


€Meu  Camillo. 


A  historia  do  homem  de  Benguella  fez-me  sor- 
rir pelas  previsões  d'elle.  Deus  me  livre  de  cousa 
que  possa  sequer  rastrear  esses  futuros  e  destinos 
altos  que  tu  me  apontas !  Eu  não  peço  á  boa  Pro- 
videncia senão  que  ponha  a  sua  protecção  nas  mi- 
nhas modestas  labutações  commerciaes.  Fugirei 
mesmo  de  pensar  n'outra  cousa. 

Agradeço-te  as  palavras  e  acquiescencia  da  tua 
carta  de  hoje.  Os  artigos  teem  vindo  bem.  Quando 
se   publicarem   á  parte  mandar-t'os-hei  d'aqui  com 


Correspondência  epistolar  igy 

umas  pequenas  conversões  typographicas  que  esca- 
param n'estes  últimos. 

Que  saudade  me  faz  de  novo  Seide  !  Vossês  alli 
com  o  morgado  que  deliciosas  horas,  apesar  da 
doença  e  das  memorias,  comparadas  com  as  horas 
da  cidade !  O  que  daria  eu  por  um  dia  ahi  de  paz 
tranquilla  ?  Que  amor  eu  conservo  ao  meu  quarto- 
sinho !  Se  ahi  volto  beijarei  as  paredes  e  a  janella 
como  os  peregrinos  beijam  as  pedras  santas.  Quan- 
do d' ahi  sahi  para  o  Algarve,  então  e  hoje  !  Se  eu 
um  dia  tenho  Uberdade  hei  de  ir  apanhar  os  boca- 
dos do  coração  aqui  por  umas  três  casinhas  de  Lis- 
boa, ahi,  em  Portimão  e  no  Ermo.  Que  saudades 
que  eu  tenho  d'esse  tempo  sempre  que  o  recordo ! 

Li  hoje  aquelles  pungentes  gritos  do  Heine  que 
os  teus  traduziram.  A  cada  um  d'estes  profundos 
abalos  que  me  fazem  estas  leituras  profundamente 
sensibilisadoras  pela  dupla  essência  do  escripto  e 
da  atormentada  inspiração  que  o  gera,  sinto  em 
mim  a  inveja  quasi  do  verdadeiramente  estúpido, 
do  hermeticamente  fechado  de  coração  e  de  alma. 

Outra  cousa.  Vinha  hontem  aqui  um  homem  pe- 
dir-me  para  lhe  dar  umas  sessões  em  que  elle  aper- 
feiçoasse o  meu  busto  já  começado.  E'  encommen- 
da  do  Brazil.  Supponho  intuito  mercantil  na  encom- 
menda,  porque  mandaram  pedir  a  forma  em  barro 
para  tirar  lá  as  copias.  De  qualquer  modo  é  uma 
nova  torpeza  mercantil  engendrada  sobre  o  meu  in- 
fortúnio. E'  inútil  dizer-te  que  despedi  o  homem, 
mas  íil-o  com  uma  certa  satisfação  de  vêr  o  entu- 
pimento em  que  o  deixou  a  minha  cara  completa- 
mente transformada  pela  falta  de  barba  que  tirei  ha 
dias  para  lograr  principalmente  este  e  os  retratistas. 
Disse-ihe    sempre   sorrindo,  que,  não  podendo  op- 


ig8  Correspondência  epistolar 

pôr-me  a  que  me  reproduzissem,  a  consolação  que 
me  restava  era  a  de  que  o  busto,  como  os  retratos, 
serviriam  apenas  para  indicar  que  cu  era  outro. . . 

Adeus,  meu  filho. 

Abraço-te,  e  espero  sempre  noticias  tuas. 

Teu 
José. 


Meu  Ji  lho. 
Bom  foi  que  não  peorasses  lá. 

Bom  êxito  quanto  ao  Ermo  é  verdade.  Deus  pa- 
rece que  nos  sorri  A  minha  desgraça  será  eterna- 
mente a  de  hoje,  mas  poderei  fazer  á  volta  d'ella 
um  pequenino  circulo  d'almas  puras  e  amigas.  Deus 
o  permitta ! 

Seide !  Eu  não  posso  recordar.  Agarro-me  á  es- 
perança de  que  hei  de  ainda  ahi  voltar  para  não  es- 
talar de  saudade ! 

Escrevo-te  apressadissimo. 

Recebi  o  correio  do  Brazil,  que  é  grande,  tenho 
de  responder  já. 

A'  nossa   querida  amiga  beijo  a  mão  com  todas 

gratidões    e   aífectos   que   Seide    me  impõe,  e  a  ti 

abraço-te  estreitamente. 

Teu 

José. 


Correspondência  epistolar  igg 


Meu  querido. 

Recebi  a  tua  de  hoje  que  avoluma  as  minhas  me- 
lancolias com  as  vossas.  Esperemos,  filho.  Deus  ha 
de  dar  melhores  dias. 

A  minha  espectativa  perante  a  Relação  é  a  mes- 
ma que  te  disse  na  minha  ultima  carta. 

Adeus,  meu  filho.  O  que  eu  te  queria  era  de  saú- 
de regular,  e  tranquillo  de  espirito. 

Os  meus  aíFectos  á  minha  querida  amiga,  e  bei- 
jos aos  pequerruchos. 

Abraço-te. 

Teu 

José. 


Meu  querido 

A  tua  carta  alegrou -me.  E  eu  já  estava  alegríssi- 
mo. E,  hoje  mais  que  nunca,  sinto  seguras  da  mão 
de  Deus  na  minha  consciência  as  alegrias  futuras. 
Hei  de  voltar,  hei  de  vêr-vos  a  todos  aos  meus  se- 
rões no  regresso  d'Africa.  Tenho  a  final  o  máximo 
da  pena  do  meu  delicto,  dizem.  Pois  isto  é  que  é 
bom.  Assim  certíssimo  fica  que  não  podem  mais  ha- 
ver descontentes  nem  n'este  mundo  nem  no  outro. 
Eu  estou  no  meu  logar,  e  o  meu  logar  é  um  pólo. 
No  outro   logar,  no  outro  pólo,  está. ..  .*  Nós  so- 


í  Confronta-se  com  um  marido  que  fazia  então  julgar  a 
esposa  no  tribunal,  que  a  mandou  em  paz,  como  Jesus  á  adul- 
tera, e  como  a  honra  ordena  que  sejam  castigados  maridos 
sem  pejo  nem  resguardo  da  sua  desgraça. 


200  Correspondência  epistolar 

mos  os  dous  symbolos  de  uma  nova  geographia 
moral.  Se  Deus  não  presidisse  ao  meu  destino,  se 
me  houvesse  voltado  as  costas  a  sua  bondade,  se 
contra  mim  se  voltasse  a  sua  cólera,  a  minha  gran- 
de tortura  seria  o  immenso  baque  d'estes  dous  he- 
mispherios,  usurpando  o. .  .  o  meu  planeta,  e  arro- 
dilhando*me  a  mim  para  a  sua  orbita.  Isto  assim  é 
o  óptimo. 

Brinquemos  a  chorar,  dizias  tu  hontem.  Brinque- 
mos a  rir,  digo-te  eu  hoje.  Adeus  meu  filho. 

Abraço-te  consoladamente. 

Teu 

José. 


Meu  Camillo. 

Nada  de  medos.  Nunca  como  hoje  eu  me  senti  tão 
bem,  tão  crente  em  que  tudo  ha  de  ser  como  Deus 
m'o  inspira,  e  não  como  t'o  suggere  a  tua  grande 
tristeza.  Eu  vejo  melhor  do  que  tu,  e  não  admira ; 
avalias  as  minhas  dores  afora  de  mim,  e  pensas  que 
são  grandes ;  eu  é  que  sei  que  não  prestam  para 
nada.  Reíiro-me  a  degredos,  e  ás  penas,  maiores  ou 
enormes,  que  possam  vir-me  das  sentenças  de  ho- 
mens que  eu  nem  posso  odiar  pelo  immenso  que 
os  desprezo. 

Cá  espero  o  morgado.  Não  venhas  tu,  que  te 
despedaças  n'estes  boléos  das  viagens.  Muito  re- 
pouso, filho. 

Não  sabes  ?  parece  que  o  advogado  contrario  re- 
corre para  o  supremo  tribunal  pedindo  pena  maior  ! 
E'  esplendido  ! 

Veremos.  Eu  uão  recorro.  Se  a  besta  recorrer, 


Correspondência  epistolar  201 

então  sim,  acompanho  o  recurso.  O  miserável  já 
me  escangalhou  as  alegrias  que  eu  sorria  ao  dia  5 
d'a^osto. 

Adeus,  meu  filho.  Coragem  e  alegria.  Eu  não  me 

lembro  senão  do *  E'  o  meu  homem,  e  o  meu 

salvador ! 

Teu 

José. 


Meu  Camillo. 

Estou  com  uma  terrível  constipação,  tosse,  e  uma 
brotoeja  horrível.  Por  isso  te  não  escrevi  ainda,  e 
agora  o  faço  com  a  mão  a  arder.  Tem  estado  um 
tempo  estúpido.  Espero  que  o  calor  te  seja  este  an- 
no  menos  nocivo.  O  motivo  do  recurso  é  haver  or- 
dem do  Brazil  para  ir  com  a  cousa  até  ao  fim.  A 
ordem  não  previu  a  hypothese  dos  i5  annos  da  Re- 
lação, e  cá  o  mandatário  cumpre  á  letra.  E'  repul- 
sivo estar  a  procurar  no  esterco  a  razão  d'elle.  Seja 
lá  pelo  que  for,  o  sol  não  alumia  canalha  mais 
abjecta ! 


Teu 
"José 


Meu  Camillo. 


A  mim  de  vez  em  quando  me  chegam  uns  echos 
da  semsaboria   lá   de  fora.  Deves  ter  ouvido  fallar 


1  E'  o  marido  indicado  na  carta  anterior. 


202  Correspondência  epistolar 

das  conferencias  e  das  Farpas.  As  primeiras  pare- 
ce que  eram  de  todo  o  ponto  inofíensivas.  As  se- 
gundas accusam  os  sobejos  d'alguns  dos  redacto- 
res. Em  resumo,  parece  que  a  terra  e  a  gente  in- 
sistem singularmente  em  ser  o  que  eram. 

Eu  por  dentro  tenho  andado  apoquentado  com 
umas  memorias  tristes.  Por  fora,  e  para  fora,  é  qua- 
si  sem  medida  o  nojo  que  me  cresce  todos  os  dias 
contra  as  pessoas  e  cousas  d'este  torpissimo  bordel 
que  ahi  se  mexe. 

Estou  morto  por  sahir  d'isto  quanto  antes. 

Teu 
José. 


Meu  querido. 


Que  idéa  é  a  tua  que  não  vou  para  Loanda  ?  Só 
se  morrer.  Creio  piamente  que  o  supremo  tribunal 
não  annuUa,  mas  se  o  fizesse,  e  se  me  absolvessem 
depois,   eu  ia  do  mesmo  modo,  irrevogavelmente. 

Escrevi  vinte  e  tantas  tiras  de  um  folhetim,  pro- 
vando que *  era  cortezão,  cobarde,  contradi- 

ctorio,  tolo  e  ignorante. 

Fez  sabbado  oito  dias,  eram  onze  da  noite.  Sen- 
tei o  Reis  á  mesa,  dictei-lhe  aqúelle  escripto,  fumei 
dez  charutos  a  seguir,  dcitei-me  ás  sete  horas,  e 
d'ahi  veio  aquella  dor  de  cabeça  em  que  te  fallei. 
Não  te  disse  nada  porque  queria  surprehender-te. 


'  Allude  a  um  livro  então  publicado. 


Correspondência  epistolar  2o3 

queria  ver  se  me  adivinhavas,  e  o  que  me  dizias 
sem  adivinhar.  Comecei  a  dictar  o  folhetim  com  a 
idéa  de  que  tu  serias  o  seu  assumpto  principal.  Fe- 
lizmente voltou-se-me  a  inspiração,  c  tratei  de  não 
me  denunciar  d'esse  modo,  e  de  não  dar  á  folha  a 
importância  de  lhe  fazer  suppôr  que  tomara  para 
ti  uma  das  suas  paginas  mais  banaes. 

Levei  o  meu  disfarce  ao  extremo  de  citar  nos 
jornalistas,  e  de  lhe  mandar  anonymamente  a  cousa. 

Accusou  a  recepção  com  elogios,  mas  disse  que 
era  muito  grande  para  a  folha.  Peta.  Não  publicou 
por  cobardia,  embora  estivesse  a  pular  por  lhe  to- 
sar os  bandarilheiros. 

Esperava  hoje  o  escripto  na  Revolução,  Logo  vou 
mandar  dizer  ao  Sampaio  que  m'o  devolva,  se  o 
não  publicar,  como  suspeito,  e  amanhã  remetto-t'o. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo 

Todos  os  dias  para  escrever-te,  lodos,  mas  aqui 
morre-se  de  calor  ha  quatro  dias,  c  não  ha  vonta- 
de que  não  se  afogue  em  suor. 

Como  hei  de  eu  esquecer-me  de  ti,  amigo  ?  Em 
que  dia  não  penso,  ou  não  fallo  eu  de  ti  ?  E  por  ven- 
tura mais  se  te  não  escrevo,  é  por  isso  mesmo. 

Mandou-me  hoje  o  António  um  exemplar  das  Co 
lonias.   As  tuas  paginas,  meu   querido  amigo,  tão 
eloquentes  como  todas  as  outras  que  me  tens  dado, 
são   por  ventura  as  mais  claras  a  deíinirem-me.  A 


204  Correspondência  epistolar 

minha  defeza  é  isto,  tudo  isto,  e  nada  mais  do  que 
isto.  Adorável  penna  a  tua.  Sempre  a  mesma !  (No- 
ta  7.-). 


Teu 
José. 


Meu  querido. 

Escrevo-te  á  pressa  porque  só  agora  me  deixa, 
quasi  á  hora  do  correio,  um  padre  que  veio  contar- 
me  os  applausos  de  um  sermão  que  lhe  fiz. 

Tenho  a  tua  adorável  carta  de  hoje.  Quero  es- 
perar que  Deus  nos  reserve  nos  teus  filhos  bastan- 
te amor  e  bastante  paz.  Porque  não  iremos  com 
elles?  Em  fim  se  vivermos  Deus  dirá  como  ha  de 
ser.  Ha  uma  phrase  na  tua  carta  que  se  me  enter- 
rou profunda  e  luminosa  como  uma  faisca,  pelo  co- 
ração e  pela  memoria  dentro  :  é  o  desejo  de  não 
ter  familia  na  idade  em  que  a  gente  não  sonha  que 
será  esse  o  único  que  ha  de  mais  tarde  sobreviver- 
Ihe  a  todos  os  outros. 


Teu 
José. 


«     Meu  Çamillo. 

Tenho  no  prelo  um  opúsculo  intitulado :  Cons- 
ciência, E  uma  carta  aos  das  Farpas^  meiga  para 
elles,  e  magnifica  para  mim  por  ser  horrorosa  pa- 
ra as  infames  da  terra. 


Correspondência  epistolar  2o5 

E'  o  meu  grito  de  ódio,  a  represália  do  meu  des- 
prezo. 

E'  assignado  Samuel,  mas  todo  o  mundo  saberá 
que  é  meu. 

Isto  devia  succeder.  Sinto-me  como  homem 
acordado.  Agora  é  que  attentei  em  mim.  A'  cadêa 
não  vem  ninguém,  eu  sou  um  homem  profunda- 
mente odiado. peias  mulheres,  e  desprezado  pelain- 
diífcrença  dos  homens  que  me  humilham  mais  por- 
tanto do  que  aquellas.  Ninguém  quer  saber  á'isío 
que  para  aqui  está,  esta  é  a  verdade.  Aos  dez  an- 
nos  de  degredo  fingiram-se  commovidos,  aos  quinze 
nem  isso,  depois  diriam  mesmo  que  o  publico  acha- 
va que  o  melhor  era  não  bulir  mais  n'este  facto 
consummado,  razão  porque  o  ultimo  tribunal  não 
desfazia  o  que  estava  feito. 

Ora  eu  hoje  não  desejo  outra  cousa.  Lisboa  é 
capaz  de  me  apodrecer  o  interior  com  o  desprezo 
que  me  junca  cá  dentro.  Loanda  é  o  o  meu  sonho 
dourado.  Deixai-me  partir,  canalhões !  é  o  que  eu 
lhes  diria  se  me  consultassem. 

Ora  uma  só  cousa  me  restava,  digna  e  alta,  era 
fazer  saber  bem,  para  todos  os  tempos,  e  a  todas 
estas  minas  de  pus,  que  eu  diante  de  todas  as 
suas  guerras  e  infâmias  só  uma  cousa  faço,  e  é  ta- 
par o  nariz. 

Era  preciso  que  eu  dissesse  a  esta  canalha,  que 
me  detestasse,  mas  que  me  não  lastimasse. 

Eu  escrevo  hoje  uma  carta  ao  António  predis- 
pondo-o  para  um  estalo,  mas  sem  lhe  dizer  o  que 
é.  Se  elle  te  procurar,  nada  lhe  digas.  O  que  é  cer- 
to porém  é  que  Lisboa  em  relação  a  mim  é  tudo 
quanto  ha  de  mais  asqueroso  :  ódio  nas  mulheres, 
como  no   primeiro   dia,  sem  a  minima  differença  ! 


2o6  Correspondência  epistolar 

indiíTerença  absoluta  nos  homens,  o  que  é  mil  ve- 
zes peor.  Eu  não  me  illudo  nem  um  átomo.  Esta  é 
a  verdade,  e  por  tanto  o  que  me  cumpre  é  provar 
a  esta  canalha  que  se  o  ódio  que  ella  tem  ao*"^^ 
e  a  mim  é  igual,  o  effeito  nos  odiados  é  radicalmen- 
te diverso. 

Teu 

José 


Meu  Camillo, 

Tu,  sim,  sabes  consolar,  meu  querido  amigo  I 
Esta  tua  carta  marca  como  tantas  outras,  um  le- 
nitivo saudabilissimo.  Sabes  consolar,  porque  sabes 
ver,  e  sabes  ensinar  e  ver.  E'  isto,  é  \  mesmo  fora 
vaidade  crer  n'outra  explicação.  A  tua  carta  faz-me 
grande  bem,  porque  a  minha  irritação  crescia,  e  fi- 
carei hoje  sereno. 

O  opúsculo  só  verbera  as  mulheres,  e  d'essas  o 
ódio  é  certo  e  real  ainda.  Dá-Ihes  conta  do  meu 
desprezo  profundissimo,  e  provoca-as  abertamente 
a  não  cançarem  na  guerra  para  eu  tirar  d'ahi  umas 
consolações  que  lá  digo.  E'  só  isto. 

Deve  ficar  prompto  esta  semana.  Mas  não  pode- 
rás tel-o  antes  de  domingo,  ao  que  me  parece. 

Sou,  meu  filho,  gratissimo  á  tua  vontade  de  vi- 
res vêr-me.  Ainda  se  é  bem  rico  quando  se  tem  o 
que  eu  tenho,  e  entre  os  meus  teres  a  tua  grande 
e  alta  dedicação.  Assim  tu  melhorasses  de  saúde  ! 
Deus  agora  de  certo  me  reserva  os  bens  que  me 
restam  ! 
Adeus,  meu  amor.  Os  meus  respeitos  e  aííectos 


Correspondência  epistolar  207 

á   minha  querida    hospeda  de  ha  cinco  annos.  Os 
meus  beijos  aos   vossos  filhos,   e   a  ti  em  minha 

alma. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 

Tenho  passado  terrivelmente.  Ando  constante- 
mente aos  vómitos,  provocados  pela  saliva  que  se 
me  prende  nas  campainhas  !  E'  sórdido  e  horrivel! 

Nunca  me  esqueço  porém  de  lastimar  mais  o  teu 
padecer,  e  agora  fico  cuidadoso  pela  snr.*  D.  Anna, 
e  pelos  pequeninos.  A  maldição  de  Deus  sobre 
este  paiz  já  nem  poupa  os  paraisos  saudáveis  das 
nossas  florestas  !  Eu  attribuo  tudo  á  podridão  mo- 
ral d'esta  grande  cavallariça  !  Soífrem  dos  mias- 
mas latrinarios  os  que  não  são  bestas.  Antes  fos- 
semos ! 

Se   me   lembro   d'isso !    de  tudo  isso!  Ah,  meu 
Deus,  tenho    horas  escurissimas  quando  penso  no 
que  eu  era  ahi,  no  que  sou  hoje,  enoimpossivel  de 
prever  tudo   isto  que  se  passou  !  Acreditemos  en 
Deus  que  nos  reuniremos  ahi. 

Adeus,  meu  Camillo.  Dize  ao  morgado  que  tal- 
vez a  cousa  se  decida  n'este  mez,  e  em  tal  caso  que 
conto  partir  em  outubro. 

Abraço- vos. 

Teu 

José. 


20(S  Corrcspinidencia  epistolar 


Meu  querido. 

Cá  estão  mais  cinco  annos.  Creio  que  ainda  é 
pouco.  O  interprete  da  minha  sogra  pedia  toda  a 
vida  e  trabalhos  públicos  por  não  haver  pena  de 
morte,  e  não  estarem  no  código  as  minhas  attenuantes, 

Deu-me  as  honras  do  maior  assassino  doeste  trei- 
no. Parece  que  vão  querellar  d'elle  alguns  dos  meus 
quatrocentos  collegas  da  prisão. 

Eu  na  mesma. 

Tive  hontem  a  tua  carta  com  que  ri. 

Se  n'estes  dez  dias  os  outros  não  recorrerem, 
devo  partir  a  cinco  d'agosto. 

Abraço-te. 

Teu 

José. 


oMeu  querido  Camillo. 

Sahiu  hontem  d'aqui  o  morgado.  Estranhei-o  im- 
mcnso !  Aquelle  ardor  phenomenal  dos  primeiros 
dias  tinha  morrido  n'elle  !  Tentava  encobrir  o  seu 
desanimo,  ou  o  que  quer  que  fosse,  mas  mal  podia 
fazel-o  com  a  transparente  diplomacia  aprendida  cm 
Famalicão.  Pesquizei  com  ellc.  Observava  que  fora 
apenas  a  resolução  abrupta  que  o  contrariara. 

Não  sei.  O  que  me  dava  grandes  esperanças  n^este 
homem  eram  a  sua  fé,  a  sua  ambição,  o  seu  pro- 
pósito franco.  Que  houve  n'elle  ? 

Eu  cheguei  a  dizer-Ihe  que  não  fosse  a  Africa, 
se  não  sentisse  em  si  a  alma  dos  primeiros  tempos. 
Repete-lhe  tu  isto.  Eu  não  o  quero  ao  pé  de  mim, 


Correspondência  epistolar  20g 

se  elle  não  for  exactamente,  mas  sinceramente^  o 
que  era.  Isto  cm  mim  é  profundamente  verdadeiro. 
Prefiro  mil  vezes  que  elle  fique.  Houve  em  Vizella 
uma  besta  agronómica  ou  que  diabo  é,  o  tal*** 
que  lhe  disse  que  em  Angola  de  dez  escapa\  a  um, 
e  que  eu  era  homem  prompto  sem  a  menor  sus- 
peita em  contrario.  Isto  também  parece  que  o  atra- 
zou. 

Qra  eu  quero  que  tu  me  livres  de  levar  um  ho- 
mem aterrado  ao  pé  de  mim,  e  por  tanto  convcnce-o 
de  que  mesmo  o  não  ir  elle  não  abate  n'um  ápice 
a  estima  que  lhe  consagro,  se  elle  tem,  como  pre- 
sumo, em  valor  essa  cousa. 

Abraço-te  por  me  obedeceres,  assim  como  me 
me  obedecem  os  da  minha  familia,  da  qual  tu  és.  Só 
o  António  estará  aqui.  Mais  ninguém.  Se  viessem 
vocês  matavam-me.  Assim  partirei  de  cabeça  alta, 
olhos  serenos,  e  o  meu  immenso  nojo  e  desprezo  que 
a  cada  hora  se  avolumam  bestialmente  no  meu  in- 
terior. 

Adeus,  meu  filho.  Ainda  nos  abraçaremos  em  Sei- 
de,  e  essa  será  a  hora  da  nossa  vingança  feliz. 

Beijo  as  mãos  da  nossa  querida  amiga  e  a  face 
dos  vossos  filhinhos. 

Teu 

José. 


Meu  Camillo. 

Acabo  de  ler  os  bocadinhos  da  tua  carta,  e  adi- 
vinhar por  ellcs  os  que  faltam. 

Já  hontem,  com  a  tua  anterior  á  vista,  cu  e  o 
António  haviamos  fallado  do  morgado. 

VOL.  I  14 


210  CoíTespondencia  epistolar 

Logo  que  elle  chegue,  cumpre-me  dizer-lhe  lealis- 
simamente  os  meus  sentimentos,  e  cònvidal-o  no 
vãmente  a  tomar  a  resolução  mais  fria  c  meditada 
do  seu  animo. 

Dizia  a  tua  carta  d'hontem  que  o  morgado  ia  para 
a  Africa,  se  o  processo  fosse  annulado.  Ora  isto  é 
que  convém  fixar.  Quer  dizer,  eu  sou  sempre  reconhe- 
cido a  este  rapaz  por  lhe  ter  inspirado  um  grande 
passo,  e  por  elle  o  querer  realisar  ao  meu  lado, 
mas  o  que  de  modo  nenhum  quero  é  a  minima  res- 
ponsabilidade da  sua  partida.  Nem  por  sonhos ! 
Morgado  vai  por  que  quer,  vai  sobre  si,  e  ambos 
nós  temos  a  melhor  vontade  e  os  melhores  intuitos 
de  caminharmos  sempre  juntos  na  nossa  faina  com- 
mercial.  E  não  é  assim  que  deve  ser  ?  E'  claríssimo. 

Quando  o  morgado  aqui  veio  ha  mezes  disse-lhe 
com  a  maior  franqueza  que  de  interesses  de  socie- 
dade só  em  Africa  podíamos  resolver,  quando  de- 
finitivamente soubéssemos  a  natureza  e  qualidade 
dos  nossos  serviços  communs.  Isto  foi  de  propó- 
sito por  causa  da  igualdade  de  interesses  em  que 
primeiro  tínhamos  fallado,  e  disse-lhe  eu  a  elle 
mesmo  que  era  por  causa  d'isto.  A  qual  igualdade 
eu  a  elle  mesmo  já  tinha  promettido  ?io  caso  de  fa- 
\ermos  agricultura^  sendo  que  n'essa  hypothese  os 
serviços  d'elle  representavam  bom  capital,  e  que  eu 
de  novo  promettia,  e  que  eu  de  novo  lhe  prometto. 

Mas  se,  não  fizermos  ?  Mas  se  nós  chegássemos 
a  Loanda,  e  tivéssemos  de  resolver  por  uma  espécie 
de  negocio,  em  que  houvesse  uma  grande  dispari- 
dade de  serviços  ? 

Morgado  reconheceu  tudo  isto,  e  tu  mesmo,  pois 
lembras-te  que  logo  tudo  te  communiquei. 

Agora  mais.  Se  nós  chegarmos  a  Loanda,  e  ou  pela 


Correspondência  epistolar  211 

exageração  dos  louvores  com  que  nos  tem  pintado 
aquillo,  ou  por  qualquer  motivo  de  inaptidão  da  nos- 
sa parte  ou  infelicidade,  se  nada  fazemos,  nem  lo- 
gramos? Se  ao  morgado  mesmo  pelas  suas  quali- 
dades conviesse  qualquer  resolução  de  esperanças 
seguras  que  eu  não  podesse  ou  não  quizesse  acom- 
panhar ? 

Tudo  isto  pôde  dar-se.  Não  o  espero.  Mas  é  pos- 
sivel.  Ora  para  isso  é  que  é  preciso  estabelecer 
bem  sobre  tudo  o  seguinte :  que  o  morgado  vai 
muito  por  sua  vontade,  que  elle  é  libérrimo  aqui  e 
lá,  e  que  eu  não  quero  sombra  de  responsabilidade 
da  sua  ida.  Isto  de  modo  nenhum ! 

Por  isso  vou  convidal-o  de  novo  a  pensar,  a  re- 
flectir, e  até  lhe  vou  propor  o  seguinte,  e  é  que 
elle  fique,  se  quizer,  a  arranjar  os  seus  negócios 
mui  de  seu  vagar,  e  que  eu  de  lá  o  chamarei  na 
minha  primeira  carta  dizendo-lhe  ao  mesmo  tempo 
mais  explicitamente  o  que  se  me  offerecer. 

Parece  te  bem  ?  As  tuas  cartas,  meu  querido, 
commovem-me  principalmente  pelo  estudo  que  fa- 
zem em  contrario. 

Deus  seja  por  nós ! 

Quem  diria  que  a  viagem  para  que  eu  ahi  me  pre- 
parava ha  cinco  annos  era  para  ir  buscar  esta  carta  ? 
e  no  mesmo  mez  ! 

Então  ia  ser  recebido  nos  diversos  pontos  pelos 
cônsules  portuguezes  que  me  levassem  em  trium- 
pho  aos  nossos  estabelecimentos.  Hoje  tenho  de  so- 
licitar por  favor  que  me  deixem  saltar  nos  portos 
intermediários  do  meu  degredo,  e  peorcs  que  este  ! 

Não  te  compunja  isto.  E'  em  todo  o  caso  uma 
honra  do  destino  a  serenidade  com  que  aproximo 
estas  duas  datas. 


212  Correspondência  epistolar 

Beijo  as  mãos  da  minha  querida  amiga,  os  vossos 
filhos,  e  a  ti. 

Teu 

José. 


Meu  querido. 

Adeus. 

Até  á  volta,  meu  filho,  meu  Camillo,  meu  amigo! 

Se  por  lá  morrer,  de  certo  sobe  a  minha  alma 
com  a  tua  imagem. 

Adeus,  filho  querido. 

Levo  na  minha  alma  o  muito  e  immenso  que  te 
devo ;  immenso  que  eu  sei  medir  porque  o  fa,ço  á 
luz  da  desgraça. 

Adeus.  De  lá  te  escrevo  logo. 

Beijo  as  mãos,  e  abraço  a  nossa  querida  e  eterna 
amiga. 

Beija  por  mim  os  teus  filhos.  Se  eu  viver,  é  d'el- 
les  a  minha  velhice.  Cá  vem  o  Jorge  commigo. 

O  ultimo  abraço  e  adeus. 

O  ultimo  beijo. 

Teu 

José. 


Meu  querido. 
S.  Vicente,  i3,  setembro,  71. 

D'aqui  te  beijo  e  abraço. 

Levo  esperanças,  mas  não  sei  que  sobresaltos  de 
que  vou  morrer.  Penso  novamente  na  morte,  e  é 
isto  o  que  me  faz  crer  n'clla.  Vejo  a  morte  como 
um  descanco. 


Correspondência  epistolar  2i3 

Talvez  não  succeda  assim.  N'esse  caso  Deus  me 
reserve  para  dias  de  felicidade  no  meio  da  minha 
querida  familia,  a  que  tu  pertences,  meu  adorado 
amigo. 

O  morgado  diz-me  que  te  escreva.  Eu  escondo 
d'elle,  e  de  todos,  as  tristezas  profundas  da  minha 
alma.  Estas  tristezas  não  tem  nada  com  a  pátria, 
que  eu  já  detesto,  porque  Deus  quiz  ensinar-me  a 
generosidade  de  a  esquecer. 

Tem  tudo  com  a  voz  interior  da  minha  alma  que 
me  diz  que  o  meu  dever  é  morrer.  Rodeiam-me  de 
attenções  que  me  parecem  sentenças  sobre  o  tu- 
mulo que  eu  fiz,  e  por  isso  me  dei  vontade  de  que 
Deus  me  esconda  n'elle. 

E'  claro  que  o  meu  destino  é  um  absurdo,  e  fu- 
gir d'elle  seria  salvar-me. 

No  acordar  horrivel  das  minhas  noites  de  bordo 
lembro-me  de  ti.  O  morgado  traz  uma  luneta  que 
foi  tua  e  que  eu  conheci.  Contemplo-a,  toco  n'ella, 
como  quem  se  ampara  no  teu  braço. 

A  esta  distancia  é  que  eu  tenho  visto  o  que  te 
devo,  meu  querido  amigo ! 

Adeus.  Tenho  soífrido  no  mar,  e  vou  soffrer. 
Lembrar-me-hei  sempre  de  ti. 

Beijo  as  mãos  da  minha  querida  amiga.  Os  teus 
filhinhos  que  ponham  as  mãos  para  Deus  por  mim, 
e  por  ella.  Se  eu  viver,  serão  os  melhores  amigui- 
nhos da  minha  pobre  velhice.  . 

Adeus,  meu  filho.  Abraço-te  e  beijo-te  estreme- 
cidamente. 

O  teu  amigo  grato  até  morrer 

José. 


214  Correspondência  epistolar 

€Meu  querido. 
Loanda,  26 —  ío  —  71. 

Cá  estou  no  meu  posto.  Loanda  é  uma  Ninive. 
Eu  não  vivo  n'ella,  e  tenho  uma  casinha  posta  so- 
bre o  mar  que  é  uma  delicia  com  que  Deus  me  es- 
perava aqui. 

Lê  a  carta  que  mando  ao  António.  Quero  ir  para 
Cabo  Verde.  Consultai  em  commum.  Encanta  me 
a  idéa  de  que  virias  viver  alli  um  anno  commigo. 
Santo  Antão  é  como  Cintra. 

Deixei  por  todas  as  partes  um  rastilho  no  cora- 
ção de  todo  o  mundo. 

Eu  penso  que  captivo  esta  gente  pelo  orgulho 
com  que  me  porto,  e  pela  estima  com  que  a  trato. 

Lê  a  carta  do  António.  Eu  não  tenho  tempo  ne- 
nhum porque  me  veio  surprehender  o  vapor. 

Santo  Antão  era  o  meu  ideal. 

Se  eu  ficar  em  Loanda,  o  meu  commercio  será 
simplicissimo,  como  verás  pela  carta  do  António. 
Em  Santo  Antão  ou  S.  Thomé,  faria  agricultura  e 
advocacia. 

Estou  morrendo  por  letras  vossas. 

Adeus.  A'  nossa  amiga  um  milhão  de  saudades. 

Beijo  os  vossos  filhos,  e  a  ti  abraço  ternissima- 
mente. 

Teu 

José, 


Meu  querido, 
Loanda,  21  —  11  — 71. 

Espero  com  anciedade  a  tua  nova  carta  para  me 
desopprimir  das  magoas  em  que  me  pozeram  estas 


Correspondência  epistolar  21 5 

tuas  ultimas  palavras.  E'  certo  que  soíFres,  que  pa- 
deces, ninguém  melhor  do  que  eu  comprehende  a 
falta  de  resignação  para  a  bestialidade  dos  marty- 
rios  physicos,  mas  tenho  ainda  esperanças  na  tua 
cura  radical. 

Eu,  meu  filho,  tenho  saúde  por  ora.  Peço  a  Deus 
fervorosamente  o  favor  da  morte  na  hora  em  que 
o  rigor  da  sua  justiça  quizer  estragar  em  mim  a  ul- 
tima porcaria  que  me  resta,  a  vida  physica. 

Vivo  sereno,  quieto,  mas  quasi  estúpido,  descon- 
fio. Estou  verdadeiramente  sepultado,  como  um 
que  acordasse  dentro  do  tumulo,  e  se  visse  com  uma 
das  paredes  d'elle  aberta  sobre  o  mar,  húmido  con- 
fidente das  suas  choradas  memorias.  Eu  tenho  pena 
dos  pretos  e  nojo  dos  brancos.  Que  terra !  que  paiz 
este  !  Aqui  ainda  não  raiou  nenhum  clarão  das  lu- 
zes do  espirito  moderno.  Nem  religião,  nem  familia. 
Nenhuma  cousa  que  dê  idéa  da  dignidade  humana 
senão  a  resistência  tenaz  do  negro  escravo  ás  im- 
posições bestiaes  do  branco  livre. 

Tenho  horas  de  escuríssima  melancolia.  Lembro- 
me  sempre  de  ti.  Em  dia  de  finados  fui  ao  cemité- 
rio. Vesti  o  meu  luto,  e  fui  lá ;  eram  6  horas  da 
manhã,  ouvi  umas  missas,  e  passei  depois  por  en- 
tre as  sepulturas.  Deus  viu-me  do  céo  por  um  pu- 
nhado  de    lagrimas  xom  que  me  deixou  consolar. 

Tive  pena  dos  mortos  de  Loanda,  meu  filho.  Não 
haverá  no  mundo  outros  nem  mais  desamparados 
nem  mais  esquecidos.  Não  ha  sepultura  visitada  por 
flores,  raras  pedras  tecm  epitaphio,  e  nenhuma  ur- 
na que  tenha  orvalhos  ! 

Ha  ao  redor  dos  canteiros  umas  arvoresinhas 
com  umas  flores  roxas  e  brancas.  Atirei  com  um 
punhado  d'ellQs  para  cima  d'uma  sepultura  sem  no- 


2i6  Correspondência  epistolar 

me,  e  trouxe  umas  poucas  para  te  mandar  a  ti.  Es- 
tão alli  mirradinhas,  mortas  e  debruçadas  n'um  pe- 
queno cálix ;  tencionava  mandar  outras  também  ás 
senhoras  da  minha  familia ;  já  puz  porém  na  carta 
ao  António  que  não  mandava  nenhuma.  Podia  ser 
agouro. 

Peço-te,  meu  filho,  que  leias  a  carta  que  mando 
ao  António.  E'  enorme,  e  lá  vão  os  planos  c  cogi- 
tações com  que  eu  penso  em  esperançar  a  minha 
alma.  Volto  com  os  planos  de  Santo  Antão.  Ainda 
será. . .  porém,  quem  sabe  ? 

E  a  snr.^  D.  Anna  como  está  ?  e  as  criancinhas  ? 
Eu  lembro-me  e  choro  por  todos  como  familia  mi- 
nha. A's  vezes  quero  ser  rico  para  poder  ser  útil  a 
esses  amiguinhos  da  minha  velhice,  se  Deus  quizer 
que  eu  viva.  Veremos.  A  vida  commercial  tem  mo- 
las estúpidas,  e  eu  não  sei  se  poderei  d'aqui  salvar- 
me  com  proveito. 

Adeus,  meu  querido  Gamillo.  Beija  por  mim  as 
mãos  da  nossa  amiga,  e  a  face  dos  teus  filhinhos. 
Eu  beijo-te  e  abraço-te.  Aí^eus. 

Teu 

José, 


Meu  querido  Camillo. 
Loanda,  24  de  janeiro  de  1872. 


Não  me  importa  nada  o  perdão.  Sinto  como  nun- 
ca um  despreso  invencível ,  e  quasi  quero  ser 

degredado  para  ser  em  tudo  differente  d'clles.  Vêr- 
vos,  isso  sim,  isso  quero ;  mas  para  isso 

Pelas   minhas  cartas  terás  conhecimento  d'estas 


Correspondência  epistolar  21 'j 

tuas  alegrias  que  tu  na  tua  carta  desejavas.  N'esta 
ultima  ao  António  sei  que  lerás  com  verdadeiro  con- 
tentamento a  exposição  do  meu  plano  definitivo 

Dize  á  nossa  querida  amiga  que  tenha  coragem, 
e  eu  lh'a  peço,  a  favor  também  do  nosso  apaixona- 
do amigo  de  ha  4  annos. 

Se  perde  a  alegria,  como  me  hão  de  receber  em 
Seide? 

Abraça-a,  filho,  e  beija-lhe  as  mãos  por  mim. 
Beijo  os  vossos  filhinhos,  meus  adorados  amigos. 

Adeus,  meu  querido  Camillo.  Lembra  te  todos  os 
dias  do 

teu 

Vieira  de  Castro, 


Meu  querido. 

Tenho  duas  cartas  tuas,  e  a  outra,  deliciosa,  sua- 
víssima, admirável,  que  tu  escreveste  ao  António,  e 
elle  me  mandou.  Por  outras  minhas  deves  saber  já 
que  recebi  as  três  a  que  te  referes  na  primeira  d'es- 
tas  duas.  Encantou-me  que  tu  e  o  António  accei- 
tassem  amplamente  a  minha  repugnância  contra  a 
diminuição  de  pena,  e  melhor  seria  que  acceitasse- 
mos  todos  o  desprezo  por  indulto  de  qualquer  or- 
dem. Por  tal  modo  cresce  em  mim  todos  os  dias 
o  nojo  por  isso  que  chamam  pátria  que  não  sei  de 
que  modo  ficarei  depois  de  humilhantemente  per- 
doado por  ella. 

Do  morgado  lerás  na  carta  ao  António  as  excel- 
lentes  esperanças  que  elle  de  novo  me  inspira. 
Penso  que  temos  o  homem  que  elle  nos  prometteu 
ser.  Espero  bom  futuro. 


2i8  Correspondência  epistolar 

Has  de  vcr-me  filho.  E  se  não,  é  porque  eu  mor- 
ri primeiro.  Digo-te  isto  sem  aífectação,  serenamente, 
convencidamente.  Não  me  engano,  éuma  visão  esta 
minha,  verdadeira  coiiio  as  visões  dos  moribundos, 
a  quem  seria  cruel  que  Deus  enganasse.  E  o  Se- 
nhor o  permitta !  Se  um  de  vossês  me  faltasse,  de 
vossês  os  seis  que  me  amam,  isso  seria  uma  bes- 
tialissima  infâmia  do  céo.  Depois,  não  t'o  hei 
dito  e  menos  ao  António  porque  a  minha  honra  e 
a  minha  gratidão  é  alegrar-vos,  mas  é  certo  que,  se 
eu  não  ando  a  appetecer  a  rnorte,  também  não  é 
ella  cousa  que  me  afflija,  que  me  deixe  de  mau  hu- 
mor quando  repetidamente  se  senta  no  meu  cére- 
bro ao  cavaco  còm  as  minhas  meditações  tranqui- 
líssimas. Sc  eu  morrer  penso  que  descanço,  e  se 
Deus  quizer  que  assim  seja,  no  meu  crepúsculo  illu- 
minarei  as  vossas  memorias  com  maior  numero  de 
sorrisos  que  de  lagrimas. 

Meu  filho 

Teu 
José, 


Meu  querido  Camillo. 

Se  se  morresse  de  melancolia,  de  tristeza,  de 
dores  feitas  na  alma  pelo  recordar  pungentissimo  e 
acerbo,  eu  teria  de  certo  morrido  na  tarde  em  que 
primeiro  li  esta  tua  carta  a  que  respondo  agora. 
Ella  é  tristíssima,  e  eu  li-a  com  a  alma  despedaça- 
da pelas  amarguras  d'ella,  e  por  outras. 

Deus  me  traga  palavras  tuas  mais  confortativas 
e  mais  esperançadas  para  ti,  filho  ! 


Correspondência  epistolar  21  g 

Duas  cousas  na  tua  carta  me  pungiram  intima- 
mente. Uma  foi  chamares  a  minha  memoria  ao  nos- 
so passado  de  ha  dez  annos ;  a  outra,  apontares- 
me  a  delicia  do  melhor  remédio  para  a  minha  en- 
fermidade eterna,  e  sentir  eu  a  minha  inaptidão 
para  o  aproveitar.  Que  fim  de  tarde  que  me  fez  a 
imaginação  n'esse  momento  em  que  te  li ! 

A  vida  de  ha  dez  annos,  com  todos  os  lugares, 
situações,  embaraços,  fugitivas  alegrias,  dores  de- 
moradas, tudo,  tudo  isso  me  passou  pelos  olhos, 
mas  de  vagar,  lentamente,  lucidissimamente.  Fazer 
romances. . .  oh,  se  eu  podesse  ! 

Mas  não  posso,  não  posso. 

Eu  espero  os  meus  livros,  e  quero  ter  prompta 
quanto  antes  esta  minha  alumiada  cubata  suspensa 
sobre  o  mar.  Hei  de  escrever  ahi  umas  cousas,  pen- 
so. Mas  o  que  mais  me  prende  n'este  momento  é  o 
plano  de  organisar  um  curso  de  seis  ou  doze  lições 
para  as  dizer  a  este  publico.  A  mim  nada  me  ar- 
ranca de  mim  próprio  como  o  pavor  da  tribuna. 
Esta  terra  é  completamente  escura,  mas  eu  impo- 
nho-me,  fallando  n  ella,  as  responsabilidades  com 
que  fallaria  em  Athenas,  servindo-me  assim  a  mim 
mesmo,  como  um  homem  que  se  esmerasse  no  re- 
quinte da  sua  elegância  para  ficar  sósinho  em  casa. 
Veremos. 

Ahi  te  dará  o  António  uma  cousa  que  aqui  es- 
crevi, que  me  pediram  e  que  publicaram.  Dize-me 
francamente  se  aquillo  ainda  não  está  absoluta- 
mente estylo  de  preto. 

Eu  tenho  tédios  mortaes.  Volto  a  sorrir  á  possi- 
bilidade de  morrer.  Mas  agora  sem  tristeza ;  é  com 
placidez,  com  animo  frio,  sem  presumpções  falsas, 
que  penso  e  desejo  isto  ás  vezes.  Nenhum  senti- 


220  Correspondência  epistolar 

mento  me  prende  á  vida  :  o  da  família  e  o  dos  ami- 
gos verdadeiros,  esse  lá  iria  para  a  minha  sepultu- 
ra vigiar  por  mim.  Pois  então,  não  achas  tu  isto  ló- 
gico ? 

Vou  dizer-te  uma  cousa  com  toda  a  frieza  do  meu 
animo.  Ando  desconfiado  de  que  venho  a  acabar 
pela  semsaboria  do  suicídio.  N'esse  final  ninguém 
verá  a  vaidade^  mas  vejam  o  que  virem,  eu  é  que 
os  não  vejo  a  elles. 

E'  mau  quando  eu  começo  a  pensar  muito  na 
mesma  cousa,  e  essa  tolice  anda  ha  tempos  com  in- 
sistência  a  palavrear  no  meu  cérebro.  Deixa  ver. 

Adeus  meu  filho.  Beijo  os  mãos  da  nossa  querida 
amiga.  Beijo  os  teus  filhinhos  e  abraço-te. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo, 
Loanda  22  de  fevereiro  de  1872. 

O  morgado  sempre  doente,  e  por  ora  tenho  a  seu 
respeito  todos  os  desejos,  todas  as  esperanças,  mas 
não  sei  ainda  se  poderemos  assentar  negocio  com 
largueza  para  ambos.  Veremos.  Por  ora  o  negocio 
que  tenho  feito  resolve  se  em  casa  em  cima  d'uma 
banca:  dar  e  receber.  Não  estou  resolvido  a  sahir 
d'isto,  mas  quero  ver  se  o  morgado  se  sahe  com 
tínêta  para  tratar  com  o  gentio.  Sahindo,  será  bom, 
e  poderá  elle  prestar  um  capital  a  outro 

Estimo  que  fosses  para  Seide.  Chega-me  ao  co- 


Correspondência  epistolar  221 

ração  um  raio  d'essa  felicidade  entrevista  e  suspi- 
rada d'aqui. 

Mando-te  um  jornal  com  uma  noticia  de  uma  reu- 
nião aqui  feita  por  mim.  Se  fizeres  transcrever  isso, 
manda  o  papel. 

Eu  adoro  a  minha  casinha,  leio,  estudo,  rabisco, 
estou  iranquillo  (o  meu  eterno  inattingivel),  e  tenho 
até  a  felicidade  de  chorar  por  vossês  para  que  a 
alma  se  me  não  bestialise  n'estas  venturas  estagna- 
das. E  em  todo  o  caso  sempre  penso  que  o  mor- 
rer seria  o  melhor. 

Abraço-vos,  á  snr.^  D.  Anna  e  a  ti.  Beijo  os  fi- 
lhinhos. Outra  vez,  e  adeus. 

Teu 

José. 


Meu  querido  Camillo. 
Loanda,  19—4—72. 

Desde  o  dia  24  que  estou  de  novo  gemendo  es- 
tas febres  estúpidas.  Recahi  hontem,  mas  os  24 
grãos  de  quinino  que  tomei  de  noite  permittem- 
me  escrever-te,  o  que  faço  já  com  medo  de  que 
isto  vá  a  peor.  Tenho  duas  cartas  tuas.  Vejo  que 
as  tuas  festas  foram  como  as  minhas.  Eu  não  sei 
como  se  resiste  á  tristeza  profunda  do  recordar. 
A's  vezes  fujo  de  mim  mesmo  quando  as  saudades 
de  ha  doze  annos  para  cá  apertam  seriamente  com- 
migo.  Estupidissima  vida ! 

Tu  phantasias  cousas  adoráveis  para  mim.  Se 
podessc  realisar-se  esta  da  caridade  !  Mas  eu  estou 
preoccupadissimo  com  esta  cousa  do  commercio. 
Quem  sabe  o  que  poderá  succeder  ? 


222  Correspondência  epistolar 

Um  desastre  pôde  pôr-me  a  nú.  Agora  mesmo 
estou  n'uma  grande  indecisão  sobre  a  compra  do 
café  com  a  baixa  que  elle  já  soífreu,  e  que  ha  de 
soífrer  com  as  tnovidades  do  Brazil.  Que  a  Provi- 
dencia seja  por  mim !  Deves  ter  visto  o  meu  pro- 
jecto das  conferencias,  que  eu  por  ora  substituo 
ás  doze  lições.  Isto  é  porventura,  como  tu  podes 
imaginar,  duas  dúzias  de  facinoras  e  duas  dúzias 
de  bestas. 

O  António  dar-te-ha  um  retrato  meu.  Fora  das 
poucas  pessoas  da  minha  família,  a  quem  o  remetto, 
mando  um  a  ti,  outro  ao  Albino,  e  outro  ao  Miran- 
da. A  mais  ninguém.  Um  pedido  faço  a  todos  :  que 
o  não  larguem  do  seu  poder,   seja  para  quem  for. 

Se  um  photographo  obtivesse  copia  d'esse  retra- 
to, e  o  pozesse  á  venda,  seria  isso  para  mim  uma 
dor  horrível.  Aqui  preveni  tudo.  Eu  tirei-o  unica- 
mente para  dar  mais  uma  prova  da  minha  gratidão 
aos  meus  que  são  vocês  os  que  me  amam. 

Não  recebi  carta  da  snr.""  D.  Anna  por  este  pa- 
quete, como  tu  me  prevenias.  Não  chegou  a  escre- 
ver-me  ?  Eu  escrevi-lhe  a  28  de  março. 

Adeus,  meu  filho.  Tenho  o  corpo  todo  ás  pica- 
dellas,  sinto-me  doente,  está-me  na  bocca  o  péssi- 
mo sabor  do  quinino,  e  morreu-me  ha  pouco  uma 
benguellinha.  Seja  melhor  do  que  a  minha  a  situa- 
ção do  teu  espirito. 

Muitos  affectos  e  saudades  minhas  á  nossa  que- 
rida amiga,  e  beijos  a  todos  os  pequerruchos.  Eu 

abraço-te. 

Teu  do  coração 

José, 


Correspondência  epistolar  223 

Meu  querido  Camillo. 
Loanda,  17  de  maio  de  1872. 

Escrevo-te  com  a  testa  apertada  na  mão  esquer- 
da. Continuo  a  soffreri  A  época  do  cacimbo  aqui 
detesto-a,  e  a  minha  casa  que  é  óptima  no  verão, 
torna-se  perigosa  no  inverno  com  pneumonias  iguaes 
ás  que  mataram  o  dono  d'ella. 

Fui.  ao  Dondo,  o  peior  sitio  d' Angola,  e  andei  ca- 
minhos impossiveis  para  Cazengo  onde  comprei  uma 
casa,  e  onde  deve  estar  agora  o  morgado.  E'  ver- 
dade que  também  atirei  ao  jacaré  nas  margens  do 
Quanza,  o  rio  mais  lindo  do  mundo,  mas  tudo  isto 
se  paga  ! 

Recebi  os  teus  dous  livros  na  volta  de  Cazengo. 
Ainda  te  não  disse  que  tive  uma  biliosa  que  assus- 
tou o  meu  medico  dous  dias.  Mau  foi  não  descan- 
çar  de  vez  já  então.  Depois  sempre  mal.  Hei  de 
pois  ler  estes  livros  quando  também  concluir  um 
estudo  que  trago  nas  mãos.  O  que  eu  queria  era 
que  tu  me  encommendasses  todos  estes  estudos  do 
Proudhon,  a  que  pertence  a  Justiça,  e  entregasses 
ao  António  recebendo  d'elle  o  importe,  sim? 

Na  minha  viagem  escrevi  representações  para  as 
camarás  municipaes.  O  António  que  te  mostre. 

Dizes-me  cousas  adoráveis  na  tua  carta,  meu  que- 
rido. Se  eu  podesse  convencer-me  de  que  no  teu  al- 
tissimo  conceito  tinha  o  lugar  que  tu  me  dás !  Tu 
não  podes  enganar-me,  mas  tu  crês  que  sejam  as- 
sim as  minhas  imagens  ? 

Deus  queira  que  hajas  reparado  em  Seide  os  tor- 
mentos da  Foz  ! 


224  Correspondência  epistolar 

Ainda  volto  a  rir-me  com  as  tuas  jocosíssimas 
graças  a  respeito  das  pretas. 

Vi  com  tristeza  que  tinhas  comprado  café  meu. 
Eu  estava  á  espera  de  mandar-te  o  café-imitação 
mokay  o  primeiro  d' Angola,  e  que  vae  este  anno 
pela  primeira  vez  á  Europa.  E'  sobre  elle  que  fiz  a 
transacção  a  que  acima  me  refiro. 

Pedes-me  a  serio  o  niacaquinho  ?  E'  um  sagui 
que  tu  queres  ? 

O  Branco  não  deu  ao  Sebastião  os  passarinhos 
promettidos.  A  mim  também  morreram-me  todos. 
Hei  de  porém  fazer  nova  tentativa  de  remessa. 

O  Sebastião  entregou  a  minha  carta  á  snr.^  D.  An- 
na  ?  Porque  lhe  não  mereço  a  honra  e  a  alegria  das 
suas  letras? 

Beija-lhe  a  mão  por,^im,  e  os  teus  pequeninos. 

Recebe  o  meu  coração. 

Teu 


José, 


ULTIMA  CARTA 

Meu  querido 
Loanda,  22,  8,  72. 

Acabo  de  tremer  uma  sezão  e  arrancar  vómitos 
violentos  !  O  vapor  sahc  d'aqui  a  quatro  horas.  Res- 
pondo á  pressa  á  tua  cartinha  de  2  de  julho.  Lasti- 
mas-me  doente.  Se  tu  visses  o  que  cu  soffro ! 

Vou  pedir-te  e  á  cxc.™^  snr.*  D.  Anna,  que  coope- 
rem com  o  António  n'uma  cousa.  Dá-me  cabo  da 
vida  esta  canalha  d'aqui,  se  me  não  mandam  uma 


^  Correspondência  epistolar  225 

creada,  da  província,  da  aldêa,  de  40  a  45  annos, 
sadia,  amoravel  para  doenças,  vigorosa,  seria  e  ho- 
nesta. É-me  indispensável  isto.  Será  possivel  ? 

Espero  com  anciedade  o  livro  que  me  promettes 
—  O  Carrasco. 

Dizes  que  pergunte  qualquer  cousa  ao  Sampaio, 
e  ao  Jayme,  etc.  O  primeiro  ha  muito  que  me  não 
escreve.  O  segundo  não  me  escreveu  nunca ! 

Nada  escrevas  ao  morgado.  O  homem  está  em 
Cazengo,  e  desde  que  pôde,  em  mangas  de  cami- 
sa, trabalhar  como  um  mouro,  assombrou  toda  a 
gente ! 

A  questão  é  saber  agora  se  elle  dá  conta  de  si 
no  final  da  administração  da  casa.  Veremos.  Elle 
diz  que  sim,  eu  tenho  esperanças,  mas  aguardo 
sempre.  Mando  ao  António  todas  as  cartas  do  mor- 
gado escriptas  de  Cazengo.  Vê  tudo  isso  e  o  que 
digo  d'elle  mais  devagar  escripto  em  hora  de  saúde. 

Seide !  a  pedra  e  os  cyprestes  !  Ah,  não  volto  ahi 
mais.  Não  cabe  essa  felicidade  no  meu  destino!  Fu- 
jamos d'estas  memorias  que  me  despedaçam ! 

Já  perguntei  se  o  criado  do  morgado  não  entre- 
gou uma  carta  minha  á  snr.*  D.  Anna  ? 

Adeus,  meu  querido  Camillo.  Abraço-te. 

Teu 
José^ 


VOL.  I  1 5 


José  Cardoso  Vieira  de  Castro,  no  fim  da 
vida,  repartiu  a  herança  do  seu  coração  pelo 
grupo  das  pessoas  que  o  amaram  muito  no  in- 
fortúnio e  nunca  souberam  lisongear-lhe  a  mal 
dissimulada  prosperidade.  Em  certas  existên- 
cias, a  bonança  é  como  a  serenidade  do  céo  no 
intervallo  de  dois  estrondos  que  seguem  o  co- 
riscar da  faisca. 

No  momento  em  que  elle  cahiu  fulminado, 
rodearam-n^o  quantos  lhe  haviam  adorado  a 
generosa  alma,  a  palavra  confortadora^  a  ale- 
gria luminosa  que  descondensava  a  escurida- 
de dos  tristes. 

Uma  senhora,  que  lhe  devia  em  amizade  a 
compensação  dos  ódios  do  mundo,  guarda  al- 
gumas cartas  de  Vieira  de  Castro  com  religio- 
sa saudade.  N'essas  paginas  ainda  ahi  se  repar- 
tem commigo  as  lagrimas  que  lhe  foram  desa- 
fogo e  vida  emquanto  pôde  chorar. 


Correspondência  epistolar  22'] 

Minha  querida  senhora. 

Ponho  nas  suas  mãos  com  os  meus  beijos  as  la- 
grimas da  minha  grande  desgraça.  Suffocam-me 
ainda  estas  tarjas  pretas.  No  meu  silencio  ha  tudo 
o  que  poderiam  e  deveriam  dizer-lhe  as  minhas  im- 
mensas  dores,  e  a  minha  eterna  gratidão. 


Meu  querido  amigo,  aperto-te  contra  o  meu  co- 
ração, e  agradeço-te  o  teres-me  segurado  o  juizo. 
Era  grande  a  força  da  minha  consciência,  foi  Deus 
quem  armou  o  meu  braço,  mas  tive  medo  de  en- 
louquecer nos  primeiros  dias  de  cárcere. 

Eu  amava-a  muito.  Punha-lhe  o  peito  debaixo 
dos  pés,  e  esmagou-m'o.  Matou-a  o  amor  que  eu 
lhe  tinha.  Eu  era  orador,  e  fiquei  mudo.  Escrevia 
e  parti  a  minha  penna.  Era  rico,  e  fiquei  pobre. 

A  minha  santa  pobreza  é  a  única  luz  que  Deus 
deixou  ás  minhas  trevas. 

Isto  não  digo  a  ninguém.  Digo-o  aos  grandes  des- 
graçados como  eu.  Adeus,  lembrem-se  algumas  ve- 
zes de  mim. 

O  teu 

'Vieira  de  Castro, 


III.'^''  e  exc."^^  snr.^ 


Lisboa,  i3  —  9  —  70. 


Minha  querida  amiga.  Quem  fora  d'essa  casa  sa- 
hiria  a  punir  por  mim  ? 


228  Correspondência  epistolar 

Beijo-lhe  as  mãos,  minha  querida  senhora. 

Eu  tenho  o  corpo  inerte  para  os  baldões  dos 
maus,  mas  sinto  sempre  o  coração  extremamente 
grato  a  esta  partilha  de  angustias  que  v.  exc*  e  o 
nosso  Camillo  querem  ter  no  meu  infortúnio. 

Eu  havia  presentido  o  seu  coração  n'aquelles  pun- 
gentes gritos. 

Depois  quiz  attribuir  o  folhetim  a  meu  irmão  An- 
tónio. Não  me  enganei  pois.  Só  podia  ser  de  famí- 
lia aquella  raiva  e  aquelles  alentos. 

De  novo  lhe  beijo  as  mãos,  minha  boa  amiga. 

Escrevo  aqui  ao  Camillo,  sim?  Tenho  duas  car- 
tas d'elle. 

Afflige-me  profundamente  esta  tenacidade  dos  pa- 
decimentos d'elle. 

Que  é  aquillo  ?  que  doença  terá  elle  ?  qual  será 
de  todas  as  que  lhe  figura  a  sua  imaginação  e  a  sua 
bisbilhotice  de  leituras  medicas  ? 

Deus  permitisse  que  não  fosse  nenhuma ! 

Eu  tenho  celestiaes  alegrias  no  seio  da  minha  al- 
ma quando  penso  que  elle  escreve  a  meu  respeito. 
Se  eu  podesse  dar-lhe  a  minha  saúde  que  não  ser- 
ve de  nada ! 

Vi  que  o  applaudiram  no  Porto. 

Que  triumphos  poderão  recusar-lhe  ? 

Adeus  meus  queridos  e  estremccidissimos  ami- 
gos. 

De  V.  exc* 
amigo  e  criado  muito  humilde 

J,  C.  Vieií^a  de  Castro» 


Correspondência  epistolar  22g 

Jl/ma  ç  exc/*'''  snr,^ 
Lisboíi,  12 — 12 — 70. 

Minha  querida  amiga.  Perdôe-me  vir  tão  tarde 
beijar-lhc  as  mãos  pelos  confortos  que  ella  mandou 
quando  eu  mais  precisava  d'elles. 

Eu  estou  conformado  com  o  meu  destino.  Sin- 
to-me  melhor  no  coração  depois  da  desgraça,  e 
sinto  Deus  na  tranquilidade  da  minha  consciência  e 
na  paz  do  meu  espirito.  Creio  que  não  podia  nem 
devia  ser  senão  assim. 

Amava-a  muito,  muito.  Mas  penso  que  fui  cruel. 
E*  isso  o  que  expio.  E  eu  nunca  pude  com  tama- 
nha serenidade  chamal-a  ao  meu  espirito  como  de- 
pois de  lhe  poder  mostrar  para  o  céo  os  meus  bra- 
ços presos  pelas  grades.  Fui  cruel  mas  fui  justo. 
Também  fui  piedoso  porque  a  infelicidade  maior 
era  do  que  sobrevivesse.  Deus  é  que  quiz  ser  bom 
commigo.  Hoje  convenço-me  e  sinto  que  a  condem- 
nação  me  dá  a  força  que  eu  não  podia  dever  á  li- 
berdade. 

Tantas  lagrimas  chorei  hoje,  minha  querida  se- 
nhora, com  uma  carta  em  que  o  António  me  contava 
as  suas  impressões  na  representação  do  Condem- 
nadol.t.  Quiz  mandal-a  ao  Camillo,  mas  o  Antó- 
nio diz-me  que  elle  deve  chegar  aqui  amanhã.  Será 
verdade?  Surprehendeu-me  isto  por  não  poder  sup- 
pôl-o  com  a  ultima  carta  do  Camillo  que  recebi  hon- 
tem.  Mandar-lh'a-hci  em  todo  o  caso  a  v.  exc*  se 
elle  eífectivamente  me  apparecer  aqui  amanhã. 

O  que  eu  devo  a  Camillo !  Que  carta  aquella  ! 
Que  coração  o  seu ! 

Mando-lhe  a  carta  do  António.  Escuso  dizer-Ihes 


23o  Correspoij delicia  epistolar 

que  a  gratidão  de  que  elle  falia  na  quarta  pagina 
não  podia  referir-se  senão  ao  immenso  aíFecto  que 
elle  sabe  que  eu  tive  sempre  a  esse  privilegiado 
homem. 

Beijo  as  mãos  de  v.  exc/  e  a  face  de  todos  os 
seus  filhinhos. 

De  V.  exc* 

velho  amigo  admirador  e  criado 
obrigadissimo 

J.  C.  Vieira  de  Castro, 


Meu  querido  Camillo. 
Dia  i3. 

Veio  a  tua  cartinha  ao  António,  que  elle  me  man- 
dou. Peço-te  que  não  repitas  tentativas  que  te  pre- 
judicam, e  mais  me  affligem  a  mim.  O  que  eu  te 
devo,  meu  filho ! 

Recebi  a  tua  ultima  carta,  que  leio  e  releio  com 
todas  as  outras. 

Agradeço  á  tua  grande  alma  isso  que  eu  já  adi- 
vinhara, e  que  o  António  diz  na  segunda  pagina 
d' esta  carta. 

Eu  continuo  conformado,  meu  filho.  Seria  quasi 
feliz,  se  Deus  me  assegurasse  a  tua  existência,  a 
dos  meus,  a  sympathia  unanime  da  opinião,  e  a  mi- 
nha tristeza  eterna  pelas  saudades  do  que  perdi. 

Com  que  alvoroço  receberei  o  Condemnado !  Po- 
derei eu  lêl-o  ?  Quantas  novas  lagrimas  e  soluços 
porei  eu  no  teu  peito  ?  Leio-o,  porque  espero  d'ellc 
força  e  paz. 


Correspondência  epistolar  23 1 

Adeus,  meu  querido  Gamillo.  Deves  ter  rece- 
bido a  minha  carta  em  que  te  abraçava  pela  dedi- 
catória. 

Teu 

José. 


ExcJ^  snr,^ 

Minha  querida  amiga.  Aqui  as  tenho,  as  flori- 
nhas  de  Seide.  Beijo-lhe  as  mãos  por  estas  dores 
que  o  seu  presente  me  trouxe. 

Esteve  hontem  aqui  o  morgado.  Hoje  espero -o 
a  elle  para  o  jantar.  Hontem  foi  o  meu  aquelle  mi- 
mo que  elle  me  trouxe  também  do  ultimo  banquete 
de  Seide. 

Não  tenho  carta  do  Gamillo  ha  dias. 

V.  exc.^  tem  a  bondade  de  dizer-lhe  que  o  meu 
processo  segue  para  o  Supremo,  e  que  a  parte  foi 
quem  recorreu  ? 

Como  estão  ? 

Eu  abraço-os  a  ambos,  meus  queridos  e  santos 
amigos. 

De  V.  exc* 
amigo  e  criado  obrigadissimo 

/.  C.  Vieira  de  Castro, 


FIM  DO  VOLUME  PRIMEIRO 


J.  P.  OLIVEIRA  MARTINS 


OBRAS    COMPLETAS 


I.  Historia  nacional: 


HiSTOBiA  DA  CIVILI8AÇÃO  IBEBICA,  4.'  «d.  (1897),  1  vol.   br.  700  rs.  Ene.  900. 

Historia  db  Portugal.,  6.»  ed.  (1901),  2  vol.,  br.  1^400  rs.  Ene.  1^800. 

O  Brazil  e  as  colónias  portuguezas,  3.*  ed.  (1888),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  90í'. 

Portugal  contemporâneo,  3.*  ed.  (1895),  2  vol.,  br.  2^000  rs.  Ene.  2^400. 

Portugal  nos  mares,  (1889),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 

Camões,  os  .Lusíadas  e  a  renascença  em  Portugal,  (1891).  1  vol.,  br.  600  rs. 
Ene.  800. 

Naveoaciones  t  descubrimientos  de  los  portugueses,  (ed.  do  Ateneo  de  Madrid, 
1892),  1  vol.  (não  entrou  no  commercio.) 

A  vida  de  Nun'alvares,  2.»  ed.  (1894),  1  vol.,  br.  2^000  rs.  Cart.  2,J400.  Ene.  (fo- 
lhas doiradas)  3^200. 

Os  filhos  db  d.  João  i,  2.*  ed.,  2  vol.,  br.  1^400  rs.  Ene.  1^800  rs. 

O  Prihcipb  pebfbito,  (1895)  1  vol.,  br.  2^^000  rs.  Encad.,  folhas  doiradas,  3^200  rs. 


II.  Historia  geral : 

Elemextos  de  anthropologia,  4.»  ed.  (1895),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 
As  RAÇAS  humanas  e  A  civiLiSAçXo  PRIMITIVA,  2  vol.,  br.    1^400  rs.  Ene.  1^800  rs 
Systema  dos  mythos  RELIGIOSOS,  2."  ed.  (1895)  1  vol.,  br.  800  rs.  Ene.  1^000. 
Quadro  das  instituições  primitivas,  2.*  ed.  (1893)  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 
O  regime  das  riquezas,  2.»  ed.  (1894),  1  vol.,  br.  600  rs.  Ene.  800. 
Historia  da  republica  romana,  2.*  ed.,  1897,  2  vol.,  br.  2^000  rs.  Ene.  2(5(400. 
O  HELLENiSMO  EA  civiLiSAÇÃo  christã,  2.*  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Ene.  1<JOO0  rs. 
Taboas  DB  CHBONOLOGiA  E^GEOGRAPHiA  HISTÓRICA,  (1884),  1  Tol.,  br.  1^000  rs.  En- 
cadernado 1^200. 


III.  Varia: 

A  CIRCULAÇÃO  FIDUCIÁRIA,  2.*  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Ene.  1^^000  rs. 

A  BEOROANiSAçÃo  DO  Banco  DE  PORTUGAL,  opusculo,  (1877)  br.  150  rs. 

o  ARTIGO  «Bancoi»  no  Diccionario  Universal  Portuguez,  (1877),  1  vol  ,  br.  500  rs. 

Politica  e  economia  nacional,  (1885),  1  vol.,  br.  700  rs. 

Projecto  de  lei  de  fomento  rural,  apresentado  á  camará  doa  deputados  na  sessão 

de  1887,  1  vol.,  br.  300  rs. 
Elogio  histórico  de  Anselmo  J.  Braamcamp,  ed.  part.  (1886),  1  vol.  (esgotado). 
Theophilo  Braga  e  o  Cancioneiro,  opúsculo,  (lS69)  esgotado, 
o  Socialismo,  (1872-3),  2  vol.,  br.  1^200.  (Esgotado) 
As  ELEIÇÕES,  opusculo,  (1878),  br.  200  rs. 

Carteira  db  um  jornalista  :  I.  Portugal  em  Africa,  (1891),  1  vol.,  br.  400  rs, 
Inglaterra  de  hoje,  cartas  de  um  viajante,  2.»  ed.,  (1894),  1  v»l.,  br.  800  rs. 

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Cabtas  PBNíNSaLABBS,  (1895),  1  vol.  br.  600  rs.  Ene.  800  rs. 


Parceria  António  Maria  Pereira 

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Parceria  Anionio  Maria  Pereira  — Livraria-edilora 

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